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rosset:1988:1

1 Princípio de realidade suficiente

ROSSET, Clément. Le principe de cruauté. Paris: Éditions de Minuit, 1988.

  • Toda filosofia é uma teoria do real, isto é, conforme a etimologia grega de “teoria”, o resultado de um olhar lançado sobre as coisas: olhar ao mesmo tempo criativo e interpretativo, que pretende dar conta de um objeto ou conjunto de objetos.
    • Esse “dar conta” (compte rendu) vale em todos os sentidos: eco e testemunho, de um lado, e avaliação, de outro, no sentido de estabelecer a soma do que se recebeu para devolver a cada coisa a justa moeda de sua peça.
    • O olhar filosófico é necessariamente interpretativo porque “mede”, como sugere Nicolau de Cusa em O leigo (Le Profane), aproximando o mental do mensurável, o pensar do medir.
    • É também criativo, pois suas imagens da realidade não são fotografias, mas recomposições que diferem do original tanto quanto um romance ou um quadro.
    • O caráter especulativo da filosofia faz esquecer por vezes seu aspecto fabricado, artesanal, que é primordial: uma filosofia é antes de tudo uma obra, e originalidade, invenção, imaginação, arte da composição e potência expressiva são apanágio de todo grande texto filosófico, como de toda obra bem-sucedida.
  • A especificidade da filosofia, que a distingue de arte, ciência e literatura, está menos na técnica empregada que na natureza do objeto que se propõe sugerir: não um objeto ou conjunto particular, mas o conjunto de todos os objetos existentes, presentes ou não, isto é, a realidade em geral, na totalidade de suas dimensões espaço-temporais.
    • O filósofo deve dar conta de um olhar lançado sobre toda espécie de coisas, inclusive as que escapam à sua percepção, as mais numerosas, a começar pelas de seu mundo próximo, já infinitamente numerosas para a capacidade de atenção de uma vida humana.
    • Como em Lucrécio, a realidade compõe-se deste mundo, de que temos percepção parcial (haec summa), e do conjunto dos mundos de que quase não temos percepção (summa rerum).
    • A ambição de dar conta de todos os objetos, conhecidos e desconhecidos, define a desmedida e a especificidade da filosofia, que não é mais “teórica” ou “abstrata” que outras atividades, mas mais geral: as teorias não filosóficas ocupam-se do detalhe do real, a filosofia, teoria da realidade “em bloco” (en gros), de seu conjunto.
  • A história da filosofia mostra que a maioria das filosofias só atingiu seu objetivo, uma teoria geral do real, sob a estranha condição de dissolver o próprio objeto, remetendo-o ao quase nada que Platão chamava “menos ser” (mè on), próprio das coisas sensíveis, supostamente existentes só pela metade.
    • É sentimento comum à filosofia e à sensibilidade mais corrente julgar as coisas verdadeiras no detalhe, mas duvidosas no conjunto: um fato pontual é real, mas o conjunto dos fatos que compõem a realidade pode ser tido por incerto, de modo que é impossível duvidar de algo em particular, mas possível, e a filosofia o faz com frequência, duvidar de tudo em geral.
    • Esse paradoxo da certeza do detalhe com incerteza do conjunto pode enunciar-se em forma matemática (um elemento existente pertencente a um conjunto inexistente) ou aritmética (uma unidade igual a um que, somada a outra, não dá dois).
    • Admite-se sem custo que só haja realidade singular, sem realidade genérica, como ensinavam os nominalistas medievais, mas é mais difícil admitir que a soma das realidades singulares equivalha a uma realidade inexistente ou imaginária, como as sombras da caverna de Platão.
  • A reticência ancestral da filosofia diante da realidade não vem de legítimo desconcerto ante a imensidão da tarefa, mas do sentimento oposto: a realidade, ainda que inteiramente conhecida, jamais entregaria as chaves de sua própria compreensão, por não conter em si as regras de decodificação que lhe permitiriam decifrar natureza e sentido.
    • Considerar só a realidade seria examinar em vão um avesso cujo direito se ignora, ou uma cópia cujo original se ignora.
    • A filosofia tropeça no real não por sua riqueza inesgotável, mas por sua pobreza de razões de ser, que o torna matéria ao mesmo tempo ampla demais para ser percorrida e tênue demais para ser compreendida, e força a buscar fora do real o segredo do próprio real, daí a ideia de uma insuficiência intrínseca do real, que faltaria sempre à sua própria “causa”.
  • A ideia de uma insuficiência do real, segundo a qual a realidade só pode ser tomada em conta mediante um princípio exterior (Ideia, Espírito, Alma do mundo etc.) que a funde e explique, é motivo fundamental da filosofia ocidental.
    • A ideia de uma “suficiência do real”, chamada aqui, em memória de Leibniz e de seu princípio de razão suficiente, princípio de realidade suficiente, aparece como grave inconveniência a quase todos os filósofos, salvo pensadores como Lucrécio, Espinosa, Nietzsche e, em certa medida, o próprio Leibniz.
    • Filosofar a propósito e a partir do real apenas é, para a filosofia e a opinião mais comuns, motivo de riso geral, erro de base reservado a espíritos obtusos, daí os eternos gracejos dos filósofos a quem se interessa pela experiência imediata.
    • Hegel, na Fenomenologia do espírito, situa tal disposição abaixo da sabedoria dos animais: aos que afirmam a verdade e a certeza da realidade dos objetos sensíveis, diz que devem voltar aos antigos mistérios de Elêusis e aprender o segredo de comer o pão e beber o vinho, pois os animais, longe de ficar diante das coisas sensíveis como se fossem em si, desesperam dessa realidade e, na absoluta certeza de seu nada, apoderam-se delas e as consomem.
    • Essa depreciação da realidade imediata exprime o “princípio de realidade insuficiente”, credo comum a toda denegação filosófica do real, e é cômica ao assimilar o apetite dos animais ao reconhecimento da pobreza ontológica do alimento, como se fosse preciso convencer o porco da magra teor de real da lavagem.
  • Um hegeliano moderno, Éric Weil, julga-se autorizado a declarar, em artigo sobre a realidade, que o que se dá imediatamente não é real, o que se poderia dizer com igual desenvoltura de uma bebida que se oferece a ser bebida ou de uma mulher que se oferece às carícias.
    • Tais propósitos são insensatos, mas altamente “filosóficos”, no sentido lamentável que leva a pensar, como sugere L.-M. Vacher, que a principal função da filosofia é “acreditar tolices e desacreditar evidências”.
    • A filosofia, que se propõe compreender o que existe, muitas vezes só tem olhos para o que não existe, refutando de preferência o manifestamente verdadeiro e depreciando por instinto o indiscutivelmente agradável, pois a suspeita quanto ao real se estende ao que ele oferece de aprazível.
    • Espinosa resume essa inversão de verdades e valores: a superstição parece admitir que o bem é o que traz Tristeza, e o mal o que dá Alegria.
  • As razões invocadas pela maioria dos filósofos para contestar o real parecem ao autor pouco convincentes e elas mesmas suspeitas: não impertinentes, pois a realidade, incapaz de explicar-se por si, é de certo modo e para sempre ininteligível, mas ser ininteligível não equivale a ser irreal, como uma mulher de comportamento indecifrável não equivale a uma mulher inexistente.
    • A fraqueza dos argumentos filosóficos é dissimular a verdadeira dificuldade de considerar o real e só o real, que reside secundariamente em seu caráter incompreensível e principalmente em seu caráter doloroso.
    • A briga da filosofia com o real provém não de a realidade ser inexplicável, mas de ser cruel, e de a ideia de realidade suficiente, ao privar o homem de toda possibilidade de distância ou recurso, constituir risco permanente de angústia intolerável, diante de um luto ou de um súbito olhar lúcido; “Hipocondria melancólica”, anota Gérard de Nerval: “é um mal terrível, faz ver as coisas como são.”
  • Por “crueldade” do real entende-se, primeiro, a natureza intrinsecamente dolorosa e trágica da realidade, cujo caráter insignificante e efêmero é conhecido de todos.
    • Entende-se também seu caráter único, portanto irremediável e sem apelação, que proíbe mantê-la à distância e atenuar-lhe o rigor recorrendo a qualquer instância exterior.
    • Cruor, de que derivam crudelis (cruel) e crudus (cru, indigesto), designa a carne esfolada e sangrenta: a coisa mesma despojada de seus adornos, reduzida à sua única realidade, sangrenta e indigesta.
    • A realidade é cruel e indigesta quando despojada de tudo o que não é ela, como uma condenação à morte que coincidisse com a execução, privando o condenado do intervalo necessário a um pedido de graça; e o cruel do real é duplo: ser cruel e ser real, com a diferença de que, na pena capital, a execução não segue necessariamente a condenação, ao passo que no real ela segue automaticamente e se confunde com ela.
    • Uma distinção mental é possível, ainda que impossível nos fatos: a realidade é cruel por natureza e, por último requinte de crueldade, realmente real, como em Proust, no início de Albertine desaparecida: é triste que Albertine tenha partido, mas o pior é pensar que tudo isso é verdade; “o sofrimento vai mais longe em psicologia que a psicologia”, ou, mais exatamente, mais longe em realidade que todas as representações e antecipações.
    • Um depressivo conhecido do autor queixa-se não só de achar a existência horrível, mas de ter razão em achá-la assim: admitiria que a realidade fosse triste, mas o acabrunha o tormento suplementar de que uma verdade triste seja também verdade verdadeira, uma realidade penosa também realidade real; o mais cruel do real está, portanto, em seu caráter inelutável, isto é, indiscutivelmente real.
  • Como muitas tautologias, a distinção entre “verdade” e “verdade verdadeira” é rica em ensinamento, ilustrando a faculdade humana de iludir-se, que faz de dois o que é um, marcando com redundância infinita o que se apresenta como simples e único.
    • O depressivo que vê tudo negro e acha ter razão de vê-lo deveria acrescentar que julga ter razão de ter razão, e assim indefinidamente; o iludido junta sempre à verdade pontual uma verdade mais geral que a confirme, depois uma terceira, e assim ao infinito.
    • O mesmo se dá com todo homem que tenta justificar desejo ou repulsa: quem gosta de melões explica o gosto pela excelente natureza dos melões, e quem não gosta explica a aversão pela natureza execrável deles; um diz que ama melões e que é ótimo, senão não os comeria, outro diz que não os ama e que é ótimo, senão os comeria.
    • A ilusão comum consiste em achar que uma realidade não se basta e só se impõe pela negação de seu contrário, ou que um fato só existe pela própria repetição, quando o próprio do real é furtar-se a toda contradição e a toda possibilidade de repetição.
  • A realidade, tomada como única e suficiente, ultrapassa a faculdade humana de compreender e, mais danosamente, a de ser afetado: ambas são limitadas, mas o defeito da segunda pesa infinitamente mais.
    • Como incompreensível, a realidade é mera incômodo ocasional que não entrava o exercício ordinário da vida, e todos se acomodam ao tempo, ao espaço e ao movimento, noções que ninguém jamais soube conceber ou definir.
    • Diferente é quando a realidade é sentida como intensamente dolorosa: opõe-se então a intolerância do afetado, ao passo que a incompreensão suscita só perplexidade passageira; a realidade excede, em todos os sentidos, a faculdade humana de tolerância.
    • Tomada em falta pela realidade, a inteligência contenta-se com um vago compromisso, um adiamento; a afetividade, ao contrário, rebela-se e declara falência, como uma resistência elétrica que salta com corrente forte demais.
    • É o que ocorre a Swann, em Um amor de Swann, ao considerar a hipótese de a mulher amada ser uma cocote: hipótese que, por coincidir com a realidade, é imediatamente recalcada por uma “pane de energia” súbita e providencial, descrita por Proust como um acesso de preguiça de espírito congênita, intermitente e providencial que apaga toda luz na inteligência.
    • Em conflito grave com o real, o homem que pressente que reconhecê-lo excederia suas forças e poria em risco sua existência vê-se acuado a decidir-se, “é ele ou sou eu”; ordinariamente prefere a si mesmo e condena o real, mas pode também preferir o real, caso do suicídio, psicológico ou não.
  • A aceitação do real supõe pura inconsciência, como a do porco de Epicuro, o único à vontade a bordo durante a tempestade, ou uma consciência capaz de conhecer o pior sem ser mortalmente afetada, faculdade fora do alcance humano, salvo extraordinária assistência que Pascal chama graça e o autor chama alegria.
    • O conhecimento é fatalidade e maldição para o homem, já reconhecidas no Gênesis (“Não comerás da árvore da ciência”): inevitável, pois é impossível ignorar o que se sabe, e inadmissível, pois é impossível admiti-lo de todo, condena o homem a um destino contraditório e trágico, “aliança do necessário e do impossível”, como diz Vladimir Jankélévitch.
    • O mais agudo da condição humana está em ser munida de saber, ao contrário dos animais, mas desprovida de recursos psicológicos para enfrentá-lo, dotada de um “olho a mais” (œil en trop), como diria André Green, que é ao mesmo tempo privilégio e ruína: saber sem poder.
    • O homem é a única criatura a ter consciência da própria morte, mas também a única a rejeitá-la sem apelo; sabe que vive sem saber como faz para viver, sabe que deve morrer sem saber como fará para morrer, e suas aptidões contraditórias impedem toda definição plausível, como repete Pascal nos Pensamentos.
    • Um programador divino e universal, ou o acaso, como sugere Epicuro, teria cometido erro de base, enviando informação confidencial a um terminal incapaz de recebê-la e integrá-la, revelando ao homem verdade que ele não consegue admitir, mas muito bem entender.
    • O poema de Lucrécio, que se propõe curar a angústia pela revelação da verdade, só pode ter por resultado aumentá-la: administrar a verdade nada vale a quem sofre da verdade, e a percepção forçada da realidade não beneficia quem teme sobretudo o real em seu estado nu e cruel; o remédio é pior que o mal, só tratando um cadáver ou confortando quem não precisava.
    • Leopardi, no Zibaldone, analisa a contradição entre exercício e conhecimento da vida: o horrível mistério das coisas só se expõe declarando insuficientes e falsos não só a extensão e as forças, mas os princípios fundamentais da razão; o princípio de que uma coisa não pode ser e não ser parece falso diante das contradições palpáveis da natureza, pois ser e não poder deixar de ser infeliz são verdades tão demonstradas quanto qualquer outra, e o ser unido necessariamente ao infortúnio contradiz a si mesmo, à perfeição e ao seu fim próprio, que é a felicidade.
    • Cioran resume o pensamento em aforismo de A tentação de existir: “Existir equivale a um protesto contra a verdade.”
  • Só se vive, em geral, mantendo a verdade em respeito, ou tomando-a perpetuamente a contrapelo, tarefa exaustiva ilustrada pelo mito de Sísifo e pela maioria dos empreendimentos filosóficos, cuja visada principal não é revelar a verdade ao homem, mas fazê-la esquecer, adoçando a prova da realidade com variedade infinita de remédios, que se reduzem a um exorcismo alucinatório do real, como a declaração ingênua de Éric Weil.
    • O filósofo, ao menos muitos deles, assemelha-se ao médico à cabeceira de doente incurável: preocupado em aplacar a dor a todo custo, indiferente ao valor dos meios, contanto que o efeito seja tangível e imediato, e seu primeiro cuidado é estabelecer que o real não é real, pois é dele que se sofre.
    • Proust, ao saber que Albertine partiu, acha remédio tão instintivo quanto absurdo: ela não partiu de verdade, vai fazê-la voltar logo, ela estará ali à noite, portanto é inútil atormentar-se; nessa passagem, a fórmula “a senhorita Albertine partiu” pode ser substituída por “o real é o real” sem trocar nenhuma outra palavra.
    • A filosofia obstina-se, assim, em substituir a ideia de que “isso é” pela de que é impossível e inadmissível que “isso seja”, opondo ao reino soberano e coercitivo do ser o reino fantasmático e moral de um “dever ser”.
  • A propensão humana e filosófica ao moralismo permite repetir verdade já enunciada em A filosofia trágica: aquilo de que a moral tem raiva não é o imoral, o injusto, o escandaloso, mas o real, fonte única e verdadeira de todo escândalo.
    • Platão representa como desprezível o que é a tarefa mais alta e difícil do homem, acomodar-se ao real e achar satisfação e destino no mundo sensível e perecível.
    • O desvario de Rousseau consiste em condenar como imoral toda realidade trágica; na Carta a d'Alembert, ele admite, talvez num momento de distração, que Fedra e Édipo ensinam que o homem não é livre e o céu o pune pelos crimes que o faz cometer, e que as peças do Théâtre-François trazem monstros e atrocidades, úteis para dar interesse às peças, mas perigosas por acostumarem o povo a horrores e a crimes que nem deveria supor possíveis.
    • Isso significa que é imoral fazer conhecer a verdade quando desagradável, e que a verdade só é admissível até certo grau de crueldade; a última palavra de Platão e de Rousseau resume-se ao adágio aberrante de que, se a verdade é cruel, é falsa, devendo ser refutada pelos doutos e dissimulada ao povo.
    • Kant se inspira frequentemente no mesmo adágio, estabelecendo teses caras (imortalidade da alma, racionalidade e finalidade da natureza) pela só consideração do caráter contrariante das hipóteses inversas, como na demonstração da primeira proposição da Ideia de uma história universal do ponto de vista cosmopolita: se nos afastarmos do princípio, teremos uma natureza que caminha às cegas e o acaso desolador substitui o fio condutor da razão; as ideias verdadeiras reconhecem-se pela natureza agradável, as falsas pelo aspecto “desolador”.
  • A resposta cabível é que a realidade, embora cruel, não deixa de ser real: dura lex sed lex, realitas crudelis sed realitas, pois a dureza da coisa não impede a coisa de ser, indiferente a quem ela atormenta e pode até aniquilar.
    • A experiência da realidade é comparável à crueldade mesclada de alegria de que fala Nietzsche, em O caso Wagner, a propósito da Carmen de Bizet: a música é alegre, mas de alegria africana, a fatalidade paira sobre ela, sua felicidade é breve, súbita, sem perdão (ohne Pardon).
    • A observação vale para toda realidade, alegre ou triste: felicidade e tristeza partilham o destino de toda experiência do real, ser imediata e só imediata; a fatalidade que paira sobre ela não significa destino inscrito de antemão, mas que a imediatez a torna inelutável quanto à presença no momento e mais que incerta quanto à duração.
    • O inelutável não designa o necessário de toda a eternidade, mas aquilo a que é impossível furtar-se no instante mesmo.
  • Pensamento moral e pensamento trágico dividem a opinião dos homens, sugerindo alternadamente a ideia mais apaziguadora e ilusória (princípio de realidade insuficiente) e a mais cruel e verdadeira (princípio de realidade suficiente), donde duas categorias de filosofias e filósofos, conforme apelem a um bem-estar melhor ou se acomodem ao pior.
    • Samuel Butler sugere algo semelhante em Ainsi va toute chair (The Way of All Flesh): pouquíssimos homens dão importância à verdade ou julgam mais nobre crer no verdadeiro que no falso, ainda que este pareça mais proveitoso, e só desses se pode dizer que creem em algo; os demais são incrédulos envergonhados.
    • Propõe-se distinguir filósofos-curandeiros e filósofos-médicos: os primeiros são compassivos e ineficazes, sem nada sólido a opor à angústia, mas com uma gama de falsos remédios que a adormecem por um tempo e bastam para fazer o homem vegetar; os segundos dispõem do verdadeiro remédio e da única vacina, a administração da verdade, tão forte que reconforta as naturezas sãs e faz perecer de imediato as fracas.
    • Fato paradoxal e pouco notado, verdadeiro da medicina como da filosofia: só é operatória com os não doentes, os que dispõem de certo fundo de saúde; a filosofia crível só é entendida por quem já a sabia um pouco e dela não precisa, e a medicina só pode curar os bem-portantes.
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