1.4 O Sacrifício
GIRARD, René. Des choses cachées depuis la fondation du monde. Recherches avec Jean-Michel Oughourlian et Guy Lefort. Paris: Grasset, 1978.
D. SACRIFÍCIO E MECANISMO VITIMÁRIO
G. L.: A existência de ritos sem conclusão sacrificial exige esclarecer os limites de uma interpretação que atribui ao sacrifício a resolução da crise ritualmente reproduzida.
R. G.: Embora muitos ritos terminem em mutilações ou exorcismos equivalentes ao sacrifício, também existem formas rituais ou pós-rituais sem qualquer conclusão sacrificial, cuja compreensão exige investigar posteriormente o desaparecimento do sacrifício nas instituições culturais que dele procedem.
- A ausência de uma conclusão sacrificial, mesmo simbólica, constitui um problema fundamental, mas sua análise antecipada interromperia o encadeamento necessário à demonstração do mecanismo geral.
J.-M. O.: A investigação deve retomar o problema do sacrifício e de sua função na sequência ritual.
R. G.: O sacrifício encerra a crise mimética ao substituir a oposição generalizada de todos contra todos pela convergência de toda a comunidade contra uma única vítima, produzindo uma solidariedade coletiva cuja violência final não encontra quem a prolongue pela vingança.
- A participação de todos na imolação, frequentemente semelhante a um linchamento, ou a atuação de um sacrificador em nome da coletividade manifesta uma unidade que surge precisamente no auge da divisão comunitária.
- A multiplicidade dos conflitos particulares é substituída por um antagonismo único entre a comunidade e a vítima, incapaz de defender-se ou de mobilizar uma represália que reinicie a crise.
- O sacrifício acrescenta uma violência às anteriores, mas pretende constituir a última violência, interrompendo a circularidade das vinganças pela unanimidade formada contra a vítima.
- Os insultos e maus-tratos dirigidos à vítima sugerem que ela é considerada responsável pela totalidade da crise, tornando decisivo esclarecer qual força permite reunir comunidades tão diversas contra um único ser.
G. L.: A explicação freudiana de Totem e tabu identifica a vítima com o pai da horda primitiva e interpreta os ritos como conservação da memória de um assassinato único que teria fundado a humanidade.
R. G.: A importância de Freud reside em reconhecer a necessidade de um assassinato coletivo real como modelo do sacrifício, mas a repetição ritual torna-se compreensível quando esse assassinato é situado como resolução de uma crise mimética efetiva, cuja experiência reconciliadora se procura reproduzir.
- A hipótese de um crime único cometido de uma vez por todas não explica satisfatoriamente as repetições rituais, e sua colocação no início da sequência contraria a ordem predominante, na qual a crise antecede o assassinato coletivo que constitui seu auge e seu desfecho.
- A comemoração de uma culpa herdada de um assassinato pré-histórico permanece uma construção mítica, enquanto a eficácia reconciliadora de um primeiro assassinato espontâneo permite compreender por que sua reprodução seria procurada diante de novas ameaças.
- A crise não é encenada por si mesma, mas como caminho para uma resolução considerada capaz de pôr fim às crises passadas, presentes e futuras, reconciliando a comunidade à custa de uma vítima arbitrária.
- Os interditos procuram evitar a crise pela proibição das condutas que a desencadeiam, enquanto os ritos procuram encaminhar uma crise iminente ou já iniciada para sua resolução sacrificial, eliminando a aparente contradição entre suas finalidades.
- Nenhum indivíduo pode ser responsabilizado pela crise inteira, pois a reciprocidade mimética distribui a violência pela comunidade e impede determinar uma origem ou atribuir responsabilidades exclusivas.
- A intensificação do mimetismo favorece o aparecimento de uma vítima expiatória cuja eliminação reúne os antagonistas, embora sua escolha não corresponda a uma responsabilidade efetiva pelo conflito.
J.-M. O.: A passagem necessária da anarquia conflituosa para uma resolução arbitrária contra uma vítima parece pressupor um mecanismo espontâneo de pacificação, constituindo um ponto decisivo da teoria que precisa ser demonstrado com maior precisão.
R. G.: A intensificação da rivalidade faz desaparecer os objetos inicialmente disputados e transfere a força mimética para os próprios antagonistas, permitindo que a imitação antes divisora reúna progressivamente a comunidade contra um adversário comum cuja eliminação é interpretada como causa de uma reconciliação sagrada.
- Quanto mais a rivalidade se agrava, mais os adversários se esquecem de seus objetivos iniciais e se fascinam reciprocamente, convertendo o outro em um modelo-obstáculo simultaneamente adorado e odiado, que se deseja abater e assimilar.
- A rivalidade torna-se uma disputa pura de prestígio, e os antagonistas, privados de diferenças pertinentes ao conflito, passam a constituir duplos entre os quais a mímesis continua a circular com intensidade crescente.
- Com o desaparecimento do objeto, a imitação deixa de operar como apropriação e passa a produzir substituições de antagonistas, fazendo com que diferentes indivíduos adotem o mesmo adversário.
- A mímesis de apropriação divide porque converge sobre um objeto que todos pretendem possuir, enquanto a mímesis do antagonista reúne porque converge sobre um inimigo que todos pretendem destruir.
- A adesão de novos participantes aumenta a atração mimética exercida pelo agrupamento, produzindo um crescimento cumulativo da hostilidade comum até a reunião da comunidade contra uma única vítima.
- Uma razão insignificante pode determinar qual indivíduo receberá essa hostilidade, mas a vítima passa a parecer absolutamente singular tanto pela concentração do ódio quanto pelo efeito reconciliador de sua eliminação.
- A comunidade descarrega sua violência convencida de ter encontrado a causa exclusiva de seus males e, ao fazê-lo, perde os adversários internos contra os quais dirigia sua fúria momentos antes.
- O retorno da calma parece confirmar a responsabilidade da vítima pela desordem anterior, invertendo a relação efetiva entre ela e a comunidade, que passa a considerar-se passiva diante de um ser dotado de iniciativa e poder excepcionais.
- A sacralização decorre dessa atribuição simultânea dos distúrbios e da paz à mesma vítima, percebida como responsável até pela própria morte e pelo restabelecimento da ordem.
J.-M. O.: A transformação da mímesis apropriativa, responsável pela divisão, em mímesis do antagonista, responsável pela unificação, parece corresponder a uma dinâmica inscrita na própria crise, mas permanece necessário esclarecer se essa resolução ocorre infalivelmente.
R. G.: A resolução vitimária não pode ser considerada infalível, pois comunidades podem desintegrar-se sem alcançá-la, embora os sistemas religiosos indiquem a recorrência da crise mimética e a condição culturalmente normal e normativa da reunião de todos contra uma vítima única.
- A normatividade dessa resolução decorre de sua capacidade de originar as regras culturais, enquanto as crises sem desfecho reconciliador podem conduzir à destruição da própria comunidade.
J.-M. O.: A atribuição de todas as regras culturais ao mecanismo vitimário exige esclarecer a extensão dessa origem comum.
R. G.: A força dos interditos e dos ritos deriva da experiência de uma crise prolongada e aterradora cuja resolução súbita é vivida como libertação milagrosa, levando a comunidade a organizar sua existência pela prevenção das condutas conflituosas e pela reprodução sacrificial do acontecimento que restaurou a paz.
- A vítima aparece inicialmente como um ser supremamente maléfico e depois como uma potência benéfica, pois sua eliminação coletiva coincide com o desaparecimento dos antagonismos e imprime na comunidade uma experiência de libertação extraordinária.
- A vontade de conservar essa trégua conduz os sobreviventes a colocar suas ações futuras sob a autoridade do ser temível e benfazejo, como se obedecessem a instruções por ele deixadas.
- O imperativo do interdito consiste em evitar os gestos da crise, os comportamentos miméticos, os contatos com os antigos antagonistas e a apropriação dos objetos que serviram de causa ou pretexto às rivalidades.
- O imperativo do ritual consiste em reproduzir o acontecimento reconciliador mediante novas vítimas substituídas à vítima originária, em circunstâncias tão próximas quanto possível da experiência inicial.
- O desconhecimento do mecanismo efetivo da reconciliação leva a reproduzir minuciosamente toda a sequência, pois a comunidade reconhece que a pacificação somente ocorreu depois do paroxismo da luta fratricida e não separa esse auge violento de seu desfecho.
- A desorganização e a indiferenciação que preparam o sacrifício não constituem fins autônomos, mas meios para restaurar diferenças e assegurar a ordem, contrariando a interpretação de Lévi-Strauss que atribui ao rito uma orientação para o indiferenciado enquanto tal.
- A ordem emerge do extremo da desordem porque o desaparecimento dos objetos disputados permite a transformação da mímesis apropriativa em convergência contra um antagonista comum, fazendo da própria crise a condição da reunificação.
- Nos ritos de passagem, a dissolução da identidade anterior é intensificada para favorecer a aquisição de uma nova identidade e de uma posição diferenciada, sem que isso implique uma nostalgia do imediato.
- Os banhos batismais exemplificam uma passagem pelo indiferenciado da qual se espera uma diferenciação renovada, e a possibilidade de morte durante a prova não significa que sua finalidade seja matar o participante.
J.-M. O.: A atribuição de uma eficácia transformadora à passagem ritual pelo indiferenciado poderia fazer a explicação retornar a uma concepção mística do rito.
R. G.: A prova iniciática constitui uma aplicação particular da crise mimética, intensificada para desencadear em benefício do participante o efeito salvador do sacrifício, de modo que sua explicação permanece vinculada ao mecanismo coletivo e não a uma eficácia mística autônoma.
- A morte ocasional de participantes nos ritos iniciáticos ainda vivos manifesta o perigo efetivo da prova, enquanto a representação de um risco mortal persiste mesmo depois do enfraquecimento dessas práticas.
G. L.: A reprodução ritual da crise não tem por finalidade a desordem, mas o desencadeamento da resolução sacrificial, permitindo compreender que ritos e interditos procuram igualmente conservar a paz e a ordem produzidas pelo mecanismo coletivo, embora atuem por caminhos diferentes.
R. G.: Os interditos procuram preservar diretamente a paz ao proibir tudo o que se associa à crise, enquanto os ritos procuram restaurá-la pela reativação do mecanismo vitimário, canalizando a intensificação mimética para uma resolução sacrificial que pode conservar uma ordem existente ou produzir uma mudança culturalmente ordenada.
- O recurso ao rito diante de uma ameaça real deixa de parecer contraditório quando se reconhece que o agravamento da crise é procurado como meio de orientar suas forças para um desfecho reconciliador.
- Os ritos de passagem e os demais rituais compartilham o mesmo modelo, pois tanto a manutenção da situação existente quanto a transformação de uma identidade dependem da renovação da resolução pacificadora e ordenadora.
- A dificuldade do pensamento contemporâneo em compreender esses mecanismos não impede sua existência histórica e pode preparar seu esclarecimento racional ao recusar uma adesão imediata às representações do sagrado.
- A resistência estruturalista é preferível a um sincretismo vagamente místico que aceita os mecanismos religiosos em nome de uma natureza humana ou de um panteísmo impreciso, prolongando a herança dos deuses da violência.
