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Canguilhem

GEORGES CANGUILHEM (1904-1995)

Em sua obra, Idéologie et rationalité, Canguilhem, ao estudar "o papel da epistemologia na historiografia contemporânea", fornece-nos indicações valiosas. Em primeiro lugar, inspirando-se nos conceitos fundamentais da epistemologia histórica de Bachelard   — conceitos de "novo espírito científico", de "obstáculo epistemológico", de "ruptura epistemológica", de "história da ciência superada ou sancionada", de "descontinuidade epistemológica", de "progresso científico" e de "recorrência" —, ele nos mostra que o historiador das ciências não pode limitar-se a apresentar as ciências ou os fatos ditos científicos como realmente se passaram. Para compreendermos a função e o sentido de uma historia das ciências, precisamos opor, ao modelo do laboratório ("A historia das ciências não é somente a memoria da ciência, mas o laboratório da epistemologia"), o modelo da escola ou do tribunal. Assim, ou invés de estudar a historia das ciências, a epistemologia precisa estudar as ciências segundo sua historia. Não deve interessar-se pelas questões das fontes, das invenções, das influências, de anterioridade, de simultaneidade ou de sucessão. Porque não veríamos a distinção entre as ciências e as outras formas da cultura. Uma história das ciências não-epistemológica reduz uma ciência, em determinado momento, a um relato das relações cronológicas e lógicas entre diferentes sistemas de enunciados relativos a certos problemas ou a determinadas soluções. O valor do historiador seria medido pela amplitude de sua erudição e pela finura em analisar as relações ou diferenças entre os cientistas. Neste sentido, a história das ciências estudaria as ciências do passado. E o que se pergunta é se uma ciência do passado constitui um passado da ciência atual.

Em segundo lugar, Canguilhem mostra como o conceito de passado de uma ciência constitui um conceito vulgar, servindo apenas para buscar, retrospectivamente, os "precursores" de uma ciência atual. Ora, a busca dos antecedentes da atualidade chama de "passado" sua condição de exercício. Ela se dá previamente, essa condição como um todo de capacidade indefinida. Neste sentido, fazer a história de uma ciência seria fazer o resumo da leitura de uma biblioteca especializada, depósito e conservatório do saber produzido e exposto desde uma época remota até nossos dias. Seria uma história continuísta do passado. A totalidade do passado seria representada como uma espécie de plano contínuo sobre o qual poderíamos deslocar, segundo os interesses do momento, o ponto de partida do progresso, cujo termo seria o objeto desse interesse. E o que vai distinguir os historiadores das ciências são a temeridade e a prudência com que se deslocam sobre esse plano. E o que devem esperar da epistemologia é uma deontologia da liberdade de deslocamento regressivo sobre o plano imaginário do passado integral. Devem construir seus objetos num espaço-tempo ideal, mas evitando que ele seja imaginário. Porque o passado de uma ciência atual não se confunde com esta ciência em seu passado. O historiador é capaz de explicar o passado de uma ciência atual. Mas compete ao epistemólogo estudá-la em seu passado. Se o interesse histórico do cientista é de puro complemento, o do epistemólogo é de vocação. Seu problema é o de extrair da história das ciências, enquanto é uma sucessão manifesta de enunciados mais ou menos sistematizados e com pretensões à verdade, seu processo ordenado latente, só agora perceptível, cuja verdade científica presente constitui o termo provisório. Portanto, por ser prioritário, e não auxiliar, o interesse do epistemólogo é mais livre que o do cientista. [Hilton Japiassu  ]

LÉXICO DE FILOSOFIA

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