POLÍTICA E GNOSE

Raymond Abellio. De la politique à la Gnose. Entretiens avec Marie-Thérèse de Brosses. Paris: Pierre Belfond, 1987

Prefácio de Marie-Thérèse de Brosses

A política

A arte e a comunicação

A mulher e o amor

Esoterismo e Estrutura Absoluta

Rostos imóveis

Genealogia e transfiguração do Ocidente


Prefácio

«Quando me pego refletindo sobre o pouco tempo que nos é dado para viver e para nos encher de experiências que valham a pena, a incontável multidão de pequenas dificuldades e pequenas satisfações que constituem a trama da vida se perde numa espécie de horizonte cinzento e indistinto, e as próprias noções de felicidade e infelicidade me parecem igualmente fúteis. Ao mesmo tempo, essa convicção todo-poderosa que habita em mim, de que serei sempre, doravante, ao mesmo tempo ator e espectador da minha própria aventura, ajuda-me a aceitar qualquer destino e a me fortalecer nele e contra ele.” (Os olhos de Ezequiel estão abertos)

O encontro com a obra de Raymond Abellio, achada ao acaso entre livros de um bouquiniste às margens do Sena, revelou-se um acontecimento fundador que transformou a compreensão do que significa ler.

A obra de Abellio não se limita à especulação estéril, mas oferece um instrumento operatório que convida o leitor a praticar uma praxis voltada para o despertar do homem interior.

Ler Abellio equivale a aprender a sair de múltiplas prisões intelectuais e existenciais que condicionam a experiência moderna.

Em 1965, ao ser convidado por Pierre Belfond a sugerir nomes para uma nova coleção de entrevistas, o único nome proposto foi o de Abellio, em detrimento de Samuel Beckett ou Marguerite Duras.

Raymond Abellio é o pseudônimo de Georges Soulès, cuja trajetória pessoal forneceu a matéria viva para toda a obra literária e filosófica posterior.

O encontro decisivo com Pierre de Combas, por volta de 1943, abriu as portas de uma metafísica renovada que reunia conhecimentos tradicionais chineses e hebraicos.

A Estrutura Absoluta não se resume, pratica-se, pois reúne as lógicas do Ocidente avançado e do pensamento tradicional em uma síntese última e clara voltada para a autorrealização.

No contexto em que a intelligentsia francesa gravitava em torno do marxismo e da psicanálise, Abellio relativizou ambas as doutrinas ao recolocá-las cada uma em seu próprio quadro.

Abellio vivia num desprezo total pelas modas e pelo mundo literário parisiense, alheio a cenáculos e capelas, o que tornava ainda mais intensa a curiosidade despertada por sua obra e por sua personalidade enigmática.

O primeiro contato telefônico revelou a modéstia surpreendente de Abellio, e o encontro inicial, previsto como breve, transformou-se em uma longa conversa de quase cinco horas que marcou o início de uma cumplicidade de vinte e um anos.