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gusdorf:1969:1.1.2

1.1.2 Epistemologia

GUSDORF, Georges. Les sciences humaines et la pensée occidentale. 14 volumes. Paris: Payot, 1966–1988. Tomo III: La révolution galiléenne (2 volumes, 1969)

A REVOLUÇÃO GALILEANA. Tomo I.

Primeira parte. A verdade segundo o mecanicismo

I. O CASO GALILEU

Capítulo II O CLIMA EPISTEMOLÓGICO DO CASO GALILEU

1. O caso Galileu não foi um lamentável erro judiciário nem um simples processo de tendência epistemológica, mas o fim de uma ontologia e de uma teologia e o começo de outras, no qual a própria condição humana muda de sentido.

2. Na dedicatória da Grande Composição Matemática, Ptolomeu apresenta a astronomia como chave de abóbada da ciência, da sabedoria e da religião, capaz de conduzir das energias sensíveis às essências eternas e de modelar a alma segundo a beleza e a ordem divinas do céu.

3. Essa concepção, preservada por quinze séculos e incorporada pelo cristianismo à piedade astral, faz do céu a origem das verdades e dos valores terrestres, de modo que perturbar a ordem celeste equivalia a corromper ao mesmo tempo a física, a metafísica e a religião, razão sem a qual o caso Galileu se reduziria a uma história sórdida de estupidez clerical esmagando o gênio.

4. A revolução copernicana questiona a topologia da inteligibilidade, pois na concepção tradicional a ordem celeste perfeita servia de modelo a um mundo sublunar imperfeito, cuja ciência aproximativa, incluindo astrologia e alquimia, integrava um saber unitário sobre o universo e o homem.

5. A substituição da astrologia pela astronomia redistribui as zonas de verdade ao abolir a superioridade do Alto sobre o Baixo e ao tornar o domínio terrestre campo de uma ciência tão exata quanto a dos movimentos celestes, empreendimento paradoxal de aplicar a precisão matemática a uma realidade cotidiana feita do impreciso e do mais ou menos.

6. O aristotelismo, assim como o platonismo que situava a verdade no céu das ideias, harmonizava-se melhor com o senso comum do que a ciência galileana, pois entre a matemática e a realidade física parecia haver um abismo que tornava absurdo medir com exatidão os seres naturais.

7. A revolução copernicana é na verdade uma revolução galileana, porque Copernico apenas reformou o sistema celeste dentro dos mesmos valores epistemológico-religiosos, ao passo que Galileu fez a ciência descer do céu à terra, dessacralizando o céu e humanizando a ciência.

8. Com o instrumento de medida a exatidão toma posse do mundo terrestre, e o que está em jogo é uma revisão dilacerante do estatuto da verdade, em que o esquema milenar de degradação do conhecimento cede lugar a um campo unitário do saber, cujos argumentos só podiam ser ouvidos mediante uma reconversão prévia do entendimento que era também metafísica e religiosa.

9. A recusa do aristotélico Cremonini em olhar pela luneta revela o medo diante de evidências capazes de destruir a física de Aristóteles, uma carreira e toda a filosofia tradicional, além da convicção escolástica de que a verdade se dá na percepção imediata e de que os instrumentos interpostos entre o olho e o objeto apenas a deformam.

10. A linha de demarcação entre Cremonini e Galileu, nítida em retrospecto, era obscura para os contemporâneos, embora alguns espíritos perspicazes como Paolo Sarpi já previssem em 1611 que a questão astronômica seria convertida em questão teológica e que Galileu teria de se retratar.

11. Isolado por seu gênio e adiantado em uma idade mental em relação a seus contemporâneos, Galileu, diferentemente de Sócrates, não previa a condenação, pois confiava na generosidade dos homens e na força persuasiva da evidência racional até as portas do Tribunal da Inquisição.

12. Galileu julgava suas demonstrações um sistema autossuficiente e incondicionalmente válido, enquanto a ciência tradicional formava um todo submetido a verdades-valores teológicas, de modo que, como mostra Kuhn, as provas astronômicas não respondiam às objeções físicas, cosmológicas e religiosas, e os juízes só poderiam aceitá-las ao preço de sacrificar sua metafísica e sua teologia diante da autoridade milenar da Igreja.

13. A revolução copernicana avança progressivamente pelas disciplinas do século XVII até a completa inversão do horizonte do saber, e os juízes de Galileu, como mais tarde Bossuet diante de Richard Simon, dos protestantes e dos racionalistas, reagem defensivamente subordinando as verdades científicas e históricas à fidelidade à Igreja.

14. O processo de Galileu é um processo exemplar em que duas mentalidades travam um diálogo de surdos, opondo um homem quase sozinho ao formidável aparato repressivo eclesiástico, sendo provavelmente a proteção do Grão-Duque da Toscana o que lhe evitou o pior ao preço de uma humilhação inevitável.

15. Campanella, filósofo calabrês da Renascença impregnado de ocultismo, iluminismo e profetismo, formou-se junto a Telesio e a Della Porta, elaborou um naturalismo hilozoísta que culminava numa magia natural transformadora do mundo e conheceu Galileu em Pádua em 1592, nutrindo por ele viva admiração.

16. Aventureiro do espírito suspeito à ortodoxia, Campanella passou cerca de trinta anos em prisões, escreveu em 1616 uma Apologia de Galileu, tornou-se depois favorito de Urbano VIII graças à astrologia e à lisonja, perdeu esse favor ao oferecer-se para defender Galileu em 1632 e refugiou-se na França, acolhido por Peiresc e pelos libertinos eruditos.

17. Em sua nova existência francesa, protegido pela corte, Campanella publicou e reeditou obras, traçou para Ana da Áustria e Richelieu o horóscopo do futuro Luís XIV prevendo-lhe uma glória de Rei-Sol, e morreu em 1639 rodeado de cores, perfumes, pedras e plantas dispostos segundo indicações astrais para retardar o fim.

18. Lembrado sobretudo pela Cidade do Sol, Campanella pode ser considerado o último pensador italiano da Renascença diante de Galileu, primeiro pensador italiano dos tempos modernos, mas a quase contemporaneidade de ambos e o sincronismo de suas publicações com as de Bacon, Descartes e Jung mostram que os dois universos mentais coexistiram no momento mesmo da transmissão do poder intelectual.

19. Não houve ruptura nítida entre o antigo e o novo regime do pensamento, pois os dois modelos epistemológicos podiam coabitar num mesmo indivíduo, como em Campanella, que via em Galileu um taumaturgo e um colaborador da mesma obra experimental, erro que comprova a confusão dos espíritos característica do clima do caso Galileu.

20. Enquanto Campanella permaneceu aquém do limiar do pensamento mecanicista, outros o atravessaram no curso de sua vida intelectual, numa inversão do pensamento científico em torno do tema pitagórico da harmonia universal, que inspira ainda Copérnico e o jovem Kepler do Mysterium cosmographicum, fundado nos cinco sólidos regulares.

21. Kepler, fundador da astronomia matemática, permanece fiel à harmonia das esferas até a Harmonice Mundi de 1619, onde enuncia sua terceira lei, pois a nova ciência nasce no prolongamento da tradicional, e ele só encontrou leis matemáticas porque já estava certo da estrutura matemática do universo.

22. Mersenne parte do mesmo pressuposto, mas, ao ver que os cálculos não confirmam a tese, passa da refutação da harmonia mística de Fludd em 1627 a uma teoria física da música na Harmonia Universal de 1636-1637, já mecanicismo positivo sob um título anacrônico, prova de que a revolução epistemológica não se fez em um dia nem sequer entre os mais lúcidos.

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