3 Filosofia
WEIL, Simone; SPRINGSTED, Eric O. Late philosophical writings. Notre Dame, Indiana: University of Notre Dame Press, 2015.
1. Nas últimas semanas, os amantes da filosofia em Marselha tiveram três ocasiões de encontro, pois a Sociedade de Estudos Filosóficos encerrou seu ciclo de conferências evocando o Oriente e a Grécia como fontes de sabedoria e serenidade, para as quais a aflitiva situação presente impele tantos espíritos, e seu presidente, Gaston Berger, defendeu sua tese em Aix-en-Provence.
2. A relação entre pintura e filosofia na China, investigada por Marcel Brion a partir de textos taoístas e budistas próximos ao taoísmo, revela-se nada forçada, já que esses escritos guardam nítido parentesco com a meditação artística, embora o tempo limitado de uma conferência tenha interrompido a exposição justamente quando ela atingia o cerne do assunto.
3. Mais do que opor o Oriente ao Ocidente, convém reconhecer que o pensamento taoísta, original e profundo, ressoa como algo já presente em nós, evocando Heráclito, Protágoras, Platão, os cínicos, os estoicos, o cristianismo e Rousseau, pois tudo o que é verdadeiramente grande é ao mesmo tempo novo e familiar, como uma lembrança do país situado do outro lado do céu.
4. Também na arte a proximidade prevalece sobre a distância, uma vez que a verdadeira arte, como a de Leonardo e de Giotto, estabelece uma relação entre o mundo e o eu equivalente à filosofia, e as diferenças entre a pintura chinesa, voltada ao infinito e ao modelo da árvore, e a grega, voltada ao definido e ao modelo humano, ocultam uma busca comum de equilíbrio, sendo a arte talvez a própria construção de um infinito a partir do finito.
5. A evocação de Hipócrates pelo decano Cornil, médico capaz de pensar a medicina e para além dela numa cultura que confina cada um a uma especialidade, mostra que nada está mais próximo de nós do que a Grécia, onde praticamente todas as ideias importantes, inclusive o transformismo, já haviam sido claramente concebidas.
6. A grandeza de Hipócrates, que concebeu o método experimental com tanta clareza quanto qualquer pensador dos séculos seguintes, consiste não no apego à experiência nem no apego à filosofia, mas no uso metódico do pensamento filosófico, sobretudo pitagórico, para investigar continuamente a experiência.
7. O método pitagórico, que busca razões teóricas em proporções contáveis para classificar a variedade incontável dos casos particulares e que ainda domina a ciência, fundamenta a ideia hipocrática de que a saúde é equilíbrio e harmonia de relações, ideia hoje revalorizada pelo retorno do holismo na biologia, na medicina, na física e na matemática, embora essa evolução produza sobretudo desordem por faltar a virtude e a inteligência capazes de elevar-nos ao pensamento unificado dos gregos.
8. A ciência grega está ao mesmo tempo mais próxima da nossa do que se imagina, pois já antecipava a geometria do número generalizado, o heliocentrismo, o cálculo integral de Eudoxo e a mecânica de Arquimedes, e muito acima dela, porque a inter-relação de seus ramos se manifestava em todas as formas de pensamento.
9. Para os gregos, todas as criações, da poesia épica à política e à ideia de virtude, traziam no centro o conceito de equilíbrio, alma da geometria, que orientava as investigações para o Bem e fazia da doença uma ruptura da saúde, ao passo que a perda desse conceito leva a pensar a saúde como caso-limite da doença e, na psicologia, a partir da baixeza da alma tão difundida em nosso tempo.
10. Não se trata de retornar à Grécia, com a qual a França jamais esteve em contato, salvo talvez na época de Vercingetórix e dos druidas massacrados pelo imperador Cláudio, mas de caminhar em direção a ela, desejo que uma conferência como a de Cornil pode suscitar.
11. A defesa de tese de Gaston Berger sobre as condições do conhecimento reconduz igualmente a Platão, pois seu método, que pergunta não se uma ideia é verdadeira ou falsa, mas o que ela significa, é o de Sócrates e da tradição platônica, oposta aos filósofos de sistemas como Aristóteles e Hegel, e permite eliminar falsos problemas como o do valor do conhecimento e o da existência dos objetos.
12. Os filósofos que seguem esse método orientam-se todos para a salvação, e a exigência de desapego como condição da reflexão filosófica, apresentada como traço original de Berger, nada mais é do que a lição platônica de que filosofar é voltar-se para a verdade com toda a alma.
13. Sem exame mais detido do livro não se pode julgar se cada conceito traz a marca de uma alma inteiramente voltada para a verdade, mas as objeções da banca pareceram pouco pertinentes, sobretudo a acusação de misticismo e de atração pelo pensamento hindu, como se houvesse heresias em filosofia, e é reconfortante que Berger tenha obtido o doutorado com distinção diante de estudantes atentos, numa Aix que lembra uma universidade italiana do Renascimento.
