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gusdorf:tm:sur-la-situation-precaire-de-la-philosophie

SOBRE A SITUAÇÃO PRECÁRIA DA FILOSOFIA

«No mundo em que vivemos, a filosofia sobrevive praticamente apenas graças à estrutura da Universidade, aos seus programas e aos seus cursos. Os “filósofos” constituem um grupo especializado do corpo docente, e seus alunos se preparam para exames nos quais a filosofia é uma disciplina obrigatória… Sócrates argumentava contra os sofistas com base nos recursos que estes extraíam de sua arte: já não estamos mais na posição de reprovar o professor por obter seu sustento do ensino ao qual se dedica. Aliás, se não houvesse o bacharelado, a licenciatura e a agregação em filosofia, é claro que essa atividade austera perderia praticamente todos os seus adeptos e estaria ameaçada de desaparecimento radical. » (G. Gusdorf, Vers une métaphysique, CDU, p. 18.)

«O público filosófico na França é um público de técnicos universitários cujas exigências específicas devem ser satisfeitas. Por isso, o filósofo deve renunciar a ser lido por pessoas comuns, repelidas pela aridez das exposições destinadas aos especialistas. O filósofo escreve para os filósofos; convém que respeite as normas de um hermetismo de bom tom. E quando um filósofo se faz ouvir pelo grande público, como acontece com Bergson ou Sartre, é imediatamente acusado por seus colegas de uma espécie de traição. Cobre-se-lhe esse sucesso de má fama, atribuído ao esnobismo.

É preciso, no entanto, perceber que, na tradição francesa, pensadores autênticos souberam conquistar um amplo público… A restrição da filosofia atual ao âmbito acadêmico talvez seja um sinal de decadência. A filosofia, para se tornar matéria-prima de exames, deve passar por uma espécie de desnaturalização prévia, que lhe retira o melhor de seu sentido. O início do ano letivo dá o pontapé inicial para uma visão geral que deve ser concluída, por necessidade, no dia da prova final ou do concurso… A tirania do exame, aliás, não termina com a obtenção do diploma: o jovem professor recebe imediatamente a tarefa de preparar as gerações seguintes para seguirem o caminho que ele trilhou antes delas. Toda a filosofia francesa resume-se assim no bacharelado, que define ao mesmo tempo seu ponto de partida e seu ponto de chegada. Esse estado de coisas, sem dúvida, não impede totalmente a iniciativa filosófica, mas lhe opõe obstáculos muito sérios” (Id., ib., p. 20).

Aos rituais de exame sobrepõe-se o aparato administrativo. Nunca se poderá medir a influência exata, sobre o pensamento de uma época, de um grande funcionário, capaz de decidir a carreira universitária dos professores — inspetor-geral ou presidente do júri de agregação. Um Victor Cousin, um Lachelier puderam assim desempenhar um papel invisível e despótico na orientação do pensamento de seu tempo, por meio de uma pressão da qual eles próprios, sem dúvida, não estavam plenamente conscientes» (Id., ib., p. 19).

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