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rosset:1983:1.6
1.6 Moral
La force majeure. Paris: Éditions de Minuit, 1983.
- Nietzsche, sobretudo perto do fim de sua vida lúcida, centrou expressamente a obra num objetivo crítico, um combate sem trégua contra as apreciações morais em honra desde Platão, cuja vitória seria uma “inversão de todos os valores”. Seria vão objetar que ele não realizou o próprio programa, pois a inversão já é em grande parte efetuada por Para Além do Bem e do Mal, A Genealogia da Moral, o Crepúsculo dos Ídolos e até O Nascimento da Tragédia.
- Os planos febris de 1887 e 1888 nada anunciam de realmente novo, e é difícil entender a importância que muitos comentadores, Heidegger entre eles, lhes atribuem em detrimento dos textos efetivamente escritos.
- A questão é se a empresa crítica é de fato a preocupação dominante da filosofia nietzschiana, como pensou a posteridade nietzschiana e antinietzschiana; não é, pois o cuidado crítico não pode ser principal num filósofo cujo pensamento principal é a aprovação jubilatória da existência sob todas as formas. A crítica é sempre segunda em relação à aprovação e decorre dela.
- Fazer de Nietzsche um pensador ocupado essencialmente em criticar a moral cristã, judaica ou platônica é desconhecer o que nele é “radical”, isto é, o que o interessa em primeiro lugar e é a raiz e a razão de ser de toda a sua crítica.
- É contestável, por exemplo, que Gilles Deleuze faça a crítica portar o essencial do pensamento nietzschiano, assimilando a aprovação a uma crítica do ressentimento, a uma negação dialética da negação: “O sim dionisíaco é o que sabe dizer não”. A concepção da filosofia como crítica e empresa de desmistificação é justa em geral, mas lacunar: a positividade da filosofia, sobretudo em Nietzsche, não consiste apenas nem principalmente em seu poder crítico.
- A violência crítica é consequência de uma violência primeira, a da aprovação, e é a ela que cabe recorrer para explicar as violências críticas que ocasiona.
- O acúmulo de aprovação e crítica levanta um grave problema, talvez a principal dificuldade interna da filosofia de Nietzsche, curiosamente pouco notada pelos comentadores modernos, talvez porque só veem seu alcance crítico.
- Concebe-se facilmente que a aprovação acarrete a crítica dos pensamentos suspeitos de não afirmação, sobretudo quando se travestem de pseudo-positividade (falando em nome do verdadeiro, do bem, do justo). Mas como o secundário se acorda com o principal? Como a empresa crítica é compatível com a aprovação incondicional do real e com o voto de nunca acusar ninguém, nem os acusadores, do aforismo 276 de A Gaia Ciência?
- A solução está em distinguir dois sentidos de “crítica”: hoje significa sobretudo pôr em dúvida, contestar, atacar, acusar, e não é assim que Nietzsche é crítico; mas significa também, conforme a etimologia grega e latina (krinô, kritikos, cernere), observar, discernir, distinguir.
- É nesse primeiro sentido, que exclui toda ideia de luta (“polido demais para lutar”, dizia Nietzsche de si), que ele é crítico: observador impiedoso mas sem má intenção, com o único intuito de ver e compreender e, acessoriamente, fazer ver e compreender, sem oferecer remédio nem invadir o espaço da “baixeza” e da “burrice” de que fala Deleuze.
- Aplica-se a ele, à letra, o que Descartes declara no Discurso do Método: não aprova os humores desordeiros e inquietos que fazem sempre em ideia alguma nova reforma dos negócios públicos, e seu desígnio nunca foi além de reformar os próprios pensamentos e construir num terreno que é só seu.
- Por isso os comentadores que atribuem a Nietzsche um cuidado de luta contra os valores estabelecidos me parecem equivocados, como Klossowski, que vê na obra o projeto obsessivo de um complô de um pequeno grupo de intelectuais de vanguarda contra o peso da ordem pública, sem se preocupar com o peso ideológico próprio a todo pequeno grupo de intelectuais.
- Basta reler o exame retrospectivo de Aurora, em Ecce Homo, para ver que Nietzsche permaneceu, enquanto lúcido, ao abrigo dessa loucura: o livro abre sua campanha contra a moral, mas sem cheiro de pólvora; deixa-se dele uma prudente desconfiança de tudo o que se honrava sob o nome de moral, mas não há nele uma só palavra negativa, nenhum ataque, nenhuma maldade.
- Resta saber em que consiste a inversão dos valores, a moral própria de Nietzsche ou seu “imoralismo”, questão tão analisada e batida que o autor se limita a breves indicações.
- Há, se se quiser, uma “moral” de Nietzsche, aspecto secundário de seu pensamento, e ela consiste num retorno da moral tradicional: faz da virtude pecado e do pecado virtude, como diz o mesmo trecho de Ecce Homo, cujo livro de aquiescência irradia luz, amor e ternura apenas sobre as coisas más, devolvendo-lhes a “alma”, a boa consciência e o direito eminente à existência.
- O homem “virtuoso” segundo Nietzsche é o da beatitude e do gozo, contra o antigo laço que liga gozo e regozijo à culpa, como na publicidade dos cigarros Winston: “É tão bom que é quase um pecado”. Gozo de todas as coisas, mas antes de tudo de si mesmo, amor de si que serve de acordo prévio com o mundo.
- Inversamente, o homem imoral é inimigo do real, em geral disfarçado, e antes de tudo inimigo de si mesmo, um heautontimoroumenos, como na comédia de Terêncio, carrasco de si. Daí a crítica nietzschiana do remorso, sentimento que marca de modo mais agudo o desacordo de si consigo: “O remorso é indecente”.
- Essa crítica difere da de Schopenhauer, para quem o remorso é um equívoco da consciência, que se julga autorizada a dissociar-se de sua vontade e pensa que deveria ter agido de outro modo, voto retroativo sem sentido, pois agir de outro modo exigiria outra vontade e outro homem. Para Nietzsche o remorso é indecência, por amor insuficiente de si, carente da indulgência que é regra absoluta do amor. Em Schopenhauer é ilusão intelectual; em Nietzsche, vício.
- Assim como a virtude nietzschiana se resume à beatitude e a um “saber-gozar”, o vício se confunde com a falta desse saber, e o vitium latino designa justamente um defeito, uma falha: o homem vicioso é o da não beatitude, do não gozo, do sofrimento.
- O sofrimento não atenua o vício, pois o define: é circunstância agravante e qualificante. Não se reduz à alteração psicológica de humor rumo à tristeza ou rancor; designa uma passividade, uma impotência de agir. O vicioso sofre na exata medida em que fica pendente o ato que gostaria de realizar.
- Não basta dizer que é o homem do ressentimento, “reativo”, capaz só de reação; é preciso acrescentar que toda a reação de que é capaz é impotente para constituir-se em ato, e nessa impotência reside seu principal motivo de sofrimento e ódio. Deleuze o diz com clareza: “o ressentimento é uma reação que deixa de ser agida”.
- O reativo é paradoxalmente aquele a quem falta toda ação e, por conseguinte, toda verdadeira reação; o rancoroso é o que está na impossibilidade de odiar, de fazer do ódio um ato.
- Freud define de modo comparável o “recalque”, desde os Estudos sobre a Histeria de 1895, como efeito não de uma má reação a uma situação traumática, mas de uma ausência de reação (ab-reação), efeito conjugado de uma ferida e da impossibilidade de ser parte presente e atuante nela.
- Nietzsche define o ressentimento como efeito conjugado de negatividade e passividade: o homem do ressentimento não é o “espírito que diz não”, como se apresenta Mefistófeles no Fausto, mas o que não consegue dizer não e se reduz a balbuciar falsos sims.
- Por isso a negatividade mais profunda é caçada por Nietzsche nas expressões suspeitas do sim, nos discursos moral, metafísico e ontológico, que opõem respectivamente o cuidado de um bem ao gozo de toda coisa boa, o de uma essência geral ao gozo de toda coisa singular, o de um ser ao gozo de toda coisa existente: falsos sims que traem o não que não puderam ou ousaram pronunciar.
- Como ilustração concreta do homem do ressentimento serve Rigoletto, bufão na corte do duque de Mântua na ópera de Verdi, ou Triboulet, a serviço de Francisco I em O Rei se Diverte, de Victor Hugo, que inspirou o libretista.
- Rigoletto está fadado ao ressentimento por sua situação objetiva: feio, deforme, não amado, sem poder nem dinheiro, entre homens e mulheres belos, amados, cortejados, poderosos e ricos. Seu ressentimento, porém, não é ódio ou reação negativa à vida, mas ausência de reação negativa, incapacidade de exprimir seu ódio.
- No ato I, ele renunciou a contrariar os que o contrariam e se resignou, à falta de melhor, a aprovar tacitamente os que reprova, cortejando os cortesãos; a adulação “enquanto se espera” é o grau zero da reação.
- No ato II, primeira tentativa parcial de reação: clama seu ódio aos cortesãos que sempre lisonjeou, mas ela aborta por vir a destempo, tarde demais, e a contrassenso, pois os acusa de raptar sua filha quando fizeram só uma brincadeira ao crer raptar a suposta amante. Arrepende-se logo da imprecação e termina implorando perdão e piedade; o entorno comenta cruelmente que não se responde a crianças e loucos (fanciulli e dementi), os que ainda não têm ou perderam a fala.
- No ato III, nova tentativa, total e radical: manda assassinar o duque, homem absolutamente rico, poderoso e belo, em favor de quem a filha foi raptada, tripla vingança após a qual se daria por quite. O evento decepciona toda a expectativa: a vingança falha, o duque sai ileso e a filha querida morre. O evento desejado torna-se um não evento, complicado por um “antievento” terrível e irrisório que priva a vingança de seu próprio objeto.
- Nada aconteceu, ou menos e pior que nada, e nisso reside todo o sofrimento de Rigoletto: nesse nada se resume sua faculdade de reagir; o que quer que diga, nada dirá, o que quer que faça, nada fará. Só pode escolher entre o mesmo e o pior, que logo se confundem. Tudo indica que retomará o serviço na corte já no dia seguinte, de novo à falta de melhor, talvez com novas desculpas.
- A empresa crítica de Nietzsche consiste essencialmente em distinguir os falsos sims dos verdadeiros, sem critério objetivo que os diferencie na expressão manifesta, e supõe uma penetração psicológica quase divinatória, um instinto ou faro infalível.
- Nietzsche se gaba de possuí-lo, com razão a juízo do autor: “Distingo-me por uma sensibilidade absolutamente desconcertante do instinto de limpeza”.
- E tem também razão, se sua crítica é crível, em ver nisso uma de suas mais eminentes virtudes filosóficas: “Fui o primeiro a sentir, a farejar, a mentira como mentirosa… Todo o meu gênio está em minhas narinas”.
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