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kojeve:1990:start

Sistema do Saber

KOJÈVE, Alexandre. Le concept, le temps et le discours: Introduction au Système du Savoir. Paris: Gallimard, 1990 (redigido na década de 1950).

  • Apresentação de Bernard Hesbois
  • O conceito, o tempo e o discurso
    • Prefácio
    • Ensaio de atualização do Sistema do Saber hegeliano
  • Introdução ao Sistema do Saber: o conceito e o tempo
  • Primeira introdução ao Sistema do Saber: introdução psicológica do conceito (segundo Aristóteles)
    • 1. O conceito e as noções
    • 2. As noções e as coisas na duração-extensão da existência empírica
      • a. O geral e o particular
        • α. A particularidade das noções
        • β. A generalidade das coisas
        • γ. A percepção do particular e do geral
        • δ. Generalidade e particularidade das noções e das coisas
      • b. O abstrato e o concreto
        • α. O caráter concreto das noções
        • β. O caráter abstrato das coisas
        • γ. A percepção do concreto e do abstrato
        • δ. O caráter abstrato e concreto das noções e das coisas
      • c. A abstração generalizante e o desprendimento do hic et nunc
        • α. A diferença entre as noções e as coisas
        • β. O desprendimento do hic et nunc
        • γ. A abstração generalizante
    • 3. As noções, o conceito e o tempo
      • a. As noções e o conceito
      • b. O conceito e o tempo
  • Segunda introdução ao Sistema do Saber: introdução lógica do tempo (segundo Platão)
    • 1. O ser enquanto tal e o ser de que se fala (o ser-dado)
    • 2. O ser-dado e o tempo
      • a. O ser-uno e a eternidade (segundo Parmênides)
      • b. O ser-dois e o eterno (segundo Platão)
      • c. O ser-três (a trinidade) e a espaço-temporalidade (segundo Hegel)
    • 3. O tempo e o conceito
  • Bibliografia

Prefácio

1. A redação apressada, apesar de mais de dez anos de trabalho preparatório, deixou numerosas imperfeições de forma e de conteúdo que uma elaboração mais demorada provavelmente teria permitido corrigir.

2. A publicação de uma obra reconhecidamente imperfeita exige uma justificativa que, deixando de lado a vaidade autoral, apenas pode apresentar as razões para esperar sua acolhida, pois o julgamento definitivo de seu valor pertence aos leitores e só poderá amadurecer plenamente após a publicação do quinto e último volume.

3. A principal justificativa para a publicação desta obra reside em sua dedicação ao pensamento de Hegel.

4. Hegel ocupa a posição do mais recente entre os grandes filósofos da história e, enquanto primeiro Sábio, constitui também o último filósofo e o último homem histórico no sentido próprio da expressão.

5. Depois de Hegel, as tentativas filosóficas de retrocesso permaneceram impregnadas de hegelianismo involuntário, enquanto as pretensões de superá-lo apenas isolaram aspectos de seu pensamento e os apresentaram indevidamente como totalidades novas.

6. A situação contemporânea permanece integralmente inserida no hegelianismo, quaisquer que sejam suas denominações políticas ou suas aparentes negações de Hegel, de modo que compreender seu pensamento se torna necessário para alcançar consciência de si na própria situação histórica.

7. A compreensão de Hegel tornou-se difícil porque as mudanças de linguagem, os progressos científicos e técnicos e a banalização de ideias antes revolucionárias alteraram as condições de leitura, enquanto palavras alemãs comuns adquiriram uma profundidade vazia e termos gregos passaram a circular sem compreensão efetiva.

8. A atualização dos escritos autênticos de Hegel tornou-se indispensável para tornar seu pensamento novamente acessível e permitir o reconhecimento do hegelianismo da situação presente, tarefa que, diante de sua morte, precisa ser assumida por outro intérprete.

9. A paráfrase da obra hegeliana em francês moderno permite compreender a situação presente sem acrescentar novidades ao que Hegel já formulou, pois a própria possibilidade de dizer algo diferente ou além de seu pensamento permanece excluída, embora seja relativamente fácil dizer menos.

10. A questão decisiva consiste em determinar se a paráfrase recupera integralmente o que Hegel já havia dito, e sua resposta depende da apreciação competente da obra em sua totalidade.

11. Reconhecida a utilidade de atualizar Hegel, permanece a questão da confiança que merece a presente obra e da competência necessária para realizar uma atualização do conjunto dos escritos hegelianos.

12. A competência para realizar essa atualização só pode ser julgada definitivamente pela própria obra, cabendo ao prefácio oferecer, no máximo, algumas indicações pessoais pertinentes.

13. A compreensão rigorosa de Hegel, capaz de interpretar cada frase e cada palavra de seus escritos, pressupõe o domínio integral da Fenomenologia do espírito como introdução ao Sistema do Saber Absoluto, exigência que três leituras completas não haviam satisfeito e cuja dificuldade tampouco era resolvida pelos historiadores consultados.

14. A interpretação do tempo hegeliano desenvolvida por Alexandre Koyré abriu o caminho para uma compreensão efetiva da Fenomenologia, cuja leitura, tradução e interpretação ao longo de cinco anos de cursos constituíram a principal credencial para a posterior atualização de Hegel mediante uma paráfrase da Enciclopédia.

15. O aproveitamento das lições de Koyré dependeu de ampla formação enciclopédica, de conhecimento aprofundado dos clássicos filosóficos, inclusive indianos e chineses, e da leitura de Ser e tempo, embora o desenvolvimento posterior de Heidegger tenha tomado uma direção equivocada ao procurar superar Hegel por sucessivos retornos a pensadores anteriores.

16. A influência de Jacob Klein e Leo Strauss foi decisiva para a compreensão do platonismo, sem a qual não se compreende propriamente a filosofia.

17. A influência de Eric Weil incidiu sobre a forma da atualização de Hegel ao proporcionar contato com o neopositivismo moderno do Discurso (Logos), embora seu percurso posterior tenha se afastado da orientação hegeliana inicial.

18. As demais influências, múltiplas e em grande parte anônimas, dispensam referências explícitas a pensadores contemporâneos ou recentes, pois o reconhecimento das alusões ocasionais não constitui condição para compreender Hegel.

19. Admitidas a utilidade atual de atualizar a Sabedoria hegeliana e a competência necessária para fazê-lo, resta determinar como a leitura pode proporcionar o melhor aproveitamento da obra.

20. Algumas orientações de leitura podem favorecer esse aproveitamento.

21. A leitura deve privilegiar a compreensão e a demonstração do pensamento desenvolvido, pois as possíveis contradições não constituem o ponto decisivo e as obscuridades decorrem de deficiências formais superáveis, enquanto a fidelidade literal a Hegel perde relevância diante de uma demonstração bem-sucedida e, caso esta fracasse, impõe-se recorrer aos originais após compreender ao menos Platão, Aristóteles e Kant.

22. A extensão excessiva da obra permite recomendar uma leitura seletiva que preserve seu valor essencial e possa ser posteriormente completada pelo exame das partes inicialmente omitidas.

23. O conteúdo essencial encontra-se nas diversas Exposições do Saber que integram a Exposição do Sistema do Saber, cuja leitura integral e ordenada é indispensável, ao passo que a Introdução ao Sistema pode ser consultada parcialmente, percorrida ou dispensada conforme as necessidades de compreensão.

24. As Introduções, os Isolamentos e as notas de rodapé admitem leitura facultativa, parcial ou apenas exploratória, com uma preferência possível pelos Isolamentos que permanece dependente do gosto de cada leitor.

25. O apêndice pode ser dispensado porque apenas recapitula o conjunto das considerações sobre o Silêncio e as formas paradiscursivas, sem acrescentar conteúdo novo.

26. O posfácio constitui uma última tentativa de convencer quem já aceita o desenvolvimento apresentado, mas ainda receia suas consequências intelectuais, morais ou existenciais, razão pela qual sua leitura não se destina prioritariamente aos já convencidos ou aos ainda hostis ao hegelianismo e não deve preceder a leitura da obra.

27. O êxito de uma realização discursiva coincide com o sucesso de sua recepção, de modo que somente os leitores podem julgar definitivamente, sem possibilidade de recurso discursivo, o valor da obra publicada.

28. Um julgamento negativo só se estabelece pela falta de interesse que reduza progressivamente o público ou por uma crítica lógica que demonstre a ausência de circularidade do discurso, identificando elementos estranhos à definição inicial, erros de desenvolvimento ou uma refutação sem contradição, pois as explicações sociológicas de sua vinculação aos acontecimentos iniciados em Moscou em 1917 e as explicações psicológicas de sua tese sobre o esgotamento das possibilidades discursivas esclarecem suas circunstâncias e motivações, mas não decidem se nele se encontra tudo o que pode ser dito sem contradição, incluindo o próprio ato de dizer.

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