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historia / ἱστορία / hiero-história / contra-história / historiosofia / meta-história

    

História significa, por exemplo, a exploração de mundos estranhos, singulares e misteriosos. Assim a concebeu Heródoto. [Werner Jaeger  ]

Wasserstrom

A contra-história é ainda mais verdadeira que a história. Henry Corbin  

Uma pedra   no caminho   dos leitores novatos de Mircea Eliade   é a descoberta de que a História das Religiões é estranhamente definida em oposição à história. A versão de Gershom Scholem   da História das Religiões parece deixar este dilema óbvio, porquanto apoia a pesquisa histórica e o método histórico. Henry Corbin usava uma variedade de termos, tais como ‘imaginário’ e ‘profético’ para caracterizar os estudos islâmicos contundentemente anti-históricos. Todos os três, porém, tinham em comum um grande apreço   pela meta-história. Tanto Scholem quanto Corbin falavam em ‘historiosofia’. Ambos também falavam, referindo-se aos seus próprios trabalhos, de uma espécie de ‘contra-história’. Corbin usou este termo e Biale se referiu assim para descrever a teoria   de Scholem.

Dos três, parece que Corbin foi quem mais desenvolveu, em termos filosóficos, os alicerces para a plenitude   da meta-história. "As eras do mundo espiritual são totalmente diferentes das eras do mundo exterior da geologia ou da história sociopolítica. As eras do mundo espiritual formam uma historia sui generis que, em sua essência  , é a história do imaginário popular". Em outra parte Corbin se refere à ‘meta-história’ e à ‘hiero-história’. Meta-história, ele afirmava, "confere significado à história por torná-la hiero-história. Na ausência de meta-história — quero dizer, na ausência de anterioridade ‘no Céu’ e na ausência de escatologia, falar sobre um ‘senso   de história’ é um absurdo." Corbin adotou uma concepção correlata à historiosofia de Baader   e Schelling  . "Em contraste, o que certos filósofos ocidentais como Baader e Schelling chamaram de historiosofia, não existiria sem a metafísica  , porque se excluirmos aquilo que é oculto, esotérico, o fenômeno vivo deste mundo fica reduzido a um cadáver  ." Em outro trecho ele ressoa uma nota heidegeriana, quando invoca a noção   de ‘ser jogado   na história’, para subestimar sua preferência pela historiosofia:

Atenção! Quando um homem   se deixa ser jogado na história, consegue passar por todas as filosofias da história que prefira, pode legislar em nome da causalidade histórica que ignore a metafísica, pode se comportar como um perfeito agnóstico. Isso, porém, não é mais possível quando a história é interiorizada, integrada ao consciente do homem... Somente aquilo que teólogos como Franz von Baader ou Schelling tão apropriadamente alcunharam ‘historiosofia’ pode ser seguido, em tais casos.

À luz de tais apelos à contra-história, é surpreendente e instrutivo relembrar que cada um destes filósofos produziu algumas das maiores histórias, a de Scholem Sabbatai Sevi, o Messias   Místico  , a História da Filosofia Mística de Corbin, e a História das Ideias Religiosa, em três volumes de Eliade. Parece estranho que tais consagrados expoentes da contra-história escreveram de fato tais histórias. E, para se assegurar, cada um deles proferiu uma explicação distinta de sua relação dialética usual com a pesquisa histórica. Corbin parece ter sido aquele que enfrentou menos conflitos esotéricos em comparação   com os outros. Mesmo ele, porém, teve que reconhecer   que "tal esoterismo  ... deve se coadunar a ‘tendências históricas." Em uma outra passagem, ele explica a noção que dá sustentação a tais pressuposições: "sob a aparência das contingências históricas, a lei oculta que dá movimento   à história espiritual impõe-se altaneira".

Portanto, a noção que sustentavam de contra-história implicava um estudo dos segredos intrínsecos ao momento histórico. Como meio de apresentar seu material histórico, que fosse além da especialidade filológica, os eruditos de Eranos advogavam sua leitura colocando ênfase na meta-história — os leitores sabem mais do que está sendo dito historicamente. Em vez de deixar os leitores com um mero entendimento humanístico (Verstehen), eles penetrariam no conhecimento verdadeiro, de imediato, intuitivo das profundezas trans-históricas dos fenômenos religiosos. Entretanto, à luz de sua própria fenomenologia, eles estudaram a história da religião de uma distância intransponível, isto é, o olhar do fenomenologista, no entender dos proponentes, ‘percebe’ as estruturas que são abstrações, tipos idealizados que não têm existência real. Este argumento   cria o impacto do tratamento clássico da fenomenologia da religião em Religion in Essence and Manifestation de Van der Leeuw. Ao enquadrar o mundo vivo fora da estrutura   fenomenológica, as ‘realidades’ religiosas postas à vista   são do tipo idealizado, um univers imaginaire. Assim é que Henry Corbin, Gershom Scholem e Mircea Eliade sempre defenderam tenazmente o envolvimento da realidade meta-histórica. Henry Corbin dizia que o imaginário é real; Mircea Eliade igualava o ‘sagrado  ’ à realidade; Gershom Scholem afirmava que a ‘realidade religiosa’ transcendia a vida social. Em outras palavras, cada um colocou uma forma distinta de ‘realidade’ que, ao mesmo tempo que simbólica era também ‘realmente real’. [Excertos da tradução em português de Dimas David   Santos Silva, do livro de Steven Wasserstrom  , Religion after Religion]