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intuição

domingo 17 de outubro de 2021

As duas fontes do uso? atual? do termo? intuição, cartesiana? e kantiana, introduzem na acepção da palavra? duas tendências que ou se combinam ou dissociam, consoante os casos: a primeira? é a ideia? de evidência, de plena clareza intelectual? (cf. videri, intueri); a segunda é a de apresentação concreta, de realidade? atualmente dada. Ao passo que a primeira não contém nem admite qualquer inferência, a segunda não se opõe necessariamente ao uso do raciocínio: há um modo? de aplicação dos princípios inseparavelmente incorporados nas coisas? sobre as quais se raciocina e que constitui um raciocínio intuitivo?. [...]

Por outro lado, e pelas mesmas razões, a palavra intuição serve frequentemente para designar simultaneamente a visão concreta das coisas (na medida? em que se opõe a abstração) e a penetração com que se sente ou se adivinha o que nelas não é aparente?. [...]

A acepção mais original desta palavra, aquela em que não pode ser substituída por qualquer outra, é o sentido? de visão imediata e atual, apresentando as mesmas características que o conhecimento? sensível, e por isso propomos que só seja autorizada nesta acepção; e nos outros casos sirvamo-nos tanto quanto possível dos termos evidência, instinto?, divinação, etc.. (André Lalande   (philosophe?), Vocabulaire Technique? et Critique de la Philosophie, 5.a ed., pp. 525-526.)


Além do conhecimento discursivo?, da dedução e da indução, apresenta-se também a intuição como forma? de conhecimento, tanto em ciência quanto em filosofia. Ao contrário do discurso, que consiste em "correr", ou "discorrer", de um conhecimento para outro, conhecendo umas coisas "por meio?" de outras, o método intuitivo consistiria em apreender? as coisas de modo direto ou imediato?, sem a mediação de outras. O exemplo? que geralmente se apresenta de conhecimento intuitivo é a percepção sensível e a apreensão dos princípios evidentes, bem como dos vínculos lógicos que, no raciocínio, legitimam a passagem de umas proposições para outras.

Para não falar? na intuição como pressentimento, iluminação súbita, etc. mas considerando apenas a percepção sensível, é fácil verificar que o conhecimento jamais pode ser intuitivo, quer dizer, imediato ou direto, pois qualquer percepção, por mais rápida que seja, transcorre no tempo?, e a persistência do objeto? no campo? da sensibilidade? e da consciência implica sempre a memória que, consequentemente, "mediatiza" a percepção que, à primeira vista?, poderia parecer imediata. Se, ao ouvir a pessoa? com quem fala? o interlocutor se esquecesse do que diz à medida que fala, não ouviria coisa? alguma e não teria percepção auditiva. Se ouve a última sílaba da palavra é porque conserva a lembrança das anteriores que permite ouvi-la como última. A intuição só seria possível na hipótese? de uma consciência eterna e imóvel que contemplasse objetos eternos e também imóveis. Todavia, a única consciência de que se tem a experiência é a consciência humana que, por ser situada e datada, é essencialmente? temporal? e histórica e, portanto, só pode conhecer? as coisas discursiva e não intuitivamente. [Roland Corbisier  , «Enciclopédia Filosófica»]


Do mesmo? modo, a finitude? do entendimento? não é uma afirmação doutrinal, nem mesmo um simples? conceito?, mas ela refere-se ao próprio aparecer designando-o com propriedade?, uma vez? que esse? aparecer, todavia, identifica-se com o entendimento e nele reside. É o próprio ver transcendental?, ou melhor, é o seu fundamento?, o horizonte? de visibilidade aberto? pela ek-stasis? e na luz da qual avança o olhar? do ver, é o espaço puro? da fenomenalidade? extática que é finita. Todo o método de Descartes  , na medida em que é o cumprimento do intueri e se confia a ele e à sua luz, à luz da Sapientia e da scientia universalis, da bona mens?, do intellectus, à luz natural? da razão, não é nada? mais que a descrição das condições às quais se furta e dos avatares nos quais se perde o dito? entendimento, porquanto seu olhar se move no interior? de um horizonte essencialmente finito?. É a finitude desse horizonte que constrange a intuição – o ver, o intueri – a não perceber nele senão uma coisa de cada vez, de tal maneira que a concentração da luz sobre essa coisa na qual ela se dá, então, na evidência e na claridade de um conhecimento verdadeiro? implique o encobrimento de tudo o que não é ela. É manifesto, então, que um tal ver, apesar de? sua acuidade e de sua intensidade? ou por causa deles, seja identicamente e mais ainda um não ver – de tal modo que tudo o que não é visto nele se apresente, desde então, ao conhecimento como o objeto de uma busca indefinida. É essa finitude principial da manifestação ekstática que o método cartesiano se esforça sub-repticiamente por exorcizar, quando se esforça em estender, pouco a pouco, o reino? dessa luz, quando passa de uma intuição a uma outra e a uma outra ainda, quando afirma que a passagem, longe? de introduzir uma descontinuidade no processo? de conhecimento, é ela mesmo uma intuição, quando recomenda, enfim, em presença de uma cadeia de intuições, percorrê-las tão frequentemente e tão rapidamente quanto o espírito? desliza de uma à outra e quanto parecem todas, no fim?, comporem unicamente uma intuição, à qual a dedução também seria reduzida. [MHPsique:78]
LÉXICO: intuição

HEIDEGGER: Anschauen / Anschauung / intuition / intuição / intuición