kierkegaard:kierkegaard-cac3-tempo-e-angustia
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| - | ====== Kierkegaard (CA:C3) – tempo e angústia ====== | ||
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| - | <tabbox português> | ||
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| - | Afirmou-se constantemente, | ||
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| - | O homem era, portanto, uma síntese de alma e corpo, mas também é uma síntese do temporal e do eterno. Não tenho nada a objetar se isso já foi afirmado com muita frequência, | ||
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| - | No que toca a esta última síntese, salta aos olhos que é formada de modo diferente da primeira. Na primeira, alma e corpo eram os dois momentos da síntese, e o espírito, o terceiro, porém de tal modo que só se podia falar em síntese quando se concebia o espírito. A segunda síntese tem apenas dois momentos: o temporal e o eterno. Onde se acha aqui o terceiro? E, não havendo terceiro, não há a rigor nenhuma síntese, pois uma síntese, que é uma contradição, | ||
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| - | Se se define o tempo corretamente como a sucessão infinita, o próximo passo seria, aparentemente, | ||
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| - | O presente não é, entretanto, um conceito do tempo, a não ser justamente como algo infinitamente vazio de conteúdo, o que, por sua vez, corresponde ao desaparecer infinito. Se não atentarmos para isto, teremos posto o presente, mesmo que o deixemos desaparecer rapidamente, | ||
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| - | O eterno, pelo contrário, é o presente. Pensado, o eterno é o presente como sucessão abolida (o tempo era a sucessão que passa). Para a representação, | ||
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| - | O tempo é, portanto, a sucessão infinita; a vida que apenas está no tempo e só pertence ao tempo não tem nenhum presente. É verdade que se costuma, às vezes, para definir a vida sensual, dizer que ela é (vivida) no instante e somente no instante. Compreende-se então por instante a abstração do eterno que, se quisermos tomar como presente, é uma paródia dele. O presente é o eterno ou, mais corretamente, | ||
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| - | O instante designa o presente como um tal que não tem pretérito nem futuro; pois é aí que reside justamente, aliás, a imperfeição da vida sensual. O eterno significa igualmente o presente, que não possui nenhum passado e nenhum futuro, e esta é a perfeição do eterno. | ||
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| - | Se se quiser usar agora o instante para com ele definir o tempo, e fazer o instante designar a exclusão puramente abstrata do passado e do futuro e, como tal, o presente, então o instante não será exatamente o presente, pois o intermediário entre o passado e o futuro, pensado de maneira puramente abstrata, simplesmente não é nada. Mas assim se vê que o instante não constitui uma mera determinação do tempo, dado que a determinação do tempo é apenas que ele passa (e se vai), razão por que o tempo – se há de ser definido por qualquer das determinações que se manifestam no tempo – é o tempo passado. Se, ao invés, o tempo e a eternidade se tocarem um no outro, então terá de ser no tempo, e agora chegamos ao instante. | ||
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| - | “O instante” é (na língua dinamarquesa) uma expressão figurativa, e até aí não é tão bom ter de lidar com ela. Contudo, é uma bela palavra para examinar. Nada é tão rápido quanto uma olhadela e, contudo, ela é comensurável com o conteúdo do eterno. Assim, quando Ingeborg mira o oceano à procura de Frithiof, temos uma imagem para o que esta expressão figurativa significa. Um arroubo de seu sentimento, um suspiro, uma palavra, por serem sonoros, já teriam neles, como som, antes a determinação do tempo, e seriam mais presentes como algo que se esvai, e não têm tanto a presença do eterno em si, como, aliás, também por isso, um suspiro, uma palavra, etc., têm poder para aliviar a alma de um peso que acabrunha, justamente porque este peso acabrunhante, | ||
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| - | Entendido dessa forma, o instante não é, propriamente, | ||
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| - | A síntese do temporal e do eterno não é uma outra síntese, mas é a expressão daquela primeira síntese, segundo a qual o homem é uma síntese de alma e corpo, que é sustentada pelo espírito. Tão logo o espírito é posto, dá-se o instante. Por isso, pode-se dizer, com justiça, de um homem, como uma censura, que ele vive apenas no instante, dado que isso só ocorre por uma abstração arbitrária. A natureza não se situa no instante. | ||
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| - | O que vale para a temporalidade vale para a sensualidade; | ||
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| - | O instante é aquela ambiguidade em que o tempo e a eternidade se tocam mutuamente, e com isso está posto o conceito de temporalidade, | ||
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| - | Com essa divisão, a atenção dirige-se imediatamente para o fato de que o futuro, num certo sentido, significa mais do que o presente e o passado; pois o futuro num certo sentido é o todo, do qual o passado é uma parte, e o futuro pode, num certo sentido, significar o todo. Isto resulta de o eterno primeiramente significar o futuro, ou de que o futuro seja o incógnito no qual o eterno, como incomensurável com o tempo, quer mesmo assim salvaguardar seu relacionamento com o tempo. Assim, o uso linguístico toma às vezes o futuro como idêntico ao eterno (a vida futura = a vida eterna). Já que os gregos não tinham num sentido mais profundo o conceito do eterno, não tinham tampouco o do futuro. Por isso, não se pode censurar o desperdício da vida grega no instante, ou mais corretamente nem mesmo se pode dizer que era desperdiçada, | ||
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| - | O instante e o futuro põem, por sua vez, o passado. Se de algum modo a vida grega devesse designar alguma determinação do tempo, seria a de passado; contudo, o tempo passado não definido em sua relação com o presente e o futuro, porém em sua determinação geral de tempo: como um ir passando. Aqui o recordar platônico mostra sua significação. O eterno dos gregos situa-se lá atrás, como um passado em que só se entra recuando. Contudo, este é um conceito totalmente abstrato do eterno: que ele seja o passado, como quer que isso venha a ser definido mais de perto: filosoficamente (o morrer à maneira filosófica) ou historicamente. | ||
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| - | Em geral, pode-se, ao definir os conceitos de passado, futuro e eterno, atentar para o modo como o instante foi definido. Não havendo o instante, o eterno aparece lá atrás como passado. É como se eu pusesse um homem a percorrer um caminho, porém não mostrasse um só passo, e de repente o caminho aparecesse atrás dele como já percorrido. Se o instante for posto, mas como mero discrimen “divisão”, | ||
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| - | Consideremos agora Adão e recordemos em seguida que cada indivíduo posterior inicia exatamente do mesmo modo, só que dentro da diferença quantitativa que é consequência da relação da geração e de relação histórica. Para Adão, tal como para o homem posterior, existe o instante. A síntese do anímico e do somático deve ser posta pelo espírito, mas o espírito é o eterno, e por isso a síntese só ocorre quando o espírito põe a primeira síntese junto com a segunda, a do temporal e a do eterno. Enquanto o eterno não estiver posto não haverá o instante, ou apenas o discrimen “limite”. Com isso, visto que o espírito na inocência está determinado apenas como espírito sonhador, o eterno se mostra como o futuro, porque este é, já o dissemos antes, a primeira expressão do eterno, e seu incógnito. Tal como (no capítulo anterior) o espírito, na medida em que deveria ser posto na síntese, ou melhor, na medida em que deveria estabelecer a síntese enquanto possibilidade do espírito (da liberdade) na individualidade, | ||
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| - | O possível corresponde perfeitamente com o porvir. Para a liberdade, o possível é o porvir; para o tempo, o porvir é o possível. Na vida individual, a angústia corresponde a ambos. Um exato e correto uso linguístico vincula, portanto, ambos: angústia e porvir. Costuma-se dizer, é verdade, que a gente se angustia pelo passado, e isso parece opor-se ao que foi dito. Observando-se, | ||
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| - | Desse modo, estamos novamente onde já estávamos no cap. I. Angústia é o estado psicológico que antecede ao pecado, dele se acerca tanto quanto possível, tão angustiante quanto possível, sem, contudo, explicar o pecado, que apenas surge no salto qualitativo. | ||
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| - | No instante em que o pecado é posto, a temporalidade passa a ser pecaminosidade. Não dizemos que a temporalidade seja pecaminosidade, | ||
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| - | <tabbox francês> | ||
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| - | On a constamment affirmé aux deux premiers chapitres que l’homme est une synthèse d’âme et de corps, constitué et porté par l’esprit. L’angoisse était, pour user d’un nouveau terme redisant autrement ce qu’on a dit dans ce qui précède et visant en même temps ce qui va suivre, l’angoisse était l’instant dans la vie de l’individu. | ||
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| - | L’homme est donc une synthèse d’âme et de corps, mais est en même temps une synthèse de temporel et d’éternel. Que l’on ait souvent dit, je n’ai rien à y objecter, car ce n’est pas mon désir de trouver des nouveautés, | ||
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| - | Pour la dernière synthèse, il saute aux yeux qu’elle est formée autrement que la première. Dans celle-ci l’âme et le corps étaient les deux facteurs et l’esprit entrait en tiers, mais de sorte qu’il n’était vraiment question de la synthèse qu’au moment où l’esprit était posé. L’autre synthèse n’a que deux facteurs: le temporel et l’éternel. Où est ici le tiers? Et s’il n’y en a pas, au fond il n’y a pas de synthèse, puisqu’une synthèse contradictoire ne peut s’achever comme synthèse sans un tiers, car le fait, pour elle, d’être une contradiction énonce précisément son inexistence. Qu’est-ce alors que le temporel? | ||
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| - | Quand on définit justement le temps comme une succession infinie, il semble naturel aussi de le définir comme présent, passé et futur. Distinction cependant fausse, si l’on pense qu’elle est située dans le temps même; car elle n’apparaît que par le rapport du temps à l’éternité et par le reflet de l’éternité dans le temps. Si dans la succession infinie du temps on savait en effet où trouver pied, c’est-à-dire un présent qui fût départageant, | ||
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| - | Le présent n’est cependant pas un concept du temps, saut justement comme un sans-contenu infini, ce qui à son tour est précisément l’infini disparaître. Si l’on n’y prend garde, si vite qu’on le laisse disparaître, | ||
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| - | L’éternel au contraire est le présent. Pour la pensée c’est du présent en tant que succession abolie (le temps était la succession qui passe). Nous nous le représentons comme une progression mais qui n’avance pas, parce que pour l’imagination l’éternel est du présent d’une plénitude infinie. Dans l’éternel de nouveau on ne retrouve donc pas la séparation du passé et de l’avenir, parce que le présent est posé comme la succession abolie. | ||
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| - | Le temps est donc la succession infinie; la vie, qui est dans le temps et qui n’est que du temps, n’a pas de présent. Il est vrai que pour définir la vie sensuelle on a souvent l’habitude de dire qu’elle est dans l’instant, | ||
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| - | L’instant signifie le présent comme chose qui n’a ni passé, ni avenir; car c’est là justement l’imperfection de la vie sensuelle. L’éternel signifie aussi le présent qui n’a ni passé ni avenir, mais cela même est sa perfection. | ||
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| - | Si maintenant l’on veut se servir de l’instant pour définir le temps, et que l’instant signifie la pure élimination abstraite du passé et de l’avenir et qu’on lui fasse ainsi signifier le présent, alors l’instant n’est précisément pas le présent, car l’intermédiaire, | ||
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| - | Le mot d’instant en danois50 étant une métaphore n’est par conséquent guère commode à manier. C’est pourtant un beau mot à le considérer. Rien en effet n’a la vitesse du regard, et pourtant il est commensurable au contenu de l’éternité. Ainsi quand Ingeborg demeure à contempler la mer à la recherche de Frithiof51, on a là une image de ce que l’expression signifie. Un éclat de sa passion, un soupir, un mot, parce qu’il est un son, a déjà en lui plus de la nature du temps et contient plus de ce présent voué à disparaître que de cette présence pure qu’est l’éternité, | ||
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| - | Ainsi entendu l’instant n’est pas au fond un atome de temps, mais d’éternité. C’est le premier reflet de l’éternité dans le temps, sa première tentative pour ainsi dire d’arrêter le temps. Aussi les Grecs ne comprenaient-ils pas l’instant, | ||
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| - | La synthèse du temporel et de l’éternel n’en est pas une nouvelle, mais ne fait qu’exprimer cette première synthèse selon laquelle l’homme en est une d’âme et de corps portée par l’esprit. Dès qu’on pose l’esprit, on a l’instant. C’est pourquoi on a raison de dire de l’homme, comme blâme, qu’il ne vit que dans l’instant puisqu’il le fait en vertu d’une élimination arbitraire. La nature en effet n’est pas dans l’instant. | ||
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| - | Il en va du temporel comme du sensuel; car le temporel paraît encore plus imparfait, l’instant encore plus exigu que la persistance de la nature dans le temps et que sa sécurité apparente. Et pourtant c’est le contraire, cette sécurité de la nature venant de ce que le temps n’existe pas pour elle. L’histoire naît toujours dans l’instant. La sensualité humaine devient, par le péché, peccabilité et se pose donc plus bas que celle de l’animal, mais c’est justement parce qu’ici commence la supériorité de l’homme, parce qu’ici commence l’esprit. | ||
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| - | L’instant est cette équivoque où le temps et l’éternité se touchent, et c’est ce contact qui pose le concept du temporel où le temps ne cesse de rejeter l’éternité et où l’éternité ne cesse de pénétrer le temps. Seulement alors prend son sens notre division susdite: le temps présent, le temps passé, le temps à venir. | ||
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| - | Dans ce classement ce qu’on remarque d’abord, c’est que l’avenir en un sens signifie plus que le présent et le passé, car n’est-il pas le tout dont le passé n’est qu’une partie? Qu’il puisse en un sens le signifier vient de ce que l’éternel signifie d’abord l’avenir, ou encore que l’avenir est cet incognito où l’éternel, | ||
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| - | L’instant et l’avenir posent à leur tour le passé. Si la vie grecque a jamais signifié quelque catégorie du temps, c’est plutôt le passé, non un passé s’opposant au présent et à l’avenir, mais comme catégorie générale du temps: une sorte de défilé. Ici le souvenir platonicien trouve son sens. L’éternité grecque est en arrière comme le passé dans lequel on n’entre qu’à reculons54. Cependant c’est un pur concept abstrait de l’éternel, | ||
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| - | En règle générale, pour déterminer le sens des concepts du passé, de l’avenir, de l’éternel, | ||
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| - | Figurons-nous maintenant Adam et rappelons ensuite que chaque individu depuis Adam commence identiquement comme lui, mais dans le cadre de cette différence quantitative qu’entraînent la génération et les données de l’histoire. Pour Adam donc, aussi bien que pour l’homme après lui, l’instant existe. La synthèse de l’âme et du corps doit être posée par l’esprit, mais l’esprit est l’éternel et n’existe donc que quand l’esprit pose aussi la première synthèse, celle du temporel et de l’éternel. Tant qu’on ne pose ce dernier, l’instant n’est pas ou n’est qu’un discrimen. Aussi, puisque l’esprit dans l’innocence n’est défini qu’à l’état de rêve, l’éternel se montre-t-il comme l’avenir, qui est, nous l’avons dit, sa première expression, son incognito. De même donc (au chapitre précédent) que, devant se poser dans la synthèse ou plutôt la poser, l’esprit comme possible de lui-même (c’est-à-dire de la liberté) dans l’individualité s’exprimait comme angoisse, de même ici le futur, possible de l’éternité (c’est-à-dire de la liberté) apparaît à son tour dans l’individu comme angoisse. Au moment où alors son propre possible lui apparaît, la liberté blémit et le temporel se produit alors de la même façon que la sensualité au sens de peccabilité. Je le redis encore, ceci n’est que la dernière expression psychologique de l’ultime acheminement psychologique au saut qualitatif. La différence entre Adam et l’individu après lui, c’est que l’avenir pour ce dernier est plus réfléchi que pour Adam. Ce plus peut, aux yeux du psychologue, | ||
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| - | Le possible correspond tout à fait à l’avenir. Pour la liberté il est l’avenir, et pour le temps l’avenir c’est le possible. Et à l’un comme à l’autre, dans la vie individuelle, | ||
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| - | Ainsi nous voilà retombés où nous en étions au chapitre I. L’angoisse est l’étape psychologique qui précède le péché, qui s’en rapproche autant que possible, aussi anxieusement qu’elle peut, sans pourtant expliquer le péché qui n’éclate que dans le saut qualitatif. | ||
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| - | Dès le péché posé, le temporel est peccabilité56. Nous ne disons pas que le temporel est peccabilité, | ||
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