6 Filosofia
CHAUVIRÉ, Christiane. Ludwig Wittgenstein. Paris: Seuil, 1989.
Filosofia contra teoria
1. O que quer que se diga que seja teoria não interessa, e mesmo que a teoria fosse verdadeira não seria jamais o que se procura.
2. Basta pintar o que se vê.
3. Pede-se a Deus a faculdade de penetrar o que todos têm diante dos olhos.
4. A recusa de teorizar torna Wittgenstein exótico entre os filósofos, numa obra duplamente recomeçada em que a segunda filosofia critica a primeira como repertório das formas clássicas da ilusão filosófica, constituindo uma filosofia da frustração teórica que apenas chama a atenção do outro para o que ele realmente faz, abstendo-se de toda afirmação, pois se o Tractatus ensinava que nada se pode dizer em filosofia, a segunda filosofia ensina que ela deve abster-se de toda explicação e contentar-se com a descrição dos fatos mais ordinários, dispondo os fatos gramaticais numa representação sinóptica, sem buscar nada por trás dos fenômenos, pois tudo está à superfície, sem hipóteses nem teorias, tirando a descrição sua finalidade dos problemas filosóficos.
5. Os filósofos têm constantemente diante dos olhos o método da ciência e são tentados a pôr e resolver questões à sua maneira, tendência que é a verdadeira fonte da metafísica e conduz a filosofia à obscuridade completa, quando sua tarefa não é reduzir nem explicar nada, sendo ela puramente descritiva.
6. A filosofia não é a continuação da ciência por outros meios, buscando apenas uma representação sinóptica de fatos tão familiares que passam despercebidos, conceito de importância fundamental que designa a forma de representação e a maneira de ver as coisas, talvez uma visão de mundo característica da época, como a de Spengler.
7. O projeto spengleriano de uma morfologia universal da história, a distinção entre sistemática e fisiognômica tomada de Goethe e o modo de pensar analógico influenciaram a metodologia de Wittgenstein, que descreve o procedimento filosófico como fisiognômico, feito de exemplos variados, descrição comparativa e analogia, consistindo em perceber semelhanças e diferenças, descobrir ou inventar conexões ausentes e ver uma fisionomia num conjunto de fenômenos díspares, abordagem sem relação com a explicação hipotética das ciências exatas, pois o erro é buscar uma explicação onde se deveriam ver os fatos como fenômenos originários e dizer que esse jogo de linguagem é jogado, o que exige uma conversão do olhar, não pensar, mas olhar ao redor e bem perto de si.
8. Goethe fornece um modelo de representação sinóptica com a planta originária da Metamorfose das Plantas, pois a tese de que todos os órgãos da planta são folhas transformadas oferece um esquema que agrupa os órgãos por semelhança em torno de um centro natural, seguindo as modificações de um tipo por formas intermediárias, assim como se une uma forma linguística a seu ambiente ou se a transforma na imaginação para tornar visível todo o espaço em que flutua a estrutura da linguagem.
9. O estilo fisiognômico do método é visível sobretudo no recurso às experiências da psicologia da forma, que convidam a ver as coisas de um modo em vez de outro, e no papel central da analogia, adotada por si mesma e não, como na ciência, para extrair uma hipótese.
10. O recurso à planta originária serve para desqualificar a busca da essência como princípio profundo exemplificado por todos os casos, pois ela não é hipótese de evolução, mas arranjo propício dos dados segundo um como se, ao contrário de Freud, em busca da essência do sonho, e de Darwin, vítima de uma hipótese de evolução, cujas propostas de ver as coisas de certo modo não são teorias científicas, mas formas de apresentação que impressionam como evidentes e parecem revelar algo sob a superfície.
11. O método preconizado, por vezes dito antropológico, é um método de variação por experiências fictícias, comparável à experiência de pensamento de Mach e à variação husserliana, pois nada é mais importante que elaborar conceitos fictícios, únicos capazes de ensinar a compreender os nossos, imaginando o desenvolvimento histórico das ideias de outro modo e pensando coisas ainda mais loucas que os filósofos para resolver seus problemas.
12. O método revela conexões despercebidas entre fatos e busca, segundo Goethe e Spengler, casos intermediários que permitam reconstituir o quadro de conjunto dos fatos de linguagem, pois é a representação sinóptica que permite compreender, isto é, ver as correlações, donde a importância da descoberta dos termos intermediários.
13. Encontrados os elos ausentes, obtém-se uma representação sinóptica que nada tem de absoluto, pois instaura entre os fatos uma ordem que poderia ser outra, embora a clareza buscada seja absoluta, não havendo um método filosófico, mas métodos, como diferentes terapias.
14. A explicação histórica sob forma de hipótese de evolução é apenas uma maneira de reunir os dados num quadro sinóptico, podendo-se dispensá-la, como Goethe poderia ter feito, já que uma explicação hipotética não acalma quem sofre de amor, e o que acalma o filósofo é uma maneira global de ver as coisas e não uma teoria, que nada dá, sendo até a hipótese de evolução mero revestimento de uma correlação formal, a ponto de quase se dizer que só uma visão de mundo pode acalmar o filósofo.
15. Spengler e Freud cometem a mesma falta, o uso dogmático de um protótipo apresentado como válido absolutamente e não como objeto de comparação, quando o protótipo deve ser proposto como tal, caracterizando todo o exame das coisas e determinando sua forma, universalmente válido por determinar essa forma e não porque o que só vale para ele seja afirmado de todos os objetos.
16. Spengler conferiu ao ideal uma falsa dignidade, quando o ideal nada perde de sua dignidade ao ser proposto como princípio que determina a forma do exame, uma boa pedra de toque, e o resultado é uma mistura de paradigma e objeto que obriga a atribuir dogmaticamente ao objeto o que só caracteriza o paradigma, por se crer que a teoria não teria a universalidade desejada se só concordasse com o primeiro caso.
17. Sem essa distinção, tudo o que vale para o paradigma da teoria será pretendido válido também para o objeto teorizado, afirmando-se que ele deve sempre ser assim.
18. Spengler seria mais bem compreendido se dissesse que compara diferentes períodos culturais à vida de várias famílias, distinguindo o ar de família interno de cada uma da semelhança entre membros de famílias diferentes.
19. Freud apenas determinou a extensão do conceito de sonho e, ao querer explicar os mitos gregos, criou uma nova mitologia, com um método mais próximo da má filosofia que da ciência, confundindo hipótese científica e ponto de vista fecundo, de modo que sua desmistificação tem o caráter da magia que pretende eliminar, donde a atitude ambivalente diante de um mestre engenhoso mas sem sabedoria, cuja Interpretação dos Sonhos é uma mitologia perigosa por generalizar abusivamente a partir de alguns casos, ignorando os sonhos de angústia, e induzir à adesão absoluta a explicações redutoras, risco que Wittgenstein teme para sua própria filosofia, a de substituir a mitologia da linguagem por uma mitologia do uso, partilhando com a psicanálise a busca da gramática profunda pela interpretação da gramática de superfície, mas recusando toda explicação de tipo científico em favor do exame calmo dos fatos de linguagem, já que a ciência trata de fatos e a filosofia de conceitos, e a essência da metafísica é apagar essa diferença.
20. A análise da linguagem visa sobretudo as representações míticas de seu funcionamento, recebendo a mitologia ingênua da linguagem corrente e a filosofia sofisticada o mesmo tratamento, pois o discurso filosófico sobre a linguagem é apenas uma mitologia refinada.
21. Em nossa linguagem está depositada toda uma mitologia.
22. O material da filosofia é um discurso ordinário ou filosófico impregnado de mitologemas, e a filosofia tradicional, que segrega seus próprios mitos, exige o mesmo tratamento, sendo filosofar desmitificar, como mostra a substancialização em que caiu o Tractatus, que representa a beleza ou a morte como substâncias puras concentradas, quando estão presentes como ingredientes num objeto, à maneira das antigas considerações sobre objeto e complexo.
23. Na linguagem cotidiana, a relação entre o nome e seu objeto funciona como relação oculta investida de poderes mágicos, cuja versão sofisticada reaparece na filosofia atual, que reencontra todas as teorias infantis, já que a magia implica sempre certo estatuto da linguagem ou do simbolismo.
24. O discurso científico também segrega mitos e uma teoria pode passar a funcionar como mito, engendrando paradoxalmente obscurantismo, fanatismo e idolatria, contra a crença iluminista, de modo que o desenvolvimento da tecnociência mergulha nas trevas e a difusão do darwinismo ou da psicanálise produz efeitos perversos, como a complacência da intelectualidade diante das pseudoexplicações engenhosas de Freud, a adesão a crenças sobre bases frágeis sem verificação, a oposição estéril entre o claro que sim e o claro que não, e a necessidade infantil de maravilhoso e de profundidade que, sem relação com a antítese entre verdadeiro e falso, aproxima o intelectual do primitivo, da criança e do alquimista, persuadidos por más razões, como o caráter repugnante de uma explicação, sendo as explicações de Freud, como as de Frazer, mais estéticas que científicas.
25. As críticas ao racionalismo raso de Frazer no Ramo de Ouro revelam uma concepção funcionalista da antropologia, segundo a qual tudo nos rituais tem uma função e equivalentes em nossas sociedades, pois o sacrifício humano da festa de Beltane é diretamente inteligível e não nasce de ignorância ou crenças erradas, mas de uma função simbólica que Frazer desconhece por um sentimento de superioridade infundado que impede compreender que os ritos dizem algo, e o que se aprende com esse rito é sobre nós mesmos e a natureza humana, sendo ingênuo crer que o progresso científico nos livrou da barbárie, como mostra a previsão feita a Drury em 1933 de que a época das trevas estava voltando e de que talvez se assistisse a fogueiras de supostos feiticeiros.
26. O profundo pessimismo quanto à humanidade e ao destino que a espera abriu os olhos de Wittgenstein para o imprevisível e o impensável, julgando-a capaz nos anos 1930 de atos como os sacrifícios de Beltane, enquanto o cinema alemão do entreguerras prefigurava os horrores nazistas.
A síndrome agostiniana: um paradigma filosófico
1. Um caso exemplar de mau uso de paradigma é a relação oculta imaginada entre nome e coisa nomeada, ligada à síndrome agostiniana evocada no início das Investigações pela descrição do aprendizado ostensivo da linguagem, segundo a qual as palavras são nomes, as frases combinações de nomes e o sentido de uma palavra o objeto que ela nomeia, imagem que não é tanto a concepção de Agostinho quanto uma família de concepções, uma prototeoria falsamente inofensiva que pretende revelar a essência da linguagem e cativa o entendimento por sua simplicidade, imunizando-se por refinamentos como os epiciclos dos astrônomos antigos, alimentando toda uma família de explicações do sentido até constituir uma visão de mundo, de modo que se trata de erradicá-la sem substituí-la por outra imagem, mostrando que toda teoria da linguagem é nociva e expondo a gramática das expressões, já que essa imagem dá forma às teorias de Frege, de Russell e do Tractatus, adotada sem que se perceba, como um paradigma kuhniano que fixa o quadro da pesquisa semântica e determina o que conta como problema e solução.
2. Identificar a imagem agostiniana como paradigma subjacente permite compreender o que unifica as teorias que dela derivam, substituindo-a não por uma teoria, mas por uma visão sinóptica que as faz aparecer como castelos de cartas, mostrando os elementos agostinianos da semântica de Frege, que trata as palavras como nomes, os enunciados como combinações de nomes e inspira sua concepção de referência e da verifuncionalidade, e do Tractatus, que sintetiza traços fregeanos e russellianos e constitui o repertório não só dos erros de juventude, mas das ilusões filosóficas mais típicas.
Gramática das causas, gramática das razões
1. É preciso dar a explicação que é aceita, pois é tudo o que conta na explicação.
2. Freud, crendo fazer obra científica, criou uma supermitologia sobre a mitologia greco-latina, talvez mais profunda e esclarecedora que os mitos em estado bruto, mas não mais reconfortante, fascinante pela mistura de familiaridade, novidade, sedução literária e pretensa cientificidade, sendo este último ponto o problemático, pois sua interpretação dos sonhos é apresentada como explicação causal e confunde a gramática das causas com a das razões, tratando a razão dos sintomas como causa hipotética confirmada pelo reconhecimento do paciente, o que não tem valor de teste científico, já que, como mostra Popper, a psicanálise não é refutável, e o que o paciente reconhece como razão não age como causa, pois a afirmação de uma causa é uma hipótese apoiada em experiências concordantes, enquanto a razão de uma ação não exige nenhuma experiência nem é hipótese.
3. Como Popper, que a compara ao marxismo, Wittgenstein não vê na psicanálise uma ciência, sem que isso seja pejorativo, censurando a Freud apresentar sua poderosa mitologia na fraseologia das ciências experimentais, confundindo descobrir uma causa e convir numa razão, como se o paciente pudesse conhecer diretamente causas psíquicas inconscientes, confusão explorada engenhosamente em favor da teoria, já que na noção de razões que são causas há mais faro gramatical que imbróglio.
4. Esse duplo jogo assegura a irrefutabilidade da psicanálise, pois o sujeito acabará sempre por aceitar a explicação apresentada como causa de seus sintomas, quando só pode convir em razões, e o analista pode reinterpretar todo desacordo e transformar contraexemplos em confirmações, procedimento aceito apenas por convertidos que decidiram de uma vez por todas pôr a teoria ao abrigo de contestação, adesão que pertence à vontade e não à representação, de modo que a engenhosidade de Freud serve mais à preservação de uma formação de conceitos do que à corroboração de uma teoria, adotada por decisão de descrever os fatos desse modo, assemelhando-se a um protótipo universalmente válido por determinar a forma de considerar as coisas.
5. A desmistificação de Freud é ao mesmo tempo ingênua e sofisticada, semelhante à da criança que grita que o rei está nu, mas vai além do bom senso e da crítica nominalista da substancialização do inconsciente, constituindo uma crítica de fundo baseada na distinção entre causas e razões, fio condutor dessa filosofia, que reflete o objetivo de abolir a superstição e destruir a atitude de veneração dos intelectuais diante da psicanálise e da ciência moderna.
