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rosset:2008:1.4
1.4 Epílogo
ROSSET, Clément. L'école du réel. Paris: Les Éditions de Minuit, 2008.
- Os diferentes aspectos da ilusão descritos acima remetem a uma mesma função, a uma mesma estrutura e a um mesmo fracasso: a função é proteger do real; a estrutura é não recusar perceber o real, mas duplicá-lo; o fracasso é reconhecer tarde demais, no duplo protetor, o próprio real de que se julgava ter-se guardado.
- Tal é a maldição da esquiva: remeter, pelo desvio de uma duplicação fantasmática, ao indesejável ponto de partida, o real; a esquiva é sempre um erro, sempre inoperante, porque o real sempre tem razão.
- Pode-se tentar guardar-se de um evento futuro, se apenas possível, mas nunca de um evento passado, presente ou “certo no futuro”, como na simbólica oracular que anuncia de antemão uma necessidade inelutável, que já tem todos os caracteres de uma necessidade presente; o gesto para livrar-se dela só pode reproduzir literalmente o evento temido ou, mais exatamente, constituí-lo.
- É o que ocorre a Édipo e a todo homem em ruptura consigo mesmo, isto é, a todo homem em algum momento da existência; algo análogo se passa em setores muito diferentes da ilusão: a fantasia do duplo interessa, por exemplo, ao mecanismo elementar da tolice, mas está também presente numa tendência fundamental da metafísica, ou de certa metafísica.
- A pertença dessas diversas ilusões ao tema do duplo não significa que toda forma de ilusão tenha ligação com o duplo, o que exigiria um recenseamento completo, por definição impossível, de todas as manifestações da ilusão.
- A tese aqui apresentada permanece verdadeira, à maneira dos advogados que deixam à acusação o ônus da prova, até que se lhe oponha um caso de ilusão que não se reduza, direta ou indiretamente, a uma duplicação mágica da coisa e a uma hesitação confusa entre o único e seu duplo; caso que parece ainda por achar.
- Seria preciso talvez contar com as célebres “ilusões dos sentidos”, que não têm evidentemente relação com a recusa do real por duplicação, mas são antes erros que ilusões propriamente ditas.
- Não pondo em jogo o desejo nem o temor, e é difícil não seguir Freud, em O futuro de uma ilusão, ao ligar a ilusão ao desejo, à diferença do erro, não implicam proteção alguma contra o real e podem ser assimiladas a simples erros de julgamento, como já notavam os céticos gregos.
- Também seria em vão buscar, nas formas banais de ilusão que a linguagem corrente registra quando diz que alguém “faz ilusões” (se font des illusions), algo que contradiga a tese que liga a ilusão à duplicação: iludo-me todo dia ao imaginar-me inteligente, belo, amável, logo rico, logo cumulado de favores e honras.
- Um exame atento mostraria que, em todos os casos, a visão otimista de si e de sua sorte implica cisão entre o que é percebido e o que é deduzido da percepção, análoga à de Boubouroche entre o pensamento do rival e o da fidelidade da amiga.
- Bélise, em As mulheres sábias de Molière, é o exemplo típico dessa dupla visão, que permite acordar o otimismo pessoal com uma percepção realista dos fatos: crê-se bela, inteligente e amada; ao saber que Clitandre, que conta entre seus amantes mais solícitos, vai casar com uma rival, persuade-se ainda mais dos sentimentos dele por ela; e, quando lhe notam que os demais supostos amantes fugiram de sua presença, responde que é normal, pois a amam.
- Bélise consegue ver ao mesmo tempo que ninguém a corteja e que todos a amam, como Boubouroche vê ao mesmo tempo que Adèle tem um amante e que lhe é fiel.
- Toda autossatisfação ilusória, e talvez toda autossatisfação, decorre desse mesmo esquema duplicatório, que opera um desdobramento paradoxal entre a coisa e ela mesma; a cegueira cotidiana do consigo, ilustrada de modo caricatural por Bélise, é variante derivada e trivial da cegueira primeira e “nobre”, encontrada na maldição do oráculo e na tragédia.
- Sua estrutura não difere fundamentalmente da de todas as ilusões evocadas, e arrisca-se pensar que o mesmo vale provavelmente para toda ilusão.
- Restaria mostrar a presença da ilusão, isto é, da duplicação fantasmática, na maioria dos investimentos psicológico-coletivos de ontem e de hoje, por exemplo em todas as formas de recusa ou “contestação” do real, que não conseguiriam acusar o que existe sem o reforço de um duplo ideal e impensável.
- Essa demonstração arrastaria a polêmicas inúteis e só evidenciaria, na melhor das hipóteses, verdades bastante banais; seria, portanto, desenvolvimento fácil, mas fastidioso, e dele se faz aqui economia.
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