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lakkos / λάκκος / poço / puteus / pege / πηγή / fonte / nascedouro / origem

    

Roberto Pla

A versão mais esclarecedora desta “figura” a oferece aquele poço-fonte do deserto  , onde Agar, a escrava, descobre por sua própria imagem nas águas as primeiras perguntas que interrogam sobre o Ser: “De onde vens e aonde vais?” (Gn 16, 7-14).

Em resposta   a sua busca introspectiva, formulada pela voz do poço, ou o que é o mesmo, pela voz da consciência   (na Escritura, representada pelo Anjo   de YHWH  ), concorda Agar em submeter-se a Sara, a livre. Ambas mulheres, Agar e Sara, unidas ao mesmo “marido”, são tipo daquelas outras duas mulheres evangélicas das quais se diz que “moem no mesmo moinho” (Mt   24,41). Dessas duas mulheres, uma, a livre porque está purificada, se diz que será “tomada”, e a outra, a escrava, impura, será “deixada”.

A decisão   de submetimento “auto-batismal” de Agar, vem a ser como a alma   se nega a seguir escravizada pela impureza. Na alegoria   genesíaca, esta decisão é imputada como a concepção e iluminação   de um filho   psíquico, Ismael — isto é, “Escute Deus  , Deus escutou” —, de consequências salvíficas, posto que é o primeiro passo no processo de salvação   da alma.

Na linha exegética explicada na Carta aos Gálatas, o nascimento de Ismael, o filho da escrava, significa a aliança terrena (aliança = união  ) com a Jerusalém de abaixo, “mãe dos escravos”. De igual forma, o nascimento de Ismael é a “imagem” terrena do nascimento posterior   de Isaque, o filho de Sara, a livre, pois este novo filho psíquico de Abraão, dado a luz por Sara, “sem conhecer as dores de parto”, é o fruto   da aliança espiritual, a única que ensinará mais tarde o Evangelho, e que se corresponde com a Jerusalém de acima, livre, mãe de todos os “nascidos duas vezes” (Nascer do Alto).

  • Por possíveis razões de catequese, Paulo Apostolo explica a alegoria genesíaca segundo a vertente “manifesta”, exterior, mas o sentido é o mesmo agora explicado segundo a vertente interior.

Do poço genesíaco que estudamos há que dizer que o nome que Agar, a escrava, o designa, é o dado textual que faz possível a exegese   “oculta” de toda a perícope. Ao anjo de YHWH que lhe anuncia o parto, o diz Agar:

  • “E ela chamou, o nome do Senhor, que com ela falava, El-Rói (o Deus de visão  ); pois disse: Não tenho eu também olhado neste lugar para aquele que me vê? Pelo que se chamou aquele poço Beer-Laai-Rói; ele está entre Cades e Berede (isto é, o poço do Vivente que me vê)” (Gen 16:13-14).

Se se interpreta o poço como “figura” da alma, é fácil aceitar   que no fundo mistérico de suas águas, no Eu profundo, reside o enviado de Deus, o Filho do Homem  , o qual, por ser sempre a raiz do Ser — o Ser puro, isento de determinações — deve ser denominado “o Vivente que me vê” [opsis].

O parto de Agar põe põe esta em contato breve e fugaz com o “Deus que vê” — El Ro’i —. O que com este texto se descreve é a primeira intuição   do Ser, o descobrimento que abre as portas à fé e com ele à “presença  ”. Mas o relato autoriza a entender a escassa estabilidade desta percepção de Agar, porquanto Abraão se lamenta logo diante de Deus de que o filho da escrava não consegue viver   na “presença” (Shekinah = pomba) de Deus.

  • Para que essa “presença” se consolide na consciência é preciso que antes Sara, a livre, tenha um filho, fruto da aliança espiritual e eterna, que leva a Jerusalém de acima.

Quem foi habitar   depois nesse lugar preciso do poço de Lajai Ro’í, foi Isaque, o filho da livre, o fruto da aliança do espírito  . Segundo diz o relato, “Isaque, se estabeleceu nas imediações do poço de Lajai Ro’í. Isso quer dizer “em figura” que Isaque se estabilizou na “presença” de Deus, do Ser, em si mesmo  .

Foi, portanto, Isaque, um dos que conseguiram colocar-se “ao redor do poço”; mas não alcançou estar “no poço”. A diferença   entre ambas posições é muito importante, e não demasiado difícil de entender, embora só é realizável a posição   “no poço”, quando se recebe o dom de deus que a faz possível. Quando o homem percebe a menor diferença, por leve   que esta seja, entre seu si mesmo — seu Eu-Sou   — e o Cristo   oculto, interior, não há dúvida de que a unidade   que Jesus pedia em sua oração   sacerdotal ao Pai, não foi realizada: “que sejam um como nós somos um”. A ausência de unidade é o único que define essencialmente a quem não entrou no poço, quem não está no poço. [Evangelho de Tomé - Logion 74]

C. Del Tilo

Em hebreu Be-er, do verbo Ba-er: explicar, clarificar esclarecer. [XXVI,15]

Por que se dedicavam os Patriarcas a cavar poços no deserto? O deserto é o mundo infecundo, carente da chuva da bendição; representa também os ritos e a letra   das Escrituras  , seladas no sentido histórico e moral da Gordon Estado   Primordial. O poço está no homem, mas a água não sobre, não flui. «Buscamos as duas colunas do Templo   e as temos ante nossos olhos e sob nossas mãos, mas nossos corações estão obscurecidos pelo pecado   da Queda e a verdade de Deus se retirou no poço do abismo  » (Mensagem Reencontrado, XXI-19).

Os filisteus taparam os poços de Abraão, já que o homem carnal sempre sepulta a Verdade de Deus em um poço sem fundo. Isaque alude ao Justo que volta a cavar o poço fazendo subir   de novo a água do manancial para dar de berber a seu rebanho. Mas, como o realiza? Casando-se com a mulher que encontra ao lado do poço. Assim encontrou Isaque a Rebeca (Gen 24-43-48).

O mesmo ocorre com respeito a Jacó   e Raquel (Gen 29). O Zohar   o comenta da seguinte maneira: «Vem e vê: quando sentou Jacó ao lado do poço e viu que as águas subiam até ele, soube que ali ia encontrar sua mulher. O mesmo ocorreu a Moisés. Assim a isso se refere o poço para eles, já que o poço é o segredo da Donzela de acima, e da mesma maneira que encontraram à Donzela de acima, assim mesmo encontrarão à donzela que está neste mundo» (Zohar I-151b).

Quando se une o homem com a Presença Divina (representada pelas mulheres dos Patriarcas), a Verdade luminosa volta a subir do poço e o homem regenerado sai rigorosamente do Deserto para viver eternamente na Terra   Prometida regada pelo manancial de Vida. (v. Diálogo com a Samaritana). [LA PUERTA]