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keleuthos / caminho / κέλευθος / κέλομαι / kelomai / exortar / urgir / ἀκολουθέω / akoloutheou / ἕπομαι / hepomai / sequor / segue-me / ἀκόλουθος / akolouthos / dioxis / δίωξις / perseguir / correr atrás / καλέω / kaleo / κλητός / kletos / κλῆσις / klesis / ὁδοιπόρος / hodoiporos / peregrino / caminhante / errant / wayfarer / andarilho / marga

    

Antonio Machado

Caminante, son tus huellas
el camino, y nada más;
caminante, no hay camino,
se hace camino al andar,
Al andar se hace el camino,
y al volver la vista atrás
se ve la senda que nunca
se ha de volver a pisar.
Caminante, no hay camino,
sino estelas en el mar.

O poema de Antonio Machado diz tudo, não há caminho, não há caminhante, não há caminhar. O que há é apenas movimento  , e desde movimento se constitui caminhar, caminhante e caminho. Mesmo assim todas as tradições se empenham por ensinar   um caminho, apelar àquele que queira ser seu caminhante e convocar um caminhar. Há que se fazer uma concessão a este afã geral de constituição da tríade caminho, caminhantes e caminhar.

O homem   está na vida qual caminhante, que no ato de caminhar abre o caminho por onde anda. Abrir caminho significa fazer sua história, instaurar seu destino. Como? Dialogando com o ser  , i. é, com a estranha profundidade da existência na qual estamos, que se esquiva ao nosso poder, mas que está sempre aí se revelando, tênue e frágil, impondo-se num apelo insistente, na correspondência à qual se dá a história do espírito  . [Arcângelo Buzzi  ]

Michel Henry

O segundo termo da sequência tautológica: “Sou   Eu, o Caminho, a Verdade e a Vida” (vide Mostre-nos o Pai) — o Caminho — pode ser relacionado seja aos termos 3 e 4 e à identidade   estabelecida entre eles, seja ao primeiro termo: Eu. Relacionado ao termo 3 — a Verdade — o Caminho exprime então uma tese geral da fenomenologia, a saber que o caminho de acesso a uma coisa qualquer consiste na manifestação   desta coisa. De uma maneira geral, é a fenomenalidade de um fenômeno que constitui a via de acesso a este fenômeno. Esta tese decisiva da fenomenologia permanece no entanto totalmente indeterminada enquanto não se se sabe em que consiste a fenomenalidade, mais exatamente a maneira pela qual ela se fenomenaliza. Na verdade, a busca sobre a maneira pela qual se fenomenaliza a fenomenalidade deveria constituir o tema mesmo da fenomenologia, sua tarefa primeira e a mais essencial. A esta tarefa, logo quando ela acreditava aí se consagrar, a fenomenologia falhou gravemente. Enganada pelo pressuposto que comanda a filosofia - filosofia ocidental e não fazendo desde então senão retomar esta, e o pensamento   clássico notadamente, a fenomenologia interpreta a fenomenalidade do fenômeno como aquela do mundo. Dizer então que o Caminho é a Verdade, é dizer que “tudo ao qual podemos acceder se mostra a nós no mundo”, em uma manifestação que é a Verdade mesma do mundo. Quando a verdade é interpretada de maneira revolucionária pelo cristianismo como a Vida (trata-se bem entendido de uma revolução meta-temporal, meta-histórica), então o Caminho que conduz, que dá um acesso, é precisamente a Vida. É a Vida que é o Caminho. Caminho totalmente diferentes daquele do mundo e que conduz ao que é totalmente diferente do que se manifesta no mundo. A que conduz o Caminho, quando ele é o Caminho? Ele conduz à Vida. Este Caminho nada mais é que a Vida ela mesma na medida que a Vida se auto-revela nesta auto-afeção   que constitui sua própria fenomenalidade, sua substância   fenomenológica, sua carne  , a carne de tudo o que é vivente.

E agora relacionando o segundo termo ao primeiro, a palavra diz: “Sou Eu o Caminho”. Eu = o Caminho. Esta identidade fundamental não tem sentido senão se ela é relacionada às duas outras tautologias que compõem a palavra — seja às duas condições. A primeira é que o Caminho seja constituído pela Verdade, o que certamente é, segundo a tese mais geral da fenomenologia. Mas a segunda condição, a última tautologia, é decisiva: é que a Verdade seja constituída pela Vida. Pois se ela fosse constituída pelo mundo segundo a filosofia tradicional como a princípio segundo a crença popular, então é o mundo que constituiria o caminho, o caminho de acesso a tudo o que pode se mostrar a nós. Acha-se somente que se tal é o caso não haveria nós nem Vida nem Eu (nem nenhuma verdade a princípio, nem nenhum mundo, mas aqui não é o lugar de estabelecê-lo). [MHESV  ]

Antonio Carneiro

Vulgata Lc   IX,59. Ait autem ad alterum: Sequere me; gr. καλέω, kaleo = chamar; gr. κλητός, kletos = convidar; κλῆσις, klesis = chamada


O verbo “sequor” tem múltiplos significados:
  1. Seguir, acompanhar, ir atrás de;
  2. Caminhar, ir na direção   de, seguir um caminho;
  3. Seguir com a vista ou com o ouvido, responder imediatamente, fazer depois, responder, corresponder;
  4. Perseguir, ir no encalço de;
  5. Vir depois, seguir-se a, resultar;
  6. Seguir, conformar-se com, escutar  , obedecer a, fazer caso de, tomar em consideração  , referir-se a, aceitar  , adotar.

Entre outros significados. Porém estes foram suficientes para concluir que a passagem em questão Jesus   fala como homem sendo Deus  , ou seja faz um CHAMAMENTO ou uma CHAMADA, Jesus é o CAMINHO, a VERDADE e a VIDA, ninguém chega ao PAI   senão por mim  .

A tradução do latim no item 2 “seguir um caminho” se adequa a Jesus e consequentemente a Deus (PAI).

O termo CHAMAMENTO ou CHAMADA, recorro ao seu uso quando atribuído em literatura como “o chamado do mar”, “o chamado da selva” como algo inexplicável como um apelo irresistível, sem identificação da Origem nem do Fim, inexplicável.

A Origem   do Mar onde começa onde termina (ΑΩ)?

Chamada pode ser também o procedimento que o Professor fazia para contatar a existência de seus alunos, que deveriam responder PRESENTE  , quando era o próprio ou AUSENTE pelos demais. Alguns poderiam estar lá mas estavam desatentos, outros poderiam estar ainda por chegar por estarem atrasados, outros teriam saído da sala de aula por quaisquer motivo, por isso foram considerados AUSENTES.

Essas imagens ajudam a interpretar “muitos serão chamados, mas poucos escolhidos” assim como “quem me ouvir me entenderá”, poderia ser considerado como o chamamento para caminhar rumo a Deus, ousaria trocar   os “escolhidos” por “os que encontraram o Caminho” ou «atenderam ao chamado». [contribuição de Antonio Carneiro]

Michel Evdokimov

Em hebraico, «Adam  » significa barro, terra   vermelha, terra enrubescida pelo fogo  , a partir da qual o homem foi moldado, trabalhado como um vaso nas mãos do Criador, para receber o sopro do Espírito, o incandescente sopro da vida. Matéria pura atravessada pelas energias do puro espírito. A desobediência do primeiro casal humano teve como consequência seu imediato exílio   do Reino, como que um retorno à terra, uma queda na materialidade: «E o Senhor Deus o expulsou do jardim   de Éden  , para cultivar o solo de onde fora tirado» (Gn 3,23). A instalação do homem sobre esta terra ocorreu em consequência de uma expulsão.

Na Bíblia  , viagens, peregrinações, andanças ao léu assumem uma gama vastíssima de significados. Podem ser, com nuances diversas, sinal de um castigo  , que remonta à condição terrestre original da humanidade, de uma penitência ou purificação, de um ritual ou de obediência a uma promessa ou de um encontro com Deus. Na palavra latina per-egrinus, de onde vem o nosso peregrino, acha-se contida a ideia de atravessar um campo   (ager = campo; per = através de, por), um território, uma fronteira  . À semelhança   de Adão, todo peregrino é antes de mais nada um estrangeiro numa terra que não lhe pertence. Mas não será condenado a miseravelmente vagar sem fim. Em sua imensa compaixão  , Deus, com efeito, moveu-se de pena   por sua criatura e enviou ao mundo Seu Filho para reconduzi-la ao antigo jardim de delícias. E ao se encarnar, Jesus Cristo assumiu plenamente a condição existencial do homem desenraizado, expulso para a superfície do mundo. Sua missão na terra se desenrolou como incessante caminhar ao longo das poeirentas estradas da Palestina. [1] A um escriba, cheio de ingênuo zelo  , que lhe pedia para acompanhá-l’O por toda a parte aonde fosse, Jesus responde: «As raposas têm tocas, e as aves do céu, ninhos; mas o Filho do homem   não tem onde reclinar a cabeça  » (Mt   8,20). Jesus quer assim fazer que ele sinta a precariedade da existência condenada a mobilidade contínua e que não poderia encontrar o perfeito repouso aqui na terra. A missão do Filho que desceu a esta terra só termina no dia da Ascensão  , quando o Deus-Homem ressuscitado sobe novamente ao céu arrastando consigo a natureza humana, para lhe devolver todo o seu brilho e restabelecê-la em sua antiga dignidade  :

Tendo descido do alto dos céus à terra, tendo, como Deus, resgatado a progênie de Adão, que jazia humilhada na prisão   do inferno e, por tua Ascensão, ó Cristo, tendo-a feito novamente subir ao céu, Tu a fizeste sentar-se contigo no trono de Teu Pai, porque és misericordioso e amigo do homem (Tropário das Matinas da Ascensão).

O verdadeiro discípulo de Cristo é aquele que não se instala na espessura deste mundo, mas assume uma condição peregrinante que o impele para um além onde se cumprirão definitivamente todas as promessas. [Peregrinos Russos e Andarilhos Místicos]

Ioan Couliano

Na tradição   literária ocidental, o contador de estórias Homero   (cuja lenda e conjectura   localiza cerca do século VIII AC) lançou o gênero   que a Idade Média Latina chamaria mais tarde «peregrinatio», significando vagância ou perambulação, ao invés de peregrinação. Várias tradições conhecem este tipo de viagem pelo mar, usualmente levada a territórios miraculosos e do outro mundo. Basta mencionar aqui a imrama celta (narrativas de navegação), que certamente predatam as viagens de Simba o Marinheiro, pois os árabes eram relutantes em navegar ou construir frotas. (De acordo com o raciocínio do astuto general Amr   ibn al-As, o conquistador do Egito  , pode-se dominar uma terra tomando todos os postos fortes do inimigo  , mas como se pode conquistar o mar, onde não há nada senão ondas?)


[1A respeito de Jesus e os «pregadores itinerantes», cf. G. Theimen, Le Christianisme de Jesus, Paris, Desclée, 1979.