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10 Duas filosofias

TILLIETTE, Xavier. L’absolu et la philosophie: essais sur Schelling. Paris: PUF, 1987.

1. Apresentou-se Schelling em Berlim, em novembro de 1841, com rosto de Jano, munido de duas filosofias distintas e solidárias, empregando boa parte de seu primeiro semestre em explicar e justificar essa proposição insólita, o que não impede que Soeren Kierkegaard, ouvinte perplexo e trocista, dela zombe.

  • escrevendo ao amigo Emil Boesen, em 14 de dezembro, que Schelling faz valer haver duas filosofias, uma negativa e outra positiva, sendo a negativa dada na filosofia da Identidade, querendo agora dar a positiva, e assim ajudar a ciência a alcançar sua verdadeira altura, havendo por isso, brinca Kierkegaard, avanço para todos os que possuem grau filosófico, sendo os magisters agora Magisters em duas filosofias, embora ele ainda não tenha dado a filosofia positiva
  • pondo Kierkegaard o dedo, brincadeira à parte, na dificuldade, a saber, que duas filosofias só podem ser duas partes ou dois ramos da filosofia, sendo porém difícil conciliar isso com as afirmações inequívocas de Schelling quanto à independência e integridade de cada uma das duas filosofias

2. Curiosamente, não tendo a dualidade filosófica comovido em demasia os contemporâneos, pouco lhe prestando atenção, talvez por causa do desprestígio que manchava as palavras do velho filósofo, não parecendo especialmente intrigados nem mesmo um excelente historiador como Johann Eduard Erdmann, ou mais tarde Eduard von Hartmann.

  • não tendo captado o interesse da Forschung até data recente, sendo verdade que, de modo geral, a última filosofia era deixada de lado, fazendo mesmo Horst Fuhrmans, o meritório intérprete, na geração de pesquisadores imediatamente anterior à nossa, sobretudo constar a novidade e originalidade da filosofia positiva, servindo-lhe de repulsivo a chamada filosofia negativa, em sentido pejorativo
  • sendo já essa a opinião de Friedrich Julius Stahl, o jurista, publicamente desautorizado por Schelling, sentindo-se Fuhrmans incomodado pelo último avatar do sistema, a refação e reintegração da filosofia racional, ainda mais desde a retumbante tese de Walter Schulz
  • abordando de frente o professor de Tübingen a dificuldade, fundando nela toda sua interpretação, tendo eu mesmo, estimulado pelo exemplo de Schulz, examinado outrora o problema, se assim posso dizer, de todos os ângulos, querendo retomá-lo hoje com mais distância

3. Resumindo os dados: não sendo a aporia maior a rivalidade, a existência concomitante na história, de duas filosofias, de duas linhas ou tipos de filosofia, racionalismo, idealismo e realismo, criticismo e dogmatismo, filosofia crítica e filosofia especulativa, cujo curso paralelo segue, aliás, o traçado da evolução de Schelling.

  • sendo Schelling bastante convincente nesse aspecto de tipologia filosófica, descrevendo eloquentemente o conflito, começando o embaraço quando, tendo estabelecido a antítese histórica, pretende fazer coabitar, em espécie de coexistência pacífica, uma e outra filosofia no seio do sistema desdobrado, isso sem retirar de nenhuma o título de filosofia por inteiro
  • sendo isso, como ele mesmo confessa, um escândalo

4. Sendo a última filosofia de Schelling obra de longo fôlego, de retoques apagados, de arrependimentos secretos, importando porém manter presentes certas afirmações que o autor jamais revogou, ainda que implicitamente.

  • sendo a filosofia negativa independente, como o é a filosofia positiva, não sendo a primeira necessitada de transitar à positiva, não tendo esta necessidade alguma de estar atrelada à negativa, podendo e mesmo devendo “começar pelo começo” (von vorne anfangen)
  • compreendendo porém normalmente o sistema completo a filosofia negativa e a filosofia positiva; tendendo nesse caso a filosofia racional, ao final, seu objeto à filosofia positiva; chamando por outro lado, mesmo apresentada sozinha, a filosofia positiva, a título de introdução, um resumo de filosofia negativa, uma filosofia negativa contraída
  • atenuando-se, porém, esses teoremas unitários pelo fato de não estar a negativa obrigada a transmitir à positiva seu objeto último, e correlativamente pela garantia de que a positiva pode, por seus próprios meios e sem o socorro da negativa, procurar-se seu objeto e os princípios do método
  • por que reuni-las, então? Sendo imprescritível a exigência de unidade, sendo incompreensível ter duas filosofias (não simplesmente duas disciplinas filosóficas) inteiramente disjuntas e de igual valor: sendo a filosofia que é negativa e positiva, sendo aliás a filosofia positiva operante na negativa, e a negativa vigilante, mesmo triunfante, na positiva

5. Por que então, inversamente, cindi-las? Aumentando a surpresa se examinarmos a composição efetiva de uma ou outra, sendo, com efeito, a filosofia negativa, embora tire seu nome dos sistemas malfamados da necessidade, transplantada do antigo sistema da liberdade, colhida da filosofia positiva ou grande empirismo na terminologia do Prefácio a Victor Cousin.

  • não escondendo o editor (o filho caçula de Schelling), nem Schelling tampouco, essa origem por propagação, equivalendo, nas versões precedentes do sistema, seja na apresentação muniquense, a filosofia negativa ao empirismo regressivo (apriorismo empírico), e a positiva ao empirismo progressivo (empirismo a priori), confirmando isso à saciedade os Nachschriften
  • recolhendo, porém, a filosofia negativa dos sistemas racionalistas o limite infrangível do possível, da essência, do Quid, do conceito, do pensamento, estando ausente a verdadeira vida, nascendo assim essa filosofia por geração equívoca
  • recolhendo por sua vez a filosofia positiva, teoricamente, toda a amplitude da filosofia, sendo nesse sentido herdeira do grande empirismo, especializando-se, porém, ao passar à execução, confundindo-se com a filosofia da religião, sendo ela também, por conseguinte, ao menos por certo tempo, híbrida na concepção e na execução

6. Acarretando a divisão excesso de problemas, restando provar sua razão de ser, tanto mais que a transição, momento escabroso do sistema desenvolvido, já se dava sem obstáculo na filosofia indivisa.

7. Tendo, enfim, Schelling elaborado a teoria das duas filosofias antes de ter operado a refação da filosofia negativa (suposta prorrogar a filosofia da Identidade), sem prever exatamente como se comportaria a filosofia positiva desligada do empirismo regressivo.

  • tendo em vista, para essa refação, não apenas a antiga filosofia da Natureza, mas também as Idades do Mundo, que já procediam de inspiração bem diferente, devendo assim a retomada efetiva, e tardia, da filosofia “puramente racional” modificar sensivelmente a ideia da dualidade

8. Ressaltando dessas observações gerais que o enigma verdadeiramente opaco está na cisão, não na unidade, sendo o enigma a cisão. Que intenção, que necessidade levou Schelling a separar o que estava unido, a declarar disjunto o que fazia boa parelha? Longe de dar conta de uma evidência ou de um estado de fato, acrescentando a dicotomia uma dificuldade a dissipar.

9. Encontrando-se Walter Schulz, já citado, que, em vez de buscar explicações acidentais e aleatórias, centra sua atenção na cesura das duas filosofias, vendo nela um problema, sim, mas um problema significante, um enigma que resolve todos os enigmas: precisando ele menos de explicação do que explicando o resto e a si mesmo, sendo o ponto de chegada e a consequência inelutável da evolução de Schelling.

  • estando, dito de outro modo, a chave na própria passagem (de uma parte a outra, depois de uma filosofia a outra), que se aprofundou, escavou-se vertiginosamente, e não na natureza e no modo de ser de filosofias diferentes
  • tendo Schelling sido como que constrangido, pelo rigor de seu esforço de pensamento, a admitir o hiato, ultrapassando-o porém o sentido último, estando no destino da filosofia e da razão idealistas
  • não fazendo as duas filosofias senão uma porque de ambos os lados o “ator” é a razão, força rompida, potência impotente, cuja aventura, segundo espécie de rememoração, de anamnese transcendental, se reflete “em abismo” no homólogo positivo

10. Assentando assim a tese de Schulz, exposta com rigor, no momento de ruptura superada, na inflexão que engendra a partição em vez de ser seu problema ulterior, supondo que Schelling voltou sobre seus passos, refinou seu sistema constituído, e que a análise da transição o obrigou a estatuir duas filosofias, díptico ampliado da razão e de sua alteridade, da razão contingente ou finita e de seu fundamento imemorial.

  • tratando-se de ver a unidade do Todo, a unidade do movimento, que torna necessário pôr duas ciências para depois suprimi-las juntas, tocando uma frase o ponto saliente: não conduzindo essa apreensão total (restlos) de Deus na filosofia, tão total que Schelling, ao lado da filosofia negativa, que só tem Deus como ideia da razão, empreende ainda uma segunda filosofia a fim de chegar a reconhecer Deus como real, a certeza tranquilizadora na qual Deus seria simplesmente dominado em pensamento, sendo antes essa dominação, poder da razão sobre Deus, magia do saber, quebrada pelo próprio Deus; erguendo-se desse pensamento esse Deus como pura transcendência, inconcebível em sua realidade
  • tendo Schelling de estipular duas filosofias, uma charneira interna da filosofia, em virtude de necessidade interna e espécie de desdobramento ou antes redobramento da razão, não saindo o Übergang, como problema, da realidade filosófica, portanto de uma mudança de avaliação ocorrida no pensamento de Schelling, sendo antes a cisão filosófica que resulta do Übergang, sancionando a impossibilidade de alcançar pela mediação da razão a liberdade e a realidade de Deus, explodindo uma descontinuidade que assinala um ponto de inflexão: sendo essa inflexão a filosofia positiva
  • conhecendo assim o desenvolvimento “retilíneo” de Schelling, não uma espiral, certamente, mas um relance e como que um novo segmento, não sendo, a bem dizer, a problemática da razão atribuída a Schelling claramente inteligível permanecendo dentro das premissas schellingianas
  • sendo preciso dobrá-la de uma explicação exterior, recolocar Schelling no movimento que conduz do idealismo, que ele completa, ao pós-idealismo e a Heidegger, percebendo-se então, como em retrovisão, o destino da razão que refletiu a si mesma e sua finitude e assumiu seu momento de insegurança, de aflição

11. Tendo a demonstração de Walter Schulz retirado certo opróbrio da última filosofia de Schelling, fazendo da dicotomia a pedra de toque do progresso último dessa filosofia, não nos convencendo porém inteiramente, por negligenciar as questões de composição e organização, e sobretudo por não levar suficientemente em conta a circunstância de o Übergang ser o mesmo depois como antes da tematização formal da separação das duas filosofias.

12. Encontrando-se em Jean-François Marquet o esboço de solução hábil, sublinhando ele a aporia interna da metafísica de Schelling ou mais exatamente de seu empirismo filosófico: como alcançar Deus livrando-se ao mesmo tempo do conceito e da experiência?

  • supondo que uma releitura de Kant, “O Único Fundamento Possível de uma Prova da Existência de Deus”, tenha sido lampejo de luz, colocando-o no caminho: sendo a existência necessária anterior a todo pensamento o que aguilhoou Schelling, ejetando ele esse momento extático a partir do qual a filosofia arranca
  • passando J.-F. Marquet em revista os procedimentos pelos quais Schelling se esforça por deflagrar a filosofia positiva, notando discordância entre o ponto de partida extático e o ponto de partida voluntário, sendo porém, de todo modo, arbitrário o deflagrar da filosofia positiva, um sic volo
  • contentando-se por isso Schelling em justificar o ato do querer e fornecer-lhe pré-requisitos, um preâmbulo, com sua Fenomenologia do Espírito, a filosofia racional, sendo o êxtase por assim dizer o estado natural da consciência (da razão), que a reflexão deve romper: sendo a tarefa da filosofia negativa então precisamente conduzir à “crise” libertadora (de um princípio que seja verdadeiro começo)
  • sendo o objetivo apreender o sujeito do ser em sua nudez, notando Marquet, com justeza, quanto à própria fisionomia da filosofia negativa, que ela reproduz sob forma de experiência de pensamento o curso real dos Weltalter
  • podendo deixar-se essa análise, aliás sutil e penetrante, sendo preciosa a indicação de que a filosofia negativa elaborada modificou a formulação da filosofia positiva, permanecendo igual o conteúdo desta

13. Sentindo-me mais próximo da perspectiva de Marquet, que faz aparecer a filosofia racional como uma extensão ou prótese, surgida da aporia do começo da filosofia positiva, tendo, porém, Schelling mantido até o fim a possibilidade de a filosofia positiva começar por si mesma e sem aviso prévio.

  • divergindo também os dois intérpretes quanto ao êxtase: sendo para Schulz o êxtase, a extradição da razão, em suma, um estado permanente, sendo a razão extática a articulação, a plataforma giratória das duas filosofias, assegurando o afastamento e a especificidade das duas filosofias
  • não tendo, segundo Marquet, o êxtase esse caráter decisivo, sendo de natureza pré-filosófica e, no caso da filosofia positiva, apenas correlato da existência necessária

14. Concedendo primeiro a Schulz que a reconstrução da filosofia negativa constitui novo avatar do pensamento de Schelling, avatar metódico, pois deixa os conteúdos quase intactos, sendo o elemento inédito em relação às apresentações anteriores a aplicação do êxtase à razão: sendo o existente extático, sendo a razão extática.

  • sendo, em segundo lugar, o projeto já bastante elaborado em 1841-1842, da ciência racional, seja como for da execução ainda por adiar, visivelmente alimentado por dois aportes principais: o empirismo regressivo (apriorismo empírico), que até então servia de degrau ou “escola preparatória” (Vorschule) à filosofia positiva ou empirismo progressivo (empirismo apriórico), de um lado, e de outro a filosofia “anterior”, que incorria na reprovação infligida aos sistemas da necessidade, e que doravante festeja o retorno do filho pródigo
  • sendo já, desde a Introdução berlinense, essa filosofia negativa, em esplêndido isolamento, a ciência das ciências, ciência universal, ciência primeira, frente à ciência suprema e especial que é a filosofia positiva, compreendendo uma versão longa, “primeira parte do sistema” binário, e uma versão curta, destinada a fornecer rapidamente os princípios do método
  • parecendo-me ser antes a reintegração do sistema lógico da necessidade, e sua coalescência com o empirismo filosófico, do que necessidade interna da reflexão, o que incitou Schelling à divisão: impondo-se ela espontaneamente, e logo sob forma de um problema de encaixe, de junção, que sua origem ambivalente tornava difícil
  • devendo-se, para justificar essa posição, que vai de encontro a Schulz, mostrar que a reviravolta extática não escava no sistema brecha tal que o corte em duas filosofias

15. Coincidindo o êxtase da razão com o fim da filosofia negativa, sendo um travão. Valendo a pena enumerar alguns sinônimos da razão extática: a razão dobrada (gebeugt), detida, cega, reduzida ao mutismo (verstummt), atingida (betroffen), estupefata (attonita), impotente, arrasada (niedergeschlagen), engolfada, aniquilada, sem movimento (regungslos), enregelada (erstarrt), pura essencialidade e substancialidade.

  • não sendo essas imagens redundantes nem tomadas ao acaso, vibrando com ecos e ressonâncias emprestadas da tradição mística e do vocabulário da consciência religiosa (mitológica e cristã)
  • tendo assim Schelling orquestrado singularmente a citação famosa de Kant sobre o “abismo da razão” — a “vertigem metafísica” —, tendo reforçado ainda o tom solene e dramático inspirado pela evocação de Haller
  • sendo, porém, a situação assim descrita da razão, e portanto da ciência racional invertida sobre sua ponta, exatamente simétrica do Existente necessário, abissal, infinito, abrupto (geradezu), etc., ou do Ser em sua nudez e substancialidade
  • abismando-se a razão nesse pavor, atolando-se nessa vertigem, não acarretando porém antes a inversão do empirismo ruptura franca da filosofia, não tendo aparentemente a clivagem dos dois empirismos nada de irreparável
  • devendo por isso o êxtase da razão, exaltado no primeiro curso berlinense, conservar ali sua qualidade duvidosa de vox anceps, como nas Lições de Erlangen, prendendo-se ao mesmo tempo ao fracasso dos sistemas racionais e à douta ignorância do misticismo, esse resíduo fecundo de intuição intelectual, que sobrenada em todas as vicissitudes da obra

16. Prestando-se o êxtase, por sua própria ambivalência, a ligar os dois trechos da filosofia, fechando ele, conforme a incidência do olhar, definitivamente a filosofia racional, ou então inaugurando a filosofia positiva.

  • sendo o primeiro motivo, trivial, da cisão, portanto antes a proteção da filosofia positiva, de sua autonomia exibida, não sendo porém o êxtase racional, que habita de certo modo a terra de ninguém, o terreno baldio da filosofia, reempregado na apresentação última
  • dando-se Schelling, na do inverno de 1842, trabalho para separar o que estava unido, roçando a contradição (se nos lembramos de que o fim da negativa não é o começo da positiva): tendo-nos conduzido a filosofia negativa até o conceito do puro, do simples existente
  • podendo parecer que o começo da filosofia positiva seja dado pela negativa — sendo (o simples existente) pura Ideia, mas não Ideia no sentido da filosofia negativa, Ideia invertida, extraditada da razão — estando então a razão extraposta, extática, como no espinosismo — sendo o existente infinito o conceito racional imediato — sendo ele mesmo o conceito e a essência
  • sendo tarefa da filosofia positiva chegar do Existente necessário ao conceito, ao Wesen, sendo preciso porém primeiro ter-se decidido pelo conceito do puro ser, do ser simples, tendo Kant deixado justapostos sem junção os dois conceitos racionais do ser supremo e do existente necessário

17. Sendo inextricáveis conceito e existência, ser puro e ser mesmo, ser supremo e existente necessário, nessa ponta “afilada”, nesse promontório da razão que é a Ideia invertida, só podendo a direção do espírito discerni-los, como a orientação do olhar modifica as imagens ambíguas dos gestaltistas.

  • encadeando-se por isso a filosofia positiva na negativa, e dominando esta a positiva: produzindo-se um entrecruzamento ou uma troca cruzada, uma invasão mútua ou, se quisermos, espécie de quiasma em torno do conceito aconceitual do existente abissal
  • no seio da filosofia negativa: transitando o ser supremo ao existente necessário; no seio da positiva: revelando-se o existente necessário como sendo o Ser supremo
  • “engolfando-se” de um lado o ser supremo no existente necessário; erguendo-se de outro a instância interrogativa, mexendo-se a noite
  • sendo o bloqueio extático — a razão presa perdidamente — contornado pela decisão de partir do real, da existência, tendo-se a filosofia negativa de certo modo emparedado, “fechada no puro pensamento”, “detendo-se na pura ideia”, voltando-se enquanto isso a filosofia positiva para o real enfático, antecedente à razão e à experiência

18. Acontecendo a Schelling tomar a realidade em seu sentido trivial, sensível, mas sendo isso para sublinhar por comparação a precedência de um dado que se atesta, exaltando antes o existir puro, opaco, impenetrável, impermeável, destroço ou resíduo ontológico, por ser o sinal, a testemunha (também no sentido esportivo da palavra) transpassando o pensamento, de uma suprarrealidade cuja iniciativa intramundana somos exortados a buscar.

  • sendo, portanto, verdade, como bem viu Schulz, ser o eixo o problema de Deus, sendo o Deus da filosofia negativa fim, resultado, sendo o Deus da positiva começo, criador
  • produzindo-se inversão dos polos, que justifica aos olhos de Schelling a separação, formando o êxtase o hiato ou o ponto morto

19. Tendo esses teoremas muito conhecidos, conhecidos demais, algo de enfeitiçante, não sendo revogados, ainda que se volte suavemente a noções limítrofes de que o êxtase é a expressão dramatizada (a fé, o não-saber, a autoridade dos sentidos, a representação).

  • por que então não aproximar completamente os procedimentos? Indicando tudo que a oposição preexistente dos sistemas racionais e da filosofia positiva se perpetuou, embora a filosofia negativa se tenha constituído por ablação do empirismo regressivo, comunicando-se a antítese ao mais alto nível, à filosofia: o quid e o quod, a essência e a existência, o conceito e o fato, a possibilidade e a realidade
  • sancionando a dicotomia filosófica, de um desenvolvimento a outro, a inversão das prioridades

20. Servindo o marco do êxtase, com o entrelaçamento das duas filosofias — vindo o fim final da negativa encravar-se no começo impossível da positiva —, antes para ligar do que para desligar, afastando-me aqui francamente da tese de Schulz.

  • esbatendo-se, aliás, no último estado da escabrosa transição, o capítulo 24 da Exposição da Filosofia Racional, o êxtase da razão; tendendo correlativamente o existente necessário a apagar-se
  • sendo, no entanto, a transição balizada com a mesma sequência de marcos que antes da refação efetiva da filosofia racional, sendo o termo da filosofia negativa Deus como Ideia, o Deus ideal, não o Deus real, atual, sendo objeto de uma ciência e de uma vida contemplativas
  • não bastando, porém, a contemplação à felicidade do homem (do Eu), fazendo valer seu direito a “realidade”, a vida prática, a ação, sendo a ciência racional incapaz de procurar um Deus real
  • podendo ela, ao menos, ultrapassando-se a si mesma e descontando-se da conta, encravar-se de certo modo no “puro existente”, a pura existência, a simples quididade desse Deus das Ideias eternas
  • acabando ela assim em dois tempos, duas crises, cujo resultado último lhe escapa, transcendendo-se nesse sentido e “empurrando” para a positiva, para a reviravolta que inaugura a outra vertente da filosofia
  • sendo, porém, sob impulso de um querer prático, cuja expressão Schelling dramatiza, que o princípio supremo é “expulso”, isto é, liberado do cativeiro da ideia, precisando Schelling ser um “querer do espírito” — cuja alma é a ponta fina —, aspirando por conseguinte o espírito à vida contemplativa e suspirando para sair dela

21. Pouco importando: dando-se a propulsão ao princípio como começo, ao Deus atual em ato, em vários movimentos, chegando a filosofia racional a desprender Deus da “ideia absoluta”, “na qual estava como perdido”, e a recolocá-lo “em sua Ideia” — essa noção nova, tendo o editor a inserido nas Lições de 1842 —, enquanto natureza necessária, Ato por natureza, por essência, sendo por essência aquele que é.

  • tratando-se, porém, de que o seja em ato, que seja Ato ou atual atualmente, realmente, não estando levantado o parafuso enquanto permanecemos na ideia, no conceito, mesmo que Deus seja concebido como estando fora de seu conceito e de todo conceito
  • transgredindo-se a ideia no conceito opaco, aconceitual, do puro Ouod abstrato, da pura existência sem qualidades nem quididades, que intima silêncio à ciência racional, não havendo então, para retomar imagem do curso de 1834, senão virar a página e passar do recto ao verso
  • fazendo-se isso sob o golpe de uma injunção (que é disjunção) prática, dito de outro modo, passando a filosofia negativa a mão, transmitindo a tarefa, o problema (Aufgabe), a filosofia melhor armada ou diversamente equipada
  • significando isso claramente — consentindo Schelling enfim confessá-lo — que a filosofia acolhe os socorros da religião, mesmo que a transforme logo em seguida, por prescrição racional, em religião filosófica
  • sendo o impulso prático que visa à “destruição da ideia” um querer religioso voltado ao mistério, rumo ao absolutamente Transcendente e ao Deus pessoal: o Deus soberanamente livre, o Senhor do Ser, sendo o que aos olhos da razão é apenas inércia e atolamento da vertigem, aos olhos do querer profusão e magnificência
  • havendo assim dois começos subjetivos da filosofia positiva: o momento extático, a extrema passividade, e a energia de um querer aferrado ao Absoluto, sendo esse querer, ou essa fé, que desperta a razão de seu sono magnético, do abismo do não-saber, a fim de que se apresse a revestir de qualidades e potências o ser nu que marcava a fronteira de seu poder a priori

22. Levantando a destinação religiosa, “sobrenatural”, da filosofia positiva o último véu sobre a manutenção obstinada de distinção à primeira vista arbitrária e dificilmente “crível”, e de um encaixe cujas versões são especiosas.

  • bastando a bipolaridade filosófica, com vistas a fazer frente à religião entendida por Hegel, para preservar a positividade e a irredutibilidade da religião cristã? Tendo Schelling, em todo caso, assim pensado, e daí ter insistido cada vez mais na “especialidade” da filosofia positiva, arriscando-se porém a densa transposição filosófica a ofuscar essa reta intenção

23. Passando o existente necessário, verdadeira noz-moscada da última filosofia, ora de um lado ora de outro, sendo normal, nessas condições, que as duas filosofias se toquem lado a lado, que as pontas do compasso se estreitem até tocar-se.

  • podendo daí resultar oscilação, senão um imbróglio, capaz de desconcertar historiador tão avisado quanto J.E. Erdmann, assemelhando-se de fato, a se confundir, o procedimento transitivo indicado ao final da Filosofia Racional e desembocando na Dissertação das Verdades Eternas à conclusão da 13ª lição, que termina a invenção dos princípios
  • sendo o paralelismo sugerido pelo próprio Schelling, repetindo-se os termos: o Ser mesmo e sua essência energética (οΰ ὴ οὐσια ἐνέργεια), a contemplação (schauend), o puro ser ou o ser simples, a quididade ou a essência suprimida, a natura necessaria e o necessario existens, o Um mesmo e o En ti, o Ser primeiro ou ser indubitável
  • vindo o embaraço de exibirem a sucessão dos noemas e suas valências divergências: sendo, na heurística dos princípios, o existente necessário um momento ultrapassado, que permite à natureza necessária (ao Ser mesmo) desprender-se, destacar-se, portanto ser em si e possuir-se livremente, ato e natureza; servindo o ser puro, pura realidade energética, para sustentar o Ser mesmo, o Ser primeiro, ali inserindo o elemento contemplativo e místico
  • não apresentando, de todo modo, a acessão das quididades, o revestimento da natureza ontológica, obstáculo algum, facilis descensus Averni

24. Ultrapassando, na passagem à filosofia positiva, o existente necessário subitamente a natureza necessária, sendo o Ev τι ejetado da filosofia negativa, havendo portanto redobramento e inversão.

  • por que então tem “o que é o Ser” agora tanto trabalho para revestir-se de ser, dos elementos ontológicos? Tratando-se ainda de um ser intra-ideal, sendo isso o que provoca o mal-estar de Erdmann, que acha a Dissertação inútil
  • respondendo a passagem ab actu ad potentiam (expressão que Schelling pescou em Leibniz, fora de contexto), a aderência da potentia universalis à pura realidade energética, à exigência racional de universalidade, daí a composição do individual e do geral
  • esclarecendo a 13ª lição de modo analítico o que a Dissertação resolve de modo sintético, consistindo a argumentação do editor (Fr. Karl Schelling) em lembrar a diversidade dos percursos racional e positivo e, portanto, o caráter árduo de um revocare gradum
  • não errando ele ao afirmar que o problema se apresenta diferentemente, tendo porém Erdmann razão em pensar que, na hipótese (aleatória) de um desenvolvimento anterior do ato puro à forma ontológica, os elos seriam sem dúvida os mesmos, parecendo Schelling reportar ainda a questão decisiva à vertente racional
  • sendo esse, em todo caso, o fio da navalha, não sendo nítida a distinção das duas filosofias nesse caso, tendo talvez o editor, que a ele se reporta, cometido excesso de zelo

25. Não sendo apenas a cesura que vacila, sendo o próprio começo da filosofia positiva que oscila, tendo-se aludido às incertezas do começo objetivo, não sendo o começo subjetivo menos cambaleante.

  • enumerando-se o começo extático, espinosista, ou a vertigem parmenidiana — o desespero existencial, com reminiscências escriturísticas, do início da Introdução berlinense: por que há algo? — o desespero ético e religioso ao final da Filosofia Racional
  • correspondendo essas atitudes subjetivas ao “horror do ser” e ao abismo da razão, sendo porém negativas, sendo o avesso de um comportamento positivo que exclama: quero o sujeito que é o ser, o Ser que é, o Sobre-ser, o Senhor do Ser
  • encontrando-se atalho precoce dos acessos a essa filosofia dupla em uma, numa indicação da Nachschrift muniquense de 1834; alcançando um ato absoluto o Ser absoluto: sendo quem for capaz de ato heroico de aniquilação, capaz não apenas de duvidar da realidade do ser empírico ou apenas de elevar-se acima dele, mas de nada querer absolutamente desse ser, quem for capaz desse ato heroico de aniquilação, não precisando de filosofia regressiva, podendo elevar-se diretamente aonde (chegamos)

26. Atenuando um pouco esse heroísmo Schelling na lição seguinte, permanecendo porém a mola o querer que visa o Ser perfeito, indeclinável, devendo por isso o filósofo que se aventura rumo ao supraempírico e ao suprarracional ao menos fingir queimar suas naus e dar aspecto dramático à segregação da filosofia audaciosa, ainda que depois volte às divisões tradicionais, recosture em parte a cisão e, por fim, a verta com a maior facilidade do mundo nas fórmulas de Aristóteles.

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