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1 Intuição genealógica
ROSSET, Clément. Schopenhauer, philosophe de l'absurde. Paris: Presses Universitaires de France, 1967.
- Ainda se ignora como ideias podem agir sobre ideias, e os materiais fornecidos pelos historiadores da filosofia nunca permitem representar com clareza uma genealogia das ideias filosóficas, sobretudo quando se trata do devir da própria ideia genealógica.
- O rigor manda substituir ambiciosas relações de influência por simples constatações cronológicas, isto é, pela verificação de elementos comuns que aparecem em determinada época entre certos pensadores.
- Uma constatação dessa ordem é a que aqui se procura estabelecer: Schopenhauer é o primeiro filósofo a ter ordenado seu pensamento em torno da ideia genealógica, tal como ela inspiraria depois as filosofias nietzscheana, marxista e freudiana e, em larga medida, toda a filosofia moderna, sem que isso equivalha a afirmar que ele seja a fonte em que Nietzsche, Marx e Freud beberam.
- Por genealógico entende-se a perspectiva nietzscheana, que visa a estabelecer relações entre dois termos de um mesmo fenômeno, sem preocupação histórica ou dialética.
- A certidão de nascimento genealógica não se situa num tempo anterior, mas numa origem subjacente, que só difere de sua expressão atual pela faculdade de não se exprimir: diferença de linguagem, e não de tempo.
- O que a genealogia distingue, por exemplo, entre certa metafísica e certas motivações afetivas não é uma filiação cronológica, mas um engendramento mais fundamental, que liga uma manifestação qualquer a uma vontade secreta, a qual realiza seus desígnios ao preço de uma série de transformações que cabe ao genealogista decifrar.
- Instaura-se assim uma crítica sistemática da filosofia: todo pensamento expresso torna-se passível de uma interpretação genealógica decidida a não se ater à expressão em causa e a buscar uma origem aquém da palavra.
- Essa concepção de genealogia pertence propriamente a Nietzsche, primeiro a introduzi-la de modo explícito na investigação filosófica, e sua significação é tão fecunda que se pode indagar se outros pensadores, com outros vocábulos e reflexões voltadas a questões muito distantes das nietzscheanas, não obedecem à mesma intenção genealógica.
- Justifica-se então falar de uma “filosofia genealógica”, da qual participariam pensadores tão afastados quanto Nietzsche, Marx e Freud, cujas três démarches têm em comum um mesmo valor crítico (ruptura com as análises de tipo idealista) e um mesmo valor metodológico (busca do oculto sob o manifesto).
- Nascida na segunda metade do século XIX, tal filosofia impôs-se progressivamente à reflexão contemporânea, a ponto de quase se confundir hoje com a filosofia tout court.
- A perspectiva genealógica tornou-se de certo modo inevitável: nenhuma “busca da verdade” pode dela se libertar sem tornar-se de imediato suspeita de duplicidade.
- A relação entre Schopenhauer e a filosofia genealógica existe, e o exame da obra permite afirmá-lo.
- A desproporção entre a riqueza das filosofias de Nietzsche, Marx e Freud e a relativa exiguidade do edifício schopenhaueriano não deve mascarar certa concordância, nem fazer esquecer uma intuição genealógica tanto mais notável quanto se manifesta já em 1819, ano da primeira versão de O mundo como vontade e como representação.
- Ainda que não “inspire” de maneira decisiva os genealogistas da segunda metade do século, Schopenhauer já é, a seu modo e sobretudo em sua linguagem, um filósofo genealogista.
- Sem fazer dele o verdadeiro fundador da filosofia genealógica, pois se ignora como suas ideias agiram sobre as de Nietzsche, Marx e Freud, resta reconhecer-lhe a primazia de uma intuição destinada a desenvolvimentos cujo alcance ele mal concebia, e fazer de 1819 a data verdadeira de uma ruptura filosófica cujos maiores estilhaços só se manifestariam mais tarde.
- Justifica-se assim o título glorioso concedido a Schopenhauer por J. Oxenford, cujo artigo trouxe em 1852 a glória ao solitário desconhecido: um filósofo iconoclasta.
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