Pirro de Elis (360-270 aC)

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A fórmula-chave do pirronismo — este ponto é incontestável — é ou mallon, “não mais”. É atribuída por Aulu-Gelle (dos Tropos Pirrónicos de Favorinus) ao próprio Pirro na seguinte forma: “Não é mais assim do que assado ou do que nem um nem outro”. O mel, por exemplo, “não é” mais doce do que amargo ou nenhum dos dois. Quer isto dizer que o mel é incognoscível em si mesmo? Só compreenderíamos o modo como nos afeta e teríamos de “suspender o nosso juízo” (ἐπέχειν) sobre o que ele é realmente. Nesse caso, o ou mallon não teria um alcance universal. Não diria respeito à diferença entre aparência e ser, que continuaria a ser o que é na metafísica dogmática: simplesmente, um dos dois pólos, o do “ser”, estaria vazio de conteúdo. Mas este não é o modo de pensar de Pirro. Segundo Pirro, deve dizer-se que cada coisa não é mais do que não é, ou que é e não é, ou que não é nem deixa de ser. É evidente que é a própria noção de “ser” que está aqui envolvida no ou mallon. O “ser” do mel não é mais ser do que não-ser, ou ambos, ou nenhum. É difícil levar mais longe o escárnio do conceito mais importante da metafísica — e, antes de mais, da metafísica de Aristóteles. Ora, se a noção de “ser” desaparece, o que também desaparece é a noção de “aparência” como um dos pólos da relação dual entre aparência e ser. O que quer dizer isto? O que existe (a totalidade das coisas), mesmo que não se possa dizer que é, não é, no entanto, absolutamente nada. Daí uma nova noção: o φαινόμενον como nem aparência -de (de um “ser”), nem aparência -para (para um “ser”, o sujeito), mas aparência que não deixa nada fora dela: aparência universal ou absoluta.

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