1 Crença e alucinação
GIL, Fernando. Modos da evidência. Lisboa: Casa de Moeda, 1998.
1 AQUÉM DA EXISTÊNCIA E DA ATRIBUIÇÃO: CRENÇA E ALUCINAÇÃO
1. O cruzamento entre a distinção freudiana de juízo de existência e juízo de atribuição e as questões filosóficas da crença e da evidência exige confrontar algumas teses sobre a existência formuladas por Kant, Husserl e Wittgenstein com a doutrina freudiana do juízo.
2. Essas teses, convergentes e enigmáticas, apontam para uma existência anterior ao modo da facticidade, cujo estatuto de ontologia formal e do sentido toca também a fé e recobre o modo de ser da alucinação que, em Freud, põe uma entidade aquém de qualquer juízo, de modo que alucinação primitiva e esse pensamento da existência se iluminam mutuamente, sendo algo como a alucinação o operador natural da evidência.
3. A substituição de evidência por crença não altera o sentido da investigação, pois a evidência é uma forma de crença absoluta da qual não há como esquivar-se, e ambas partilham a dispensa de prova, embora a questão específica da crença toque mais diretamente a doutrina freudiana do juízo.
4. Aquém do juízo de existência e de predicação está a fé como crença certa, à qual remetem todas as modalidades da certeza e da dúvida, e que Husserl formulou como crença-mãe ou proto-doxa, posição pré-reflexiva e antepredicativa do mundo identificada com a fé perceptiva, fundamento último de todo conhecimento.
5. Esse solo de crença passiva universal no ser, que ecoa em todo juízo, constitui a fonte mais profunda da universalidade da ordem lógica e do juízo predicativo, valendo tanto para a atribuição negativa quanto para a afirmativa.
6. Também Freud postula um pano de fundo do juízo pertencente ao domínio da fé, não antepredicativo mas igualmente matricial, que consiste na ficção de uma alucinação primitiva anterior à cisão entre objetivo e subjetivo.
7. Essa ficção transcendental da alucinação primitiva dá conta da fé perceptiva husserliana, cuja proto-doxa, apesar de sua força irresistível, não é transparente nem se compreende por si mesma, como supôs a fenomenologia, exigindo que uma gênese ao mesmo tempo transcendental e ontogenética recue até uma crença anterior à própria crença-mãe.
8. Pertence à natureza da fé crer apenas no verdadeiro porque crer na existência é o próprio conteúdo da crença e a existência é por definição verdadeira, de modo que todo o poder da fé radica na reciprocidade entre ente e verdade, conforme a doutrina medieval dos transcendentais, perseguida de perto pela ficção da alucinação primitiva.
9. Essa existência situa-se aquém da categoria de existência da tábua kantiana da modalidade e corresponde ao algo de real dado ao pensamento em geral na apercepção do eu penso, existência pré-categorial que convém apenas a uma representação e, portanto, a uma significação, distinguindo-se do cogito cartesiano ou husserliano.
10. A existência pré-categorial, situada a montante do próprio juízo de existência e sugerida por Husserl e Wittgenstein, embora aparentemente contestada pela análise freudiana da atribuição, é aquela em que se crê na fé primordial, tornando de certo modo inevitável um argumento ontológico, mas não uma prova, a partir do mero dado da fé.
11. O movimento arcaico, mas não regressivo, que conduz a essa existência deve ser apreendido a partir da atribuição.
12. Em A negação, Freud associa Eros e a afirmação à unificação e a pulsão de destruição e a negação à expulsão, operações que definem o quadro lógico da atribuição num eu-prazer que, segundo as moções orais mais antigas, quer ingerir o que é bom e expelir o que é mau.
13. A teoria husserliana da afirmação e da negação, que na classificação freudiana seria antes anal, concebe os tipos de crença como modalizações da recusa e do assentimento, que não negam nem afirmam à maneira do juízo freudiano.
14. Enquanto para Freud afirmação e negação são operações originárias e sem resto, para Husserl são secundárias em relação a uma posição do núcleo de sentido noemático, de modo que a negação apenas risca o sentido sem aboli-lo, pois o riscado chega à consciência com seu caráter de riscado e não como sentido destruído.
15. A semelhança com a tese de A negação, segundo a qual a negação permite tomar conhecimento do rejeitado, é enganosa, porque ali se trata da denegação, jogo do recalque com uma negação lógico-linguística já constituída, ao passo que, no plano originário das moções orais correspondente ao plano transcendental husserliano, a negação freudiana elimina tudo, enquanto em Husserl o sentido riscado permanece posto.
16. A proto-doxa encontra sua expressão lógica no núcleo de sentido, ao qual remetem toda recusa e todo assentimento, e, sendo a posição antepredicativa do mundo, a posição do sentido envolve também a pressuposição de uma existência.
17. O Tractatus de Wittgenstein oferece um complemento ontológico explícito a essa concepção, pois os fatos atualizam ou não estados de coisas anteriores e neutros quanto à existência, de modo que o fato positivo é já uma reduplicação do estado de coisas e o fato negativo, como não existência do estado de coisas, pertence também à realidade, restando o falso como aquilo que simplesmente não é o caso.
18. O estado de coisas do Tractatus, a existência pré-categorial da apercepção kantiana e a posição husserliana do sentido são figuras homólogas de um processo transcendental que conduz a uma existência de estatuto fantasmático, cuja aparente necessidade encontra na alucinação primitiva freudiana um esboço de explicação.
19. Após a atribuição, cabe examinar o juízo de existência.
20. Com a prova de realidade institui-se um eu-real definitivo interessado na existência, para o qual já não importa admitir ou não algo no eu, mas saber se o que está presente no eu como representação pode ser reencontrado na percepção.
21. A negação não concorda inteiramente com Pulsões e destinos das pulsões, pois o primeiro texto trata por vezes o eu-prazer como originário, enquanto o segundo afirma que um eu-real originário, indiferente ao mundo exterior e com as pulsões destrutivas neutralizadas, precede o eu-prazer, que é sua transformação e que se reconstrói como eu-real definitivo pela prova de realidade.
22. O sentido de real difere nos dois casos, pois a realidade definitiva é a do eu trabalhado pelo princípio de realidade e corresponde à existência de fato da tábua kantiana, ao passo que a realidade inicial é a de um eu que se confunde com o real, ignora a distinção entre dentro e fora e remete à existência pré-categorial do sujeito.
23. A análise freudiana não visa uma ontologia do sentido, mas a função profunda do juízo de existência, organizando a relação entre representação e representado em termos incomensuráveis com a filosofia ou a psicologia da representação.
24. A percepção define-se como reencontro e não como elemento originário da representação, reconstituindo sob outra forma o regime alucinatório do eu-real inicial, no qual a existência da representação já garante a realidade do representado, proposição assombrosa que tem o estilo do argumento ontológico.
25. A persistência desse regime arcaico inverte a relação entre alucinação e percepção, pois a prova de realidade visa reencontrar e convencer-se de que o objeto da satisfação continua presente, de modo que a percepção aparece como plena realização da alucinação e não é a alucinação uma percepção sem objeto, mas a percepção uma alucinação com objeto.
26. O eu anterior ao princípio do prazer e à prova de realidade, presente desde o Projeto de 1895 até o Esboço de 1938, permanece, apesar da prudência ditada pelo próprio princípio de realidade, uma trave mestra do pensamento freudiano.
27. No estado inicial descrito pelo Projeto, o recém-nascido desamparado registra a ajuda externa como um fato de satisfação cuja imagem mnêmica, reativada com o retorno da tensão, produz algo análogo a uma percepção, isto é, uma alucinação, já que um investimento demasiado intenso da imagem gera o mesmo índice de realidade que a percepção.
28. A alucinação primitiva manifesta o representado como existente, exercendo-se naturalmente como crença numa existência, e constitui ao mesmo tempo o modo originário e o modelo da representação em geral, pertencendo à história natural do homem.
29. A existência posta pela alucinação primitiva é a de uma significação, pois a imagem mnêmica inarticulada de um fato de satisfação, armazenada por uma consciência quase biológica e reativada como alucinação, converte-se em representação propriamente dita e em garantia da realidade do representado, sendo assim a representação inaugural da consciência.
30. Do mesmo modo, a realidade do eu penso kantiano, o núcleo de sentido husserliano, o sentido que a proposição do Tractatus já possui antes de qualquer afirmação ou negação e o proto-sentido da alucinação primitiva sobre o qual se bifurcam afirmação e negação são significações fundantes e originárias.
31. Esse sentido originário é em todos os casos a crença numa existência primordial, seja como crença num mundo em Husserl, como realidade evidente do eu penso em Kant, como estado de coisas neutro em Wittgenstein ou como crença na reprodução do fato de satisfação em Freud.
32. Filosofia e psicanálise elucidam-se reciprocamente, pois a primeira mostra que a alucinação é sentido, crença e existência e que o sentido primordial é condição de possibilidade absoluta da lógica e da linguagem, enquanto a segunda acrescenta uma dimensão ontogenética e filogenética, fazendo convergir o ponto de vista transcendental e a especulação sobre as origens.
33. A questão de saber se essa especulação é apenas uma ficção admite o princípio de uma resposta em dois tempos, um no nível transcendental e outro referido a discursos constituídos.
34. A estrutura do desejo, que subjaz à crença e à evidência, requer uma instância do tipo da alucinação primitiva, como já pressentiram os estoicos ao derivar o phantasma, em Crisipo, de um phantastikon sem estatuto determinável, tração no vazio cujo único conteúdo é seu próprio movimento rumo à imagem alucinada, tal como em Orestes perseguido pelas Erínias.
35. O phantastikon, como a alucinação primitiva, enlaça desejo e figurabilidade, pois o desejo busca a satisfação real mas se constitui sobre o modelo alucinatório, o que explica por que a percepção permanece ordenada à alucinação e se desdobra numa crença originária, repetindo a crença no percebido a fé da alucinação primitiva, primeiro ato de fé do sujeito.
36. A alucinação primitiva, investimento manifestado por uma encenação, pertence a uma intencionalidade pré-constituída que é condição transcendental de uma função de apresentação legitimada por sua efetividade em registros diversos, do sonho, do fantasma e da forclusão à arte, à profecia, ao esquematismo kantiano, à retórica do exemplo, ao pensamento diagramático de Peirce e à evidência filosófica, na qual ressoa sua natureza icônica e ativa e onde o imaginário se torna simbólico.
37. A alucinação primitiva afeta a imagem com um coeficiente de realidade e institui de um só golpe a fé e o suporte da fé, sendo desde sua forma embrionária uma crença compulsiva na qual a existência declara por si mesma sua verdade.
38. A fé da alucinação primitiva antecipa a fé em geral ao pôr uma existência na qual é impossível não crer e ao pô-la justamente para fundar a crença, dupla operação além da qual não se pode recuar e que comunica com o desconhecido, sendo o umbigo da função de apresentação o umbigo da crença na existência.
39. Existência e crença dão-se uma pela outra e uma para a outra por meio da escrita da alucinação, que grava a crença com os grafemas da imaginação, de modo que a crença não se confina à interioridade vivida e a fé primordial é já a fé das religiões do Livro.
