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pecado

mercredi 18 novembre 2020

pecado?, péché, the sin, hamartia

O pecado, contudo, não é um assunto de interesse psicológico, e querer tratá-lo nesta perspectiva redundaria em colocar-se ao serviço de uma engenhosidade mal compreendida. O pecado ocupa seu lugar determinado, ou melhor, não ocupa lugar algum, e é isto justamente a sua determinação. Quando ele é tratado fora de seu lugar próprio, fica adulterado, pois que assim vem a enquadrar-se num prisma de reflexão que não é essencial. Seu conceito fica alterado e com isso ao mesmo tempo se perturba aquela sua atmosfera, que, como a atmosfera justa corresponde ao conceito correto e, em vez da perseverança de uma atmosfera verdadeira, obtém-se a farsa fugaz das atmosferas falsas. Assim, quando o pecado é tratado na Estética, tem-se uma atmosfera de leviandade ou de melancolia, pois a categoria em que aí se situa o pecado é a da contradição, e esta é ou cômica ou trágica. A atmosfera fica, por conseguinte, alterada ; pois a atmosfera que corresponde ao pecado é a da seriedade. Também o seu conceito fica alterado, porque, quer se torne cômico, quer trágico, o pecado se torna um subsistente ou algo que não é superado senão de maneira não essencial, ao passo que o seu conceito exige que seja efetivamente vencido. Num sentido mais profundo, o cômico e o trágico não têm nenhum inimigo, salvo algum espantalho que faça rir ou chorar. – Quando o pecado é tratado na Metafísica, a atmosfera fica sendo a da equidade e do desinteresse dialéticos, que analisam o pecado como aquilo que não consegue opor resistência ao pensamento. O conceito fica alterado, pois é claro que o pecado deve ser vencido, mas não como aquilo a que o pensamento não possa emprestar vida, e sim como algo que existe e, como tal, concerne a todos. – Quando o pecado é tratado na Psicologia, então a sua atmosfera fica sendo a tenacidade observadora, o destemor de alguém que espiona ; não vem a ser, porém, aquela seriedade que nos leva a vencê-lo pela fuga. O conceito se transforma num outro, pois o pecado se torna um estado. Mas o pecado não é um estado. Sua ideia consiste em que seu conceito seja superado incessantemente. Como estado (de potentia) o pecado não é, ao passo que de actu ou in actu, é e volta a ser. A atmosfera da Psicologia seria a de uma curiosidade que antipatiza, porém a atmosfera correta é a da resistência intrépida da seriedade. A atmosfera da Psicologia é a da angústia descobridora e em sua angústia ela copia os contornos do pecado, apavorando-se mais e mais ante o desenho que ela própria faz aparecer. Quando é tratado dessa maneira, o pecado se transforma no mais forte, pois a Psicologia se relaciona com ele de modo propriamente feminino. É certo que aquele estado tem a sua verdade, e é certo que um tal estado surge com maior ou menor intensidade na vida de qualquer homem?, antes que apareça a Ética ; porém, com tal tratamento o pecado não vem a ser aquilo que é, e sim mais, ou menos do que isso.

Por isso, sempre que se vir o problema do pecado sendo examinado, poder-se-á logo verificar pela atmosfera se o conceito é o correto. Sempre que se fala do pecado como, por exemplo, de uma doença, de uma anomalia, de um veneno, de uma falta de harmonia, estará falseado também o conceito. [KIERKEGAARD Kierkegaard Søren Aabye Kierkegaard (1813-1855) , Søren Aabye. O conceito de angústia. Tr. Álvaro Luiz Montenegro Valls. Petrópolis : Vozes, 2017 (epub)]