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cassirer:renascimento

Renascença

«Journal of the History of Ideas», IV (1943), pp. 49-56.

A originalidade do Renascimento

1. A persistência de interpretações diametralmente opostas sobre a originalidade do Renascimento decorre menos das divergências relativas aos documentos históricos do que da insuficiente clareza acerca do problema investigado e do método adequado à história das ideias.

2. Assim como as mudanças semânticas conservam formas linguísticas antigas enquanto transformam seus significados, a história das ideias apresenta continuidades formais que podem encobrir alterações profundas de sentido, cuja identificação exige uma análise mais complexa do que a simples comparação de palavras ou formulações.

1.

1. As investigações sobre os antecedentes de Galileu revelam uma longa preparação de sua ciência, tanto na crítica à teoria aristotélica do movimento e na elaboração da teoria do ímpeto quanto na distinção entre os métodos resolutivo e compositivo, transmitida pela tradição da escola de Pádua e formulada explicitamente por Zabarella.

2. A existência de antecedentes empíricos, lógicos e metodológicos reforça a compreensão da originalidade de Galileu, cuja novidade consiste em empregar efetivamente os métodos resolutivo e compositivo na demonstração das leis da queda dos corpos e da trajetória parabólica, atribuindo ao método matemático um significado e um valor que transformam a própria atitude científica.

3. A valorização das matemáticas e a concepção de uma ciência matemática da natureza precedem o Renascimento, como demonstram a exaltação agostiniana das verdades matemáticas, a fundamentação matemática da óptica em Roger Bacon e a formulação de critérios de causalidade em Guilherme de Ockham que antecipam aspectos da concepção galileana.

4. A novidade renascentista consiste na transformação das matemáticas, anteriormente presentes como um elemento da cultura, em uma força capaz de reorganizar toda a vida intelectual, tornando-se, em Leonardo e Galileu, o fundamento da certeza e o critério ao qual deve submeter-se toda pretensão de conhecimento.

5. A hierarquia medieval entre ciência e sabedoria subordina o conhecimento racional das coisas temporais ao conhecimento intelectual das realidades eternas, impedindo que a ciência matemática da natureza reivindique a mesma dignidade da metafísica e da teologia, pois seu objeto criado e mutável não possuiria as condições de imutabilidade e infalibilidade exigidas pela certeza plena.

6. A física matemática adquire em Galileu o estatuto de condição necessária de todo conhecimento verdadeiro, de modo que qualquer pretensão de verdade sobrenatural que contradiga suas conclusões ou limite sua validade perde legitimidade perante uma concepção do universo cuja defesa conduz ao conflito com a autoridade religiosa.

7. A nova hermenêutica galileana desloca a investigação da verdade para o universo e a natureza, rompendo tanto com a autoridade das Escrituras e de sua interpretação patrística quanto com a autoridade humanista dos antigos, que fazia da comparação entre textos o fundamento do conhecimento.

2.

1. A novidade da astronomia de Kepler abrange seus resultados e seu método, cujo alcance científico e filosófico não pode ser reduzido às influências neoplatônicas, neopitagóricas e astrológicas que marcaram suas convicções pessoais, embora tenham deixado vestígios evidentes em suas obras.

2. A emancipação científica de Kepler realiza-se pela adoção de um ideal mais rigoroso de verdade, que o leva a rejeitar uma discrepância observacional de apenas oito minutos e a descobrir suas leis, estabelecendo simultaneamente que os símbolos podem orientar associações, mas não demonstram relações naturais sem razões que comprovem suas conexões e causas.

3.

1. A identificação da originalidade renascentista com a descoberta do indivíduo exige uma crítica rigorosa, pois a existência de personalidades medievais como Abelardo, João de Salisbury e Wolfram von Eschenbach impede que o individualismo seja considerado uma característica exclusiva do Renascimento.

2. A transformação renascentista reside no novo valor atribuído ao particular, exemplarmente realizado nos Ensaios de Montaigne, nos quais o retrato de um indivíduo em suas peculiaridades, contingências e mudanças adquire interesse teórico e significado universal como manifestação integral da condição humana.

3. A distinção entre Idade Média e Renascimento depende de conceitos de estilo histórico que funcionam como tipos ideais, e não como delimitações cronológicas rígidas, permitindo compreender a alteração gradual do equilíbrio entre sociedade, Estado, religião, Igreja, artes e ciência mediante a avaliação da força e do alcance das ideias na estrutura global da cultura.

4. A história das ideias deve investigar sobretudo a função e a dinâmica dos pensamentos transmitidos pela tradição, pois a originalidade do Renascimento reside principalmente nas energias que reativa e na intensidade de sua atuação, como demonstra Pico della Mirandola ao transformar o antigo problema da liberdade no centro organizador de sua reflexão filosófica e religiosa.

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