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gusdorf:1969:1.1.3

1.1.3 Afirmação galileana

GUSDORF, Georges. Les sciences humaines et la pensée occidentale. 14 volumes. Paris: Payot, 1966–1988. Tomo III: La révolution galiléenne (2 volumes, 1969)

A REVOLUÇÃO GALILEANA. Tomo I.

Primeira parte. A verdade segundo o mecanicismo

I. O CASO GALILEU

Capítulo III A AFIRMAÇÃO GALILEANA

1. A honra de Galileu consiste em ter sido o primeiro a entrar resolutamente no universo moderno do conhecimento, enquanto humanistas e astrônomos como Copérnico, Tycho Brahe e o próprio Kepler só faziam avançar o saber olhando para trás, cativos dos hábitos de pensamento tradicionais, à semelhança de Colombo, que descobriu o Novo Mundo sem jamais sair do antigo.

2. Abandonando o domínio encantado dos mitos cósmicos e da harmonia das esferas, Galileu situa a linguagem matemática num mundo livre da astrobiologia, sem anjos nem forças ocultas, realizando no mundo material uma desmitificação análoga à que Maquiavel operara na ordem moral e política, e formando, pelo estabelecimento de relações quantificadas entre os fatores da experiência, o primeiro núcleo da nova astronomia e da física clássica.

3. Galileu nunca obteve na história do pensamento o lugar de honra que lhe cabe, pois, como denunciou Louis Rougier, os anglo-saxões consagram Bacon e os franceses Descartes como pais da modernidade, embora Galileu os preceda, complete e supere ao associar matemática e experiência, permanecendo quase sem edições francesas de suas obras capitais, como se a condenação de 1633 ainda pesasse sobre ele.

4. Os efeitos duradouros do caso Galileu fizeram dele por séculos um suspeito em seu próprio país, recuperado apenas pelo Risorgimento como emblema maçônico das Luzes contra o obscurantismo vaticano e transformado no século XX num fantasma a assombrar o Concílio Vaticano II, de modo que a lenda dourada que o cerca, fazendo dele uma espécie de herói brechtiano ou de São Jorge da Ciência, mascara seu verdadeiro rosto e seu papel na cultura ocidental.

5. Nascido em 1564 numa família florentina comerciante e letrada, Galileu pertence não mais à Itália efervescente da Renascença, mas à Itália da Contrarreforma, cujo marco é a conclusão do Concílio de Trento em 1563, com decretos aplicados no próprio ano de seu nascimento.

6. A casa paterna estava impregnada de cultura clássica e moderna, e o pai, músico, compositor, teórico e historiador da música, publicou em 1581 um diálogo em italiano que aproximava a teoria musical da acústica positiva, esboçando com meio século de antecedência a conversão epistemológica que Mersenne realizaria nesse domínio.

7. Destinado de início à medicina na Universidade de Pisa, dominada pela escolástica galênica mais tradicional, Galileu renunciou a ela e estudou ciências em Florença sob a direção de Ostilio Ricci, professor de matemática na Escola de Belas-Artes, especialista em mecânica aplicada, hidráulica e engenharia civil e militar com espírito experimental.

8. Junto a Ricci, de quem recebeu as obras de Arquimedes, afirmou-se a vocação de Galileu, que, mais afortunado que o autodidata Leonardo, obteve uma formação científica e técnica e conservou ao longo da vida o interesse pelos problemas concretos dos técnicos, do pêndulo às oficinas de Pádua e ao arsenal de Veneza, onde a utilidade militar da luneta lhe valeu o favor das autoridades.

9. O primeiro escrito de Galileu, de 1585, que refutava teses fundamentais da física aristotélica, valeu-lhe em 1587 um modesto posto de matemática em Pisa, sinal da entrada das ciências exatas na universidade, e em 1592 a cátedra de Pádua, a melhor da Europa, sede de estudos da República de Veneza, que mantinha a Inquisição à distância e garantia excepcional liberdade de pesquisa e expressão.

10. Em Pádua, porém, uma das últimas cidadelas do aristotelismo, de tradição averroísta e orientação biologista compatível com a medicina mas alheia à ciência exata e à inteligibilidade mecânica, Galileu, adiantado em uma idade mental em relação aos colegas, sofreu a inquisição peculiar da inveja confraternal, uma remuneração medíocre que o obrigava a hospedar pensionistas e vender aparelhos, e o dever de ensinar a astronomia de Aristóteles e Ptolomeu, embora já estivesse convencido da validade do sistema de Copérnico.

11. A divergência de posições intelectuais agravava-se por uma incompatibilidade de temperamento, pois Galileu, ruivo, sanguíneo e consciente demais de seu valor e da mediocridade alheia, ignorava o jogo de influências e concessões que faz as belas carreiras e estava fadado a perder tanto nos pequenos jogos universitários quanto no grande jogo do Santo Ofício.

12. Após dezoito anos de ensino em Pádua, Galileu publicou em 1610 o Sidereus Nuncius, ensaio de astronomia descritiva baseado em observações feitas com uma nova luneta, instrumento que ele próprio reconhecia não ter inventado, tendo apenas reconstruído, a partir da doutrina da refração, o aparelho de que ouvira falar como obra de um flamengo.

13. O mérito de Galileu não é de ordem tecnológica, mas reside no uso racional que fez da luneta, ao passo que o microscópio, inventado na mesma época, esperaria meio século, até Hooke e Leeuwenhoek, para encontrar seu uso propriamente científico.

14. A iniciativa revolucionária consistiu em voltar o instrumento para o céu, que Tycho Brahe só pudera contemplar a olho nu, revelando em poucos meses estrelas inumeráveis, o relevo acidentado da Lua semelhante ao da Terra, a verdadeira natureza da Via Láctea e das nebulosas e, sobretudo, quatro astros errantes girando em torno de Júpiter.

15. Mesmo limitada ao Sidereus Nuncius, a obra de Galileu marcaria época, não só pela soma das descobertas, incluindo os satélites de Júpiter batizados de astros mediceus, mas pelo salto da inteligência que as tornou possíveis e que, no inverno de 1609-1610, desagregou e recompôs para sempre a face milenarmente imóvel do céu.

16. Para os observadores do século XVI o céu não diferia do da Antiguidade, com cerca de mil estrelas e planetas ordenados segundo normas antigas convertidas em dogma pela leitura da Bíblia à luz de Aristóteles e Ptolomeu, e a colheita de informações precisas e incompatíveis trazida por Galileu fundou um espaço mental radicalmente diferente.

17. Copérnico abalara a tradição apoiando-se na tradição e sem provas verdadeiras, Tycho e Kepler haviam notado cometas e estrelas novas sem romper com a ordem cósmica ou a mentalidade astrobiológica, mas só Galileu transpôs de imediato o ponto de não retorno, convertendo a hipótese copernicana em verdade demonstrada, vendo no sistema de Júpiter um eco do sistema solar e reconhecendo no geocentrismo uma forma de antropocentrismo.

18. O caráter revolucionário dessas afirmações aparece nas manchas solares observadas em 1612, cuja descoberta, disputada com o jesuíta Scheiner, a quem os superiores proibiram de dizer o que vira por não constar em Aristóteles, atraiu para Galileu a perigosa inimizade da Companhia de Jesus, enquanto os aristotélicos recusavam atribuir sujeira ao olho do mundo e reduziam as manchas a nuvens ou corpos que passavam diante do Sol.

19. Trata-se de um conflito de mentalidades em que os adversários de Galileu buscavam a verdade na comparação dos textos, como se a filosofia fosse um livro como a Eneida, pois durante a Idade Média e a Renascença a verdade, depositada nos livros dos Antigos e nos livros sagrados, era de ordem filológica, ao passo que Galileu exaltava o estudo do imenso livro da natureza aberto diante de quem tem olhos.

20. O que coloca a afirmação galileana acima de qualquer comparação não é uma descoberta particular, que podia ser reivindicada por outros, como Scheiner no caso das manchas solares, mas a iniciativa de uma nova relação com o mundo e de um novo ideal de inteligibilidade que se estende progressivamente à totalidade do saber.

21. Na carta de maio de 1610 em que oferece seus serviços aos Médici, Galileu revela, como Leonardo diante de Ludovico Sforza, a consciência de ser um homem universal à maneira renascentista, anunciando segredos militares e sobretudo um vasto programa de obras sobre o sistema do universo, o movimento local como ciência inteiramente nova, a mecânica, o som, a visão, as marés, o contínuo e o movimento dos animais.

22. Essa carta de candidatura expõe desde 1610 o programa enciclopédico da ciência mecanicista em que trabalhariam os melhores espíritos do século XVII, de Mersenne a Newton, e, embora Galileu não tenha escrito esses tratados nem chegado à formulação definitiva do princípio de inércia, instituiu a nova atitude mental que tornou possíveis os trabalhos alheios e os seus próprios, como O Ensaiador e os Diálogos sobre os dois máximos sistemas do mundo.

23. O pressuposto fundamental do mecanicismo é que o livro da filosofia está perpetuamente aberto diante dos olhos, mas escrito em caracteres que são triângulos, quadrados, círculos, esferas, cones e outras figuras matemáticas, em oposição à erudição do magister dixit dos aristotélicos impenitentes.

24. A junção da ciência da natureza com a inteligibilidade matemática, fundamento da ciência experimental, é incompatível com o saber aristotélico biológico e sensível e escapou até a Bacon, pois para Galileu as leis da natureza são matemáticas, o real encarna o matemático e a natureza só responde a perguntas formuladas em linguagem matemática, revelando numa experiência bem conduzida uma essência que somente o intelecto apreende.

25. A fórmula da revolução galileana é que a matemática constitui a verdade do real, de modo que, contra a evidência sensível aristotélica, exposta a todas as ilusões, a luz fria da razão mantém o mundo à distância para decifrá-lo numa segunda leitura, distinguindo nos objetos os caracteres essenciais e inteligíveis dos acidentais e derivados.

26. O conhecimento torna-se uma geometria em ação que distingue as qualidades primeiras e inteligíveis do objeto, como figura, grandeza, lugar, movimento e número, das qualidades segundas, como cores, sabores e odores, que nada são na coisa mesma e existem apenas no corpo sensitivo, distinção que Boyle formulará resumindo a nova consciência epistemológica de Galileu.

27. O intelectualismo galileano antecipa o pedaço de cera de Descartes e a palavra de ordem mecanicista de separar o espírito dos sentidos, segundo a qual a demonstração é o olho da alma e a percepção, presa à constituição do corpo, permanece opinião subjetiva, como no sol que Espinosa diz continuarmos a imaginar próximo mesmo conhecendo sua verdadeira distância.

28. O sol sensível é irredutível ao sol inteligível que é sua verdade, e essa contabilidade de partidas dobradas, agravada por um juízo de valor, cinde o ser humano com consequências imensas para o pensamento ocidental, cabendo a Galileu o mérito de definir as condições de possibilidade de uma ciência rigorosa, mais do que os estudos particulares sobre queda dos corpos, relatividade do movimento ou marés, depois corrigidos e aperfeiçoados.

29. Em 1638, Descartes, numa carta a Mersenne, aprova Galileu por abandonar os erros da Escola e examinar a física por razões matemáticas, mas o censura por suas contínuas digressões e por buscar as razões de efeitos particulares sem considerar as primeiras causas da natureza, construindo assim sem fundamentos.

30. Uma geração mais jovem, Descartes mostra-se atrasado em uma idade mental em relação a Galileu, pois não percebe que a ciência moderna pressupõe a disjunção entre física e metafísica, exigindo do físico as primeiras causas que a reforma galileana expulsa do campo epistemológico, de modo que sua física, viciada por um aristotelismo remanescente, prolonga o passado, enquanto Galileu lançou justamente os fundamentos da ciência futura.

31. Galileu definiu, para além das ilusões do senso comum, o espaço inteligível de uma ciência matematizada regido pelo modelo do objeto qualquer, em que o fenômeno já não é o que se mostra, mas o que se concebe, e os números, como queriam pitagóricos e platônicos, exprimem as coisas, não mais como entidades transcendentes, mas como fatores operatórios de uma equação da realidade.

32. A afirmação de um novo mundo inteligível destrói o sentido da realidade em que a humanidade residira por milênios, a carapaça mítica do cosmo grego sacralizado pelos doutores cristãos, pois a ciência clássica, segundo Koyré, caracteriza-se pela geometrização do espaço e pela dissolução do cosmo, substituindo o espaço concreto da física pré-galileana pelo espaço abstrato euclidiano que permite a lei de inércia.

33. A destruição do cosmo transforma a ordenação do mundo, e os Diálogos de 1632 extraem dela a conservação, a perpetuidade circular e a relatividade do movimento num espaço homogêneo válido na terra e no céu, aplicando aos céus os princípios estabelecidos para a terra, em sentido inverso ao de Copérnico, e abrindo a perspectiva que culmina em Newton com a substituição do cosmo fechado e hierárquico por um universo aberto unificado por suas leis.

34. O gênio de Galileu, cientista e não filósofo, tornou possível não só uma cosmologia sem cosmo, mas a separação entre a ciência da natureza e a filosofia da natureza unidas no esquema aristotélico, substituindo, segundo Cassirer, o conceitualismo escolástico e a hierarquia orgânica das formas por um conceitualismo matemático que deixa apenas a legalidade mecânica em sua nudez.

35. A natureza deixa de ser um conjunto harmonioso e providencial de formas vivas para tornar-se uma totalidade de corpos abstratos em relações mútuas num espaço geométrico, um sistema de relações necessárias e permanentes de uma substância corporal determinável pelo espaço, pelo tempo e pelo número, conforme os esquemas do novo atomismo, onde não há conhecimento do absoluto, mas há conhecimentos absolutamente certos.

36. A epistemologia estabelece, fora da teologia e da revelação, uma comunicação privilegiada entre o pensamento humano e o divino, pois o entendimento humano, embora conheça poucas proposições, as compreende, como nas matemáticas puras, com a mesma certeza objetiva que Deus, esboçando uma nova ontologia em que a comunhão dos espíritos poderá rivalizar com a comunhão dos santos, como afirmará Brunschvicg.

37. Sem atribuir anacronicamente tal espiritualidade a Galileu, a investigação matemática da realidade física abre caminho a uma inteligência fenomenista que vai de Mersenne a Newton, desmente os naturalismos fundados na correspondência entre microcosmo e macrocosmo, separa a ideia de natureza da ideia de vida, converte o movimento num fenômeno puramente material e substitui a biologia cósmica por uma física rigorosa da matéria, forjando, por um gênio analítico avesso aos dogmatismos prematuros, o instrumento da inteligibilidade físico-matemática.

38. O modelo galileano irradia para as ciências do homem, como mostram os projetos de estudos sobre o som, a visão e o movimento dos animais, que pretendiam ligar por causalidade mecânica as sensações humanas aos fenômenos físicos e fundar uma psicofisiologia exata, retomada por Gassendi, Hobbes e Descartes, e cujo título sobre os animais foi reassumido pelo galileano Borelli em 1679, seguido pela Mecânica dos Animais de Claude Perrault em 1680.

39. A revolução galileana opera uma inversão da causalidade, pois em vez de absorver os fenômenos num organismo universal procura reduzir o orgânico aos determinismos da matéria, como na medicina mecanicista de Santorio, cujo tratado de 1614, prematuro, esboça um dualismo que permitirá distinguir os domínios orgânico e inorgânico, distinção tornada possível pela dissociação galileana da filosofia natural aristotélica.

40. A revolução galileana alcança também a história, a geografia, a filologia, a exegese e a pedagogia, que, sem dever diretamente nada à física, dela recebem a inspiração de constituir domínios epistemológicos unificados, na convicção de que a razão tem direito de inspeção universal e não admite domínios reservados por imunidade teológica, razão pela qual Bayle, Fontenelle, os enciclopedistas e os partidários das Luzes reivindicarão Galileu como um de seus santos padroeiros.

41. A revolução galileana tem consequências imensas para a cultura ocidental, pois define o protótipo da inteligibilidade pelo domínio rigoroso da realidade exterior, fazendo o conhecimento triunfar primeiro na ordem das coisas e progredir reduzindo a realidade humana às disciplinas comprovadas no estudo dos objetos materiais, considerando o organismo humano um corpo entre corpos e esvaziando o novo universo das significações antropomórficas do cosmo tradicional.

42. A desmitificação é ao mesmo tempo uma desumanização, pois desloca o centro da verdade do concreto para o abstrato e das intenções vividas para as normas concebidas, desvalorizando a experiência humana como opinião ilusória, de modo que o bastão quebrado na água, o sol de calor e brilho e a luz das cores tornam-se sombras de uma verdade que só existe nas equações dos físicos e que vale tanto para o cego quanto para o vidente.

43. A dissolução galileana do cosmo traz o germe de um acosmismo intelectualista, cujo silêncio eterno angustiava Pascal, que descobriu antes de Scheler que o espaço da nova física é o vazio do coração, e cujas consequências se desdobram no positivismo de Newton a Comte e ao fisicalismo do Círculo de Viena, cujos adeptos, buscando na ciência a única verdade das coisas, figuram entre os alucinados do além-mundo denunciados por Nietzsche.

44. Galileu não podia prever as consequências remotas de sua revolução, como o desencanto de Whitehead diante de uma natureza mecanicista sem som, odor ou cor, mero fluxo de matéria sem sentido, sistema dominante e sem rival, mas inadmissível por confundir abstrações com realidade e por opor a matéria ao espírito que apenas percebe e raciocina, arruinando assim a filosofia moderna.

45. Essa transformação faz do homem um espectador mesquinho e aberrante de um vasto sistema matemático de movimentos calculáveis, universo que franceses atribuem a Descartes e ingleses a Newton, mas que pertence igualmente a Mersenne, Gassendi, Hobbes, Boyle e Harvey e tem sua origem verdadeira na iniciativa de Galileu, fundador, para o melhor e para o pior, do racionalismo moderno.

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