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rosset:2013:schopenhauer-2

Schopenhauer, atualidade

ROSSET, Clément. Faits divers. Textes réunis et présentés par Nicolas Delon et Santiago Espinosa. Paris: Presses Universitaires de France, 2013. (Collection Perspectives critiques).

  • Schopenhauer jamais será “atual”, jamais reivindicado por uma atualidade qualquer, ainda que a nossa esteja bastante impregnada de suas ideias, pois ele se gaba, aliás com razão, de não se interessar nem pela história em geral nem pela atualidade em particular.
    • Ele declara nos Parerga e Paralipomena que um dos grandes méritos da filosofia consiste na ausência de toda concepção histórica.
    • Essa inatualidade é, segundo Nietzsche, a marca do grande filósofo: sente-se cada vez mais nitidamente que o filósofo, necessariamente homem de amanhã e de depois de amanhã, esteve e devia estar, em qualquer época, em contradição com o presente.
  • As duas intuições mestras de Schopenhauer, deixadas de lado as interessantíssimas páginas sobre a arte, pertencem à nossa modernidade filosófica e literária e contribuíram largamente para constituí-la.
    • A afirmação da subordinação das funções intelectuais às afetivas (ou da “representação” à “vontade”, na linguagem de Schopenhauer), tema em que ele jamais variou nem transigiu, traz em germe elementos principais do pensamento de Nietzsche, Bergson e Freud, bem como o conjunto das reflexões modernas sobre o desejo e seu papel maior na elaboração de todo pensamento.
    • A afirmação do caráter gratuito e não necessário da vontade, e por conseguinte de toda forma de existência, que dela decorreria, está na origem da visão do mundo como absurdo, corrente de ideias e sentimentos preponderante na cultura do século, sobretudo em sua segunda metade, no plano literário e filosófico, como nos casos de Samuel Beckett e do existencialismo.
    • A contestação do “princípio de razão”, em vigor desde Aristóteles, já em A quádrupla raiz do princípio de razão suficiente, é fato decisivo que inspira o que de mais original se pensou depois e deixa bem para trás o que Heidegger escreveu sobre o mesmo assunto em O princípio de razão.
    • Heidegger, ordinariamente tão deferente com os filósofos de que fala, inclusive os que admira sem compreender, como Nietzsche, não consegue calar o desprezo por Schopenhauer, talvez porque este seja, com Leibniz, o menos germânico e o mais europeu dos filósofos alemães, e declare desprezar a nação alemã por sua imensa estupidez e corar de pertencer-lhe, disposição de espírito completamente alheia a Heidegger.
  • O ponto mais forte da doutrina de Schopenhauer é também, em certos aspectos, o mais fraco: a teoria da vontade, rígida e dogmática, não possui o interesse nem a riqueza da ideia que quer exprimir, a subordinação das coisas do espírito às do desejo.
    • Com essa teoria ele transforma uma hipótese fecunda numa espécie de resposta para tudo, calcada no modelo kantiano da coisa em si, que lembra a virtude dormitiva (vertu dormitive) dos escolásticos ou o pulmão de Molière em O doente imaginário: a pedra que cai, a árvore que cresce, a grande maré, o gato que mia há uma hora, tudo se responde com “a vontade”.
    • É como se a vontade fosse não um domínio mal conhecido a descobrir, mas coisa conhecida e inventariada, bastando nomeá-la para responder a qualquer pergunta.
  • O principal erro de Schopenhauer talvez seja ter-se detido cedo e depressa demais em suas teses de juventude, sem tomar tempo de interrogar-lhes o sentido e a riqueza, como observa com justeza Giorgio Colli, editor de Nietzsche.
    • O desenvolvimento precoce e tumultuoso de seu gênio lhe foi prejudicial: depois da grande e fugaz estação da flor, o mito da verdade absoluta e imutável detém seu desenvolvimento, pois o que foi objeto de alta intuição e pensado com tal intensidade não pode nem deve mudar.
    • Assim, na maturidade, ele se proibiu a possibilidade de aprofundar racionalmente, tendo todo o tempo para isso, os pontos fracos de seu sistema e, portanto, de renovar-se, enriquecer-se, aliviar-se e, em suma, rir de si mesmo.
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