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Mística divina, natural e diabólica – Introdução
La Mystique divine, naturelle et diabolique I
- Deus, único em essência e trino em personalidade, encontra correspondência no mundo criado, também único no pensamento divino mas triplo em suas manifestações, e o homem reúne em si os três tipos de seres da criação, tornando-se ponto de convergência de múltiplas formas de mística.
- Os três tipos de seres criados são: espirituais e invisíveis, visíveis e materiais, e orgânicos como elo entre os dois.
- O homem pode orientar-se para a natureza e a ela se entregar, dando origem à mística natural com suas formas, graus e fenômenos diversos.
- Na mística natural, é a vida inferior e orgânica que entra em contato mais íntimo com os domínios da natureza, arrastando consigo as potências espirituais e os órgãos superiores do homem.
- Em contraposição à mística natural da antiguidade pagã, existe uma mística mais elevada, cujo ponto de partida está nas faculdades espirituais do homem, e que, descendo pelos sistemas nervosos superiores, estabelece relação imediata com o mundo dos espíritos e penetra até os domínios mais profundos da natureza.
- Essa mística psíquica ou animal é característica da época moderna, em que o sistema nervoso e o elemento psíquico têm predomínio marcado.
- Todas as suas formas têm como foco a vida psíquica e como instrumento os sistemas nervosos, estendendo ramificações até os domínios mais profundos da natureza.
- A mística psíquica dos tempos modernos coloca o homem em contato, no mundo dos espíritos, principalmente com as almas dos defuntos.
- A mística psíquica dos tempos modernos, assim como a dos tempos antigos, é essencialmente profana, por colocar a criatura em relação com a criatura sem se elevar acima do mundo criado, sendo do âmbito da ciência; ao lado dela existe uma mística religiosa e sobrenatural que se eleva até Deus e pertence ao âmbito da Igreja.
- A mística religiosa comporta duas vertentes: uma que parte do Verbo feito homem e se eleva até a Divindade, outra que parte da essência divina e desce por graus em direção às criaturas.
- A primeira manifesta-se sob duas formas correspondentes às duas naturezas do Verbo encarnado; a segunda, por ater-se à essência de Deus, é simples como ela.
- Em cada uma dessas místicas, a natureza física e o mundo dos espíritos levantam o véu de seus mistérios, e Deus, na última, permite ao homem penetrar com o olhar nas profundezas de seu ser.
- A mística religiosa é superior à mística natural, mas esta não é má em si mesma, pois a criatura é obra de Deus e está em relação necessária com ele; contudo, o pecado introduziu uma divisão profunda na natureza, gerando nela um duplo elemento, um salutar e outro maléfico, e o mundo dos espíritos também se dividiu em bons e maus.
- A morte e a vida, a lei da carne e a do espírito, a mentira e a verdade lutam incessantemente entre si desde a queda original.
- As potências luminosas buscam manter a ordem, a harmonia e a beleza da natureza exterior, enquanto as potências infernais buscam introduzir perturbação e confusão.
- Tudo o que é verdadeiro e bom no mundo moral tem seu ponto de partida, centro e fim em Deus, enquanto tudo o que é falso, desordenado e mau procede de algum modo do demônio.
- As duas cidades se encontram em toda parte e a oposição que as separa é irreconciliável, mas a superioridade do bem sobre o mal manifesta-se no fato de que o mal, mesmo quando aparentemente vitorioso, acaba por reentrar na ordem estabelecida por Deus e assegurar o seu triunfo.
- O homem, colocado entre o reino da luz e o das trevas, possui vínculos que podem ligá-lo a uma ou à outra cidade.
- Em ambos os casos o homem sai de si mesmo: elevado acima de sua natureza quando se volta para o bem, rebaixado abaixo dela quando se inclina para o abismo.
- A mística natural da antiguidade buscou, de um lado, nas pedras, nas plantas e nos animais os meios de entrar em contato com as potências destrutivas da natureza, originando a magia negra; de outro lado, as tribos sacerdotais fundaram a magia branca, buscando descobrir e desenvolver na natureza os elementos salutares que ela contém.
- Em suas relações com o mundo dos espíritos, a mística da antiguidade também seguiu essa dupla direção.
- Dirigindo-se aos espíritos do abismo, por meio de encantamentos, fórmulas misteriosas, conjurações, amuletos e talismãs, originou a goécia.
- Dirigindo-se às potências da luz, desenvolveu-se sob a forma da teurgia.
- A mesma oposição reencontra-se na clarividência magnética dos tempos modernos, produzindo duas direções contrárias de efeitos visíveis.
- O mundo moral, também dividido entre o bem e o mal, faz com que a divisão introduzida pelo pecado se reproduza na mística religiosa, dando origem a uma mística que põe o homem em relação com os demônios e a outra que o põe em relação com os anjos luminosos.
- A mística demoníaca tem vínculos íntimos com a magia negra ou goécia; a mística luminosa tem afinidade secreta com a magia branca ou teurgia.
- Como o homem conserva sempre sua liberdade e o bem e o mal se tocam continuamente nele, é possível voltar-se para o lado oposto mesmo depois de ter feito uma escolha.
- Quem se decidiu pelo bem pode percorrer sem perigo os domínios sombrios da noite; quem se entregou às potências más pode, pela misericórdia de Deus, entrever algo dos mistérios do mundo da luz.
- Acima de todas essas divisões eleva-se a mística unitiva, que tem seu ponto de partida e seu fim no ser de Deus, e comunica algo de sua inefável simplicidade a todos os que se unem a ela.
- A divisão da mística e a ordem de exposição de seus fenômenos seguem uma sequência que parte do homem, passa pelo fundamento divino contido na revelação cristã, percorre a disciplina ascética preparatória, distingue a mística diabólica da cristã, desdobra os graus e fenômenos de cada uma e culmina na mística unitiva como cúpula de todo o edifício.
- Gorres morreu antes de publicar a parte final, relativa à mística unitiva.
- Guido Gorres, filho do autor, que havia herdado o gênio paterno e poderia ter suprido em parte a lacuna, seguiu-o logo à morte.
- É improvável que essa parte seja algum dia publicada.
- A mística tem por objetivo estabelecer entre o homem e Deus relações mais íntimas, sendo Deus a causa e o fim último dessas relações e o homem o seu outro termo; o homem, porém, jamais pode se libertar inteiramente das condições da criatura, e os elementos que compõem seu ser o acompanham em todos os seus caminhos, tornando-se mais puros quando se eleva a Deus ou mais grosseiros quando pende para o abismo.
- O homem é composto de espírito e corpo, governado por dupla lei, e da união desses dois elementos resulta uma relação recíproca que nunca pode cessar.
- Na origem, quando o espírito era imagem não alterada da Divindade, reinava harmonia perfeita entre os dois elementos, e o espírito governava o corpo com facilidade.
- Após o pecado, a imagem de Deus na alma se alterou, e a sua semelhança no corpo igualmente; a alma não pode mais governar o corpo como antes e é obrigada a conquistar em luta incessante a dominação que havia recebido sobre ele.
- A ciência considera o mundo exterior como formando círculos cujos raios convergem para um centro comum, mas a mística não conhece raios, eixos nem ângulos, apenas a figura da cruz, que é sua base e seu ponto de partida, pois Cristo, que venceu o mundo e todos os seus encantamentos, é o tipo e o modelo da mística em sua disciplina, em seus progressos e em seus triunfos.
- Cristo, sacerdote e vítima ao mesmo tempo, gravou no fundo de seu ser a impressão desse sinal sagrado e o comunicou à mística que purifica as almas.
- O sinal da cruz acompanhou Cristo na tumba, ressuscitou com ele, marcará todos os que se humilham como ele e será trazido de volta quando vier julgar o mundo.
- Por esse sinal deve reproduzir-se em cada homem e no mundo em geral o que se produziu em Cristo, tipo e modelo do homem e de toda a criação.
- A mística porta a impressão da cruz, sinal que se reencontra nas plantas, nos pássaros em voo, nos peixes nos rios, nos cervos nas montanhas e no fundo mais íntimo de cada substância criada.
- O centro de cada substância corresponde à parte superior da cruz; os elementos múltiplos e exteriores que formam seu envoltório correspondem aos pés.
- As duas hastes laterais, que estendem seus braços para os dois lados, unem o baixo ao alto e representam o elo que une os elementos móveis do ser ao seu centro imóvel.
- Esse esquema situa a substância visível em sua verdadeira natureza.
- A mística serve-se do sinal da cruz em todos os domínios, inclusive no da psicologia e da fisiologia, pois os tipos que serviram à construção de toda a natureza reencontram-se igualmente na do homem, e a figura da cruz oferece uma fórmula clara e exata para considerar e exprimir as relações que formam o corpo humano.
- No sinal da cruz ensinado pela Igreja, toca-se a testa ao nomear o Pai, o centro ao nomear o Filho, os dois ombros ao nomear o Espírito Santo, terminando com o toque no peito.
- Esse ato se realiza primeiro na vontade antes de se exteriorizar, não sendo portanto fórmula puramente exterior: ao fazê-lo, o homem não assina apenas o corpo, mas também a alma.
- Ao tocar a testa, marca-se com o sinal do Pai a cabeça com todos os seus órgãos, representando o céu neste pequeno mundo do corpo humano; ao tocar o centro, marca-se com o sinal do Filho o coração e seu sistema, representando a terra; ao tocar os ombros, marca-se com o sinal do Espírito Santo todo o sistema muscular dos movimentos voluntários, representando o ar entre o céu e a terra.
- As três regiões espirituais da alma refletem-se nas três regiões orgânicas: a parte mais elevada da alma, com seu órgão na cabeça, é marcada com o sinal do Pai; a parte inferior, mais próxima da carne, com o sinal do Filho; a parte intermediária, que percebe as imagens dos objetos exteriores, com o sinal do Espírito Santo.
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