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gusdorf:1966:5.2

5.2 Dissociações

GUSDORF, Georges. Les sciences humaines et la pensée occidentale. 14 volumes. Paris: Payot, 1966–1988. Tomo I: De l'histoire des sciences à l'histoire de la pensée (1966)

Capítulo V Rumo a uma outra história das ciências

As dissociações abusivas

1. A ilusão retrospectiva reúne um conjunto de ilusões secundárias que convém evidenciar, pois a possibilidade da história das ciências tal como tradicionalmente praticada repousa sobre uma série de postulados.

2. O primeiro desses postulados é o da independência da ciência, que supõe a existência de um objeto de estudo formando um todo isolável do resto, embora seja difícil justificar com rigor que o conhecimento científico exista em si e para si, desligado do devir global da cultura, como se fosse possível dissecar um vetor separado do pensamento humano.

3. Os especialistas não perceberam essa dificuldade preliminar, tão evidentes lhes pareciam a existência e a autonomia da ciência, como mostra George Sarton ao resolver a questão sem sequer formulá-la no artigo inaugural da revista Isis, definindo a história da ciência como história da inteligência humana e a história das artes como história da sensibilidade e dos sonhos da humanidade.

4. Essas definições aparentemente banais não resistem à análise, pois a ciência não recobre todo o território da inteligência, a história das ideias não coincide com a história das ciências, e a sensibilidade, a imaginação e o sonho permeiam todas as atividades humanas, assim como a arte também mobiliza ideias.

5. Assim como foi abandonado o antigo esquema pedagógico que decompunha a personalidade em faculdades independentes, reconhecendo-se que afetividade, inteligência e vontade se pressupõem e remetem umas às outras, também a ciência não constitui uma atividade especializada separada das demais por compartimentos estanques.

6. Uma história da ciência que falasse apenas da ciência falsearia seu próprio sentido ao negligenciar as interações constantes com a arte, a técnica, a filosofia e a religião, o que leva a perguntar se alguma vez se escreveu uma verdadeira história da ciência e se ela é possível senão como ponto de vista particular sobre a história total da humanidade.

7. Desmentido o pressuposto do esplêndido isolamento da ciência, revela-se outra dissociação ilegítima, já que a ciência personificada, como personagem mitológico que atravessaria os séculos da infância à maturidade sem jamais envelhecer, não existe em parte alguma, sendo antes uma família numerosa cujos membros só se encontram um a um, o que exige um segundo postulado, o da independência de cada disciplina particular.

8. Essa independência manifesta-se na existência de histórias separadas da matemática, da mecânica, da astronomia, da física e da química, cada qual com seus historiógrafos e congressos sem solidariedade mútua, e mesmo essas rubricas se subdividem, como na medicina, repartida entre especialistas da Antiguidade, da Idade Média, de épocas e regiões específicas, ou ainda da loucura, da digestão e dos sistemas respiratório e circulatório.

9. Ainda que a ciência não seja uma variável independente, supõe-se que cada disciplina se desenvolva por conta própria, o que justifica histórias da álgebra, da trigonometria, da neurofisiologia, da conquiliologia ou da geomorfologia, em que cada saber exibe sua árvore genealógica e acumula progressos segundo um determinismo unilinear.

10. Ao remontar o curso de cada disciplina atual, chega-se rapidamente a um momento em que ela se dissolve na massa e perde toda coerência própria, pois a especialização presente introduz dissociações anacrônicas em épocas nas quais as metodologias não viviam fechadas em si mesmas, razão pela qual os cientistas atuais costumam ser maus historiadores, incapazes de abandonar sua mentalidade.

11. Para reconstituir em sua amplitude a obra de grandes nomes como Aristóteles, Alberto Magno, Descartes, Lineu, Lamarck, Humboldt ou Darwin, é preciso percorrer todas as histórias especializadas, somando informações que não formam um todo, como no caso de Leibniz, disperso entre cálculo infinitesimal, direito, historiografia, geologia, filologia e etnologia, sem que exista obra satisfatória sobre o conjunto de seu pensamento, e reduzi-lo à metafísica é cegar-se ao seu sentido profundo.

12. As grandes obras da história do saber ignoram a dissociação das disciplinas e, mesmo cientificamente superadas, ainda cativam pelo sopro vivo que as anima, pois a verdade do conjunto sobrevive à inexatidão dos detalhes, como nos Principia de Newton, na Filosofia zoológica de Lamarck, em Darwin, Lyell, Humboldt e Suess, ou nas lições de Wolf e Boeckh e nas obras de Gibbon, Sainte-Beuve, Michelet e Burckhardt, que conservam seu poder de fascínio apesar dos eruditos que lhes corrigiram datas e detalhes.

13. Essas obras decisivas escapam ao compartimento do saber e ocupam livremente todo o espaço epistemológico, com repercussões em setores remotos, e a alegação de que o tempo dos grandes espíritos passou e de que o presente pertence aos especialistas que sabem pouco mas bem é uma má desculpa para a indigência intelectual, já que a restrição do campo mental não se concilia com a amplitude de visão e o especialista será sempre um anão.

14. Humboldt pôs como epígrafe do Cosmos uma fórmula de Plínio segundo a qual a força e a majestade da natureza escapam a quem apreende apenas suas partes e não o todo, verdade que nenhuma desculpa fundada na fraqueza da inteligência humana pode invalidar: quem pretende captar a realidade no detalhe, esquecendo o conjunto, falha a realidade.

15. Desmentido o postulado da independência das disciplinas, tão falso quanto o da independência da ciência como entidade coletiva, surgem pressupostos relativos ao sujeito, pois diante da ficção da ciência ergue-se a ficção do cientista, espécie zoológica que se perpetua idêntica através dos tempos, homem da ciência eterna e não da ciência de sua época, dotado de uma extraterritorialidade que o preserva das contaminações sociais.

16. O cenário ideal dessa história corresponde aos Campos Elíseos dos diálogos dos mortos, onde Roger Bacon discute ciência experimental com Boyle e Berthelot, Aristóteles, Alberto Magno e Darwin conversam em esperanto sobre biologia e Newton, Einstein, Ptolomeu e Sacrobosco elucidam o Cosmos diante de um quadro-negro, segundo as unidades de tempo, lugar, ação e linguagem de uma confraria que debate de igual para igual problemas eternos numa língua universal.

17. Por ter usado no século XIII a expressão ciência experimental, Roger Bacon figura frequentemente entre os fundadores da ciência moderna, quando suas experiências eram as realizações prodigiosas do perito em alquimia, astrologia e ciências ocultas, visando ao elixir da longa vida, à pedra filosofal e à panaceia sob a graça divina, enquanto outros historiadores, inconformados, censuram-lhe preconceitos indignos de um espírito positivo.

18. Na história da Pléiade, Pierre Brunet mostra-se perplexo diante de Alberto Magno, naturalista sagaz que retificou Aristóteles, e procura tratar como lenda sua fama de mago, apresentando-o como crítico da alquimia capaz de separar ilusões de procedimentos técnicos, retrato que faz dele um irmão mais velho de Lavoisier tão anacrônico quanto os escritos do século XVII que pintavam os merovíngios como cortesãos de Luís XIV, embora o próprio Brunet admita que Alberto aceitava teoricamente a transmutação e os quatro elementos antigos.

19. Alberto Magno viveu não no espaço abstrato da química atual, mas no espaço espiritual e intelectual a que pertencia inteiramente, e tratá-lo como contemporâneo de Lavoisier é torná-lo deslocado em ambas as épocas, pois, como observa Gilson, todo pensamento começa por um ato de submissão e move-se livremente dentro de um mundo dado, que na Idade Média era o da fé, como hoje é o da ciência.

20. A história da ciência medieval é um aspecto da história da Idade Média, e Bacon e Alberto, assim como Euclides, Arquimedes, Newton, Claude Bernard ou Einstein, só podem ser compreendidos segundo as normas de seu próprio tempo, pois cada grande espírito respeita o estilo de pensamento em que tomou consciência de si, conforme a tese de Spengler sobre a profunda conexão formal entre cálculo diferencial e princípio dinástico, pólis antiga e geometria euclidiana, perspectiva pictórica e conquista técnica do espaço.

21. Mesmo hesitando diante dessa afirmação intrépida de uma inteligibilidade correlativa dos fenômenos culturais, descobre-se uma harmonia preestabelecida entre os Elementos de Euclides e os cânones estéticos gregos, como se a matemática fosse expressão privilegiada da inteligência clássica, assim como a dedicatória de Harvey a Carlos I em 1628, comparando o coração ao rei como sol do microcosmo, atesta a correlação entre a fisiologia e o movimento geral da cultura.

22. Esse texto, que poderia parecer adulação de cortesão, resume ao mesmo tempo a nova biologia e a política da era barroca, pois a retórica é sempre mais que retórica, e embora Harvey tenha agido como cientista fiel à exigência científica, os caminhos de sua reflexão, de Pádua a Londres, eram os da fisiologia tradicional, da qual só se libertou à força de obedecer-lhes, permanecendo testemunha privilegiada da sensibilidade intelectual de sua época.

23. Por não perceber essas concordâncias intrínsecas, Charles-Victor Langlois, erudito medievalista, indigna-se contra a esterilidade de tantos séculos medievais, cujas aquisições se reduziriam a receitas de práticos anônimos, situando o verdadeiro arranque da ciência ocidental no século XIV contra uma tradição mortal ligada a Aristóteles, cuja física errônea teria desviado os melhores espíritos para pseudoproblemas.

24. Essas afirmações surpreendem num historiador competente do período e revelam que a grandeza da inteligência medieval lhe permanecia estranha, pois pesquisas recentes mostraram que o caminho da ciência moderna passa pelo aristotelismo da Universidade de Pádua, e sobretudo porque Langlois projetava os doutores medievais no espaço intelectual atual, censurando-os por terem pensado como se pensava em seu tempo.

25. É absurdo imaginar os cientistas do passado nas estradas da ciência atual, como motoristas ingênuos que tomam o caminho errado em cada encruzilhada, quando na verdade os caminhos não estavam abertos e cada um buscava sua via no desconhecido segundo as indicações que a época lhe fornecia.

26. O erro dos historiadores mais respeitáveis consiste em transferir para o passado a possibilidade de antecipar o futuro, ilusão em que cai Herbert Butterfield ao afirmar que os químicos do fim do século XVIII, de Black a Lavoisier, tinham a verdade debaixo do nariz e todos os elementos da solução, mas foram impedidos pela teoria do flogisto de compreender as implicações de seu próprio trabalho.

27. Os homens do século XVIII não tinham debaixo do nariz a verdade dos manuais atuais, mas um certo estado do conhecimento e questões sem resposta, e cego é o historiador que imagina as soluções de amanhã já presentes, pois o cientista avança no impulso do passado, para quem o futuro ainda não chegou, enquanto o historiador parte do problema resolvido e inverte o sentido da marcha.

28. Ocorre frequentemente que os espíritos mais ousados pareçam recuar diante da plena consciência ou da exploração completa de seus próprios avanços, ou se oponham a trabalhos que favoreciam sua causa, como Galileu, que não formulou a lei da inércia nem aceitou as órbitas elípticas de Kepler, Planck, que recuou diante da teoria dos quanta, e Poincaré, que rejeitou a relatividade de Einstein.

29. Butterfield vê o paradoxo supremo da revolução científica no fato de que noções hoje facilmente ensinadas às crianças, como o comportamento dos corpos em queda, tenham derrotado por séculos espíritos como Leonardo e Galileu, e de que gênios como Gilbert, Bacon e Harvey permanecessem encalhados numa espécie de medievalismo fora de seu domínio de eleição.

30. Só se pode escandalizar-se com isso tomando a história às avessas, pois o tempo real da história das ciências não é o do historiador que aprendeu na escola a palavra final, mas o dos cientistas para quem a luta pela verdade é uma luta contra os outros e contra si, sendo o medievalismo de Harvey e Gilbert apenas o sistema de evidências estabelecidas de sua época, e nada garante que as certezas atuais não se tornem arcaicas, assim como as evidências estéticas foram desmentidas em poucas décadas pelo impressionismo, o fauvismo, o cubismo, o surrealismo e o jazz.

31. Nada é mais arbitrário que a aparência e a simplicidade, e para fazer justiça a Alberto Magno, Gilbert ou Galileu é preciso evitar dissociar seu pensamento numa parte perecível presa ao senso comum da época e outra genial e eterna, pois os cientistas são homens e não profetas, suas descobertas inscrevem-se no contexto histórico e social, e a atividade cognitiva não é capítulo independente da existência pessoal, de modo que é injusto tirar de Leonardo seus trabalhos científicos para entregá-los à ciência, já que esta traz a marca dos homens que a fizeram, marca que cabe à história das ciências detectar.

32. O cientista pensa em seu tempo e para seu tempo, age segundo o espírito mas como homem e não como espírito puro desencarnado, sendo sua pesquisa científica uma forma da busca de si, o que a história deve levar em conta se pretende compreender o que realmente aconteceu e fazer justiça a cada um.

33. O historiador da biologia Emil Rádl denunciou o erro de perspectiva que apresenta a verdade pairando acima dos indivíduos, tratados como meros suportes de uma verdade impessoal, e afirmou que o estudo da natureza é o desdobramento de uma propriedade humana e a história da ciência uma história dos destinos humanos, já que a ciência só vive nos homens e por eles, limitada por suas propriedades pessoais, e sua fisionomia muda com o caráter dos indivíduos e das épocas.

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