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| + | ====== DOENÇA MORTAL DO EU (TD:48-51) ====== | ||
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| + | Esta ideia de “doença mortal” deve ser tomada num sentido especial. Ao pé da letra significa um mal cujo termo, cujo desfecho é a morte, e serve então de sinônimo de uma doença da qual se morre. Mas não é em tal sentido que se pode chamar assim o desespero; pois, para o cristão, a própria morte é uma passagem para a vida. Assim sendo, nenhum mal físico é para ele “doença mortal”. A morte põe termo às doenças, mas não é um termo em si mesma. Mas uma “doença mortal” no sentido estrito, significa um mal que resulta na morte, sem mais nada depois dela. E é isso o desespero. | ||
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| + | Mas em outro sentido, mais categoricamente ainda, ele é a “doença mortal”. Porque, longe de se morrer propriamente dele, ou de consumar-se esse mal com a morte física, pelo contrário, a sua tortura consiste na impossibilidade de morrer sofrendo-o, tal como na agonia se debate o moribundo com a morte, sem contudo morrer. Assim, estar mortalmente doente é não poder morrer, mas então a vida não permite esperança, e a desesperança é a ausência da última esperança, a ausência da morte. Enquanto ela é o supremo risco, tem-se esperança na vida; mas quando se descobre o infinito do outro perigo, tem-se esperança na morte. E quando o perigo cresce a tal ponto que a morte se torna a esperança, o desespero é a desesperança de poder, sequer, morrer. | ||
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| + | Nessa última acepção, o desespero é portanto a “doença mortal”, esse suplício contraditório, | ||
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| + | O homem que desespera tem um motivo de desespero, é o que se pensa por um momento, não mais que por um momento; pois logo surge o verdadeiro desespero, a verdadeira figura do desespero. Desesperando de uma coisa, no fundo desesperava de si, e agora quer desfazer-se do seu eu. Assim, quando o ambicioso que diz “Ser César ou nada” não consegue ser César, desespera disso. Mas isto tem outro sentido; é por não se ter tornado César que ele não mais suporta ser si mesmo. Não é pois por não se ter tornado César que, no fundo ele desespera, mas do que eu que não o conseguiu. Esse mesmo eu que de outro modo teria feito toda a sua alegria, alegria aliás não menos desesperada, | ||
