Página inicial > Glossário > fato social

fato social

domingo 17 de outubro de 2021

A psicologia?, que se bifurcara em estudo? do comportamento? e psicanálise (permita-se-nos esquematizar algo grosseiramente), reunificou-se como ciência da conduta, termo? sob o qual se abrangem tanto as reações globais do organismo? ao meio? como as respostas verbais e simbólicas e toda a rica vivência do sujeito? que experiencia. Entretanto, a antropologia? cultural? estudava o homem? através das obras? em que a sua conduta se objetiva e que dela ficam como testemunhos; ora a psicologia vinha a descobrir que as funções psíquicas não podem ser compreendidas separadamente das suas obras — de todos os objetos? culturais, afinal (I. Meyerson). Por seu turno, a etnologia? e a antropologia cultural hauriam da psicanálise a ideia? de complexo? e inspiraram-se nela para atender aos recessos da vida? mental dos primitivos; o que levaria Malinowski a verificar que o complexo de Édipo não é universal?, antes peculiar a certos tipos? de sociedades, e Abram Kardiner, Cora du Bois e Ralph Linton a analisar sistematicamente certas culturas arcaicas pelo método psicanalítico, chegando assim ao conceito? de «personalidade? de base». Este, de sua banda, pressupunha o de padrões de cultura e carris de conduta que Ruth Benedict elaborara e Ralph Linton desenvolvera, agora? em relação com o de posição social? (status?). Ia a psicologia beneficiar desta aparelhagem conceitual e meios de abordagem, descobrindo o que há de cultural e social na própria personalidade; quer dizer que não só se foi desenvolvendo a psicologia social, como até a chamada psicologia geral? e mesmo? a diferencial se tornaram sociais por razões profundas. A antropologia cultural, com as ideias? de padrões de cultura e status, vinha a articular-se à antropologia social, que partira diferentemente, não das obras dos homens para as suas condutas, mas das relações que os interligam para a objetivação cultural. E, por sua vez?, a antropologia social, empregando o método comparativo?, veio, com Radcliffe-Brown, a descobrir a sua identidade? com a sociologia?, enquanto a noção de «papel? social» unificava também todos os quatro? domínios de que falamos. Os testes projetivos, que a psicologia forjara para diferenciar personalidades e diagnosticar estados patológicos, adaptam-se de modo? a servirem para determinar características de grupo?, reações coletivas. A economia? política, que sç contentava com o tipo abstrato? do homo economicus, vem a reconhecer que não pode explicar? a procura sem ter? em conta os consumidores com a sua complexa mentalidade?, e que não pode explicar a oferta apenas pelos cálculos ex ante e ex post, tem de fazer? intervir o empresário com toda a sua forma?ção — papel social, padrões culturais, personalidade; de modo que a economia leva a fomentar o inquérito? psicológico, aprofundando todos os recessos das motivações (cujo conhecimento? é de primacial importância para sair do subdesenvolvimento).

Encontrou assim a economia, pelas suas vias próprias, aquilo que foi a grande descoberta? de Marcel Mauss   e que podemos considerar verdadeiramente o fulcro das ciências sociais: o fato social? total. Em cada fato? humano, seja ele qual for, estão inclusas todas as facetas que essas várias ciências costumam distinguir?. A simples? utilização da moeda, por exemplo?, pressupõe, e reenvia a uma religião ou magia?, atitudes básicas, normas morais?, regras jurídicas, processos? técnicos, preferências art?ísticas, etc. Qualquer que seja a conduta, de indivíduo, grupo, camada social ou sociedade? global, é sempre a totalidade? que está em causa, que é posta em causa. E Gurvitch apresentou em correlação a ideia de fato psíquico total, que do mesmo modo indica que na conduta do indivíduo é a totalidade da sua personalidade que está em jogo?, logo a sua integração social — os papéis que desempenha, os estereótipos que emprega e pelos quais se carrila, os símbolos que lhe servem à sua própria vivência, etc. Supusera Charles Blondel   que o inconsciente? é a raiz? e matriz? da personalidade, sendo? a consciência sobretudo expressão social; mostrou Jung   que, mergulhando no inconsciente, encontramos o coletivo, com seu equipamento simbólico e mítico; chamou Lévi-Strauss   a atenção para o caráter inconsciente da maior parte? das relações sociais, e que por isso a visão que cada membro de uma sociedade tem dela não corresponde à realidade? do todo (o que já Durkheim evidenciara, por outras palavras?). Significa tudo isto que a todos os níveis da vida mental descortinamos a interligação do coletivo, do social e do individual?. Fato social total e fato psíquico total não invalidam o caráter parcial de certas aproximações, da maior parte das pesquisas que desde logo não podem abarcar a totalidade; mas avisam que de meras etapas se trata, a superar?.

V. M. Godinho, «Sobre a pesquisa? interdisciplinar em ciências humanas», Revista de Economia, vol. xvi, 1965, pp. 145-146.

LÉXICO: fato