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produção

domingo 31 de outubro de 2021

À primeira? vista?, porém, é surpreendente que a era? moderna? – tendo invertido todas as tradições, tanto a posição tradicional? da ação e da contemplação como a tradicional hierarquia? dentro da vita? activa, com sua glorificação do trabalho? como fonte? de todos os valores? e sua elevação do animal? laborans à posição tradicionalmente ocupada pelo animal rationale – não tenha engendrado uma única teoria? que distinguisse claramente entre o animal laborans? e o homo faber, entre “o trabalho do nosso corpo? e a obra? de nossas mãos” Ao invés disso, encontramos primeiro a distinção entre? trabalho produtivo? e improdutivo, e, um pouco mais tarde, a diferenciação entre obra qualificada? e não qualificada, e, finalmente, sobrepondo-se a ambas, por ser aparentemente de significação mais fundamental, a divisão de todas as atividades? em trabalho manual? e intelectual?. Das três, porém, somente a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo vai ao fundo da questão, e não foi por acaso? que os dois grandes teóricos nesse campo?, Adam   Smith e Karl Marx  , basearam nela toda a estrutura? da sua argumentação. O motivo? da promoção do trabalho na era moderna foi a sua “produtividade”; e a noção aparentemente blasfema de Marx   de que o trabalho (e não Deus?) criou o homem?, ou de que o trabalho (e não a razão) distingue o homem dos outros animais, era apenas a formula?ção mais radical e consistente de algo com que toda a era moderna concordava. [v. animal laborans]

Ademais, tanto Smith quanto Marx   estavam de acordo? com a opinião pública moderna quando menosprezavam o trabalho improdutivo, por considerá-lo parasitário, realmente uma espécie de perversão do trabalho, como se fosse indigna desse nome? toda atividade que não enriquecesse o mundo?. Marx   certamente compartilhava do desprezo de Smith pelos “criados domésticos” que, como “hóspedes preguiçosos (...), nada? deixam atrás de si em troca do que consomem” [A riqueza? das nações (Ed. Everyman), II, 302]. No entanto, todas as eras anteriores à era moderna, ao identificarem a condição do trabalhador com a escravidão, tinham em mente? precisamente esses criados domésticos, esses habitantes do lar, oiketai ou familiares, que trabalhavam em vista da mera subsistência e eram necessários para o consumo isento de esforço, e não para a produção. O que eles deixaram atrás de si em troca do que consumiam foi nada mais nada menos que a liberdade?, ou, na linguagem? moderna, a produtividade potencial de seus senhores.

Em outras palavras?, a distinção entre trabalho produtivo e improdutivo contém, embora eivada de preconceito?, a distinção mais fundamental entre obra e trabalho. [1] Realmente, é típico de todo trabalho nada deixar atrás de si, que o resultado do seu esforço seja consumido quase tão depressa quanto o esforço é despendido. E, no entanto, esse? esforço, a despeito de sua futilidade, decorre de uma enorme premência e é motivado por um impulso? mais poderoso que qualquer outro, pois a própria vida? depende dele. A era moderna em geral? e Karl Marx   em particular?, fascinados, por assim dizer, pela atual? produtividade sem precedentes da humanidade? ocidental, tendiam quase irresistivelmente a considerar todo trabalho como obra e a falar? do animal laborans em termos muito mais adequados ao homo faber, como a esperar que faltasse apenas um passo para eliminar totalmente o trabalho e a necessidade?. [2]

Sem dúvida, a evolução histórica que tirou o trabalho de sua ocultação e o guindou ao domínio público, onde pôde ser organizado e “dividido” [3] constituiu poderoso argumento? no desenvolvimento? dessas teorias. Contudo, um fato? ainda mais significativo nesse particular, já pressentido pelos economistas clássicos e claramente descoberto e enunciado? por Karl Marx  , é que a própria atividade do trabalho, independentemente de circunstâncias históricas e de sua localização no domínio privado? ou no domínio público, possui realmente uma “produtividade” própria, por mais fúteis ou não duráveis que sejam os seus produtos. Essa produtividade não reside em qualquer um dos produtos do trabalho, mas na “força” humana, cujo vigor? não se esgota depois que ela produz os meios de sua subsistência e sobrevivência, mas é capaz de produzir um “excedente” isto é, mais que o necessário à sua própria “reprodução” Uma vez? que não é o próprio trabalho, mas o excedente da “força de trabalho” humana (Arbeitskraft), que explica a produtividade do trabalho, a introdução desse termo? por Marx  , como Engels observou corretamente, constitui o elemento mais original e mais revolucionário de todo o seu sistema?. [4] Ao contrário da produtividade da obra, que acrescenta novos objetos? ao artifício humano, a produtividade da força de trabalho só incidentalmente produz objetos e preocupa-se fundamentalmente com os meios de sua própria reprodução; além disso, como a sua força não se extingue quando sua reprodução já está assegurada, ela pode ser utilizada para a reprodução de mais de um processo? vital, mas nunca “produz” outra coisa? senão “vida” [5]. Mediante violenta? opressão em uma sociedade? de escravos?, ou mediante a exploração na sociedade capitalista da época de Marx  , essa produtividade pode ser canalizada de tal forma? que o trabalho de alguns é bastante para a vida de todos. [ArendtCH  :C11]


pro-dução em Heidegger

Observações

[1A distinção entre trabalho produtivo e improdutivo se deve aos fisiocratas, que diferenciavam entre classes produtoras, proprietárias e estéreis. Como afirmavam que a fonte original de toda produtividade residia nas forças naturais da terra, o critério de produtividade que adotavam tinha a ver com a criação de novos objetos, e não com as necessidades e carências dos homens. Assim, o marquês de Mirabeau, pai do famoso orador, chama de estéril “la classe d’ouvriers dont les travaux, quoique nécessaires aux besoins des hommes et utiles à la société, ne sont pas néanmoins productifs”, e exemplifica sua distinção entre obra estéril e produtiva comparando-a à diferença entre cortar uma pedra e produzi-la (cf. Jean Dautry, “La notion de travail chez Saint-Simon et Fourier”. Journal de psychologie normale et pathologique, v. LII, n. 1, jan./mar. 1955).

[2Essa esperança acompanhou Marx do princípio ao fim. Já a encontramos na Deutsche Ideologie: “Es handelt sich nicht darum die Arbeit zu befreien, sondern sie aufzuheben” (Gesamtausgabe, Parte I, v. 3, p. 185) e, muitas décadas depois, no terceiro volume de Das Kapital, Capítulo 48: “Das Reich der Freiheit beginnt in der Tat erst da, wo das Arbeiten (...) aufhört” (Marx-Engels Gesamtausgabe, Parte II [Zurique, 1933], p. 873).

[3Em sua introdução ao segundo livro de A riqueza das nações (Ed. Everyman, I, p. 241 ss.), Adam Smith destaca que a produtividade se deve antes à divisão do trabalho que ao próprio trabalho.

[4Cf. a Introdução de Engels ao “Wage, labour and capital”, de Marx (em Marx & Engels, Selected works, Londres, 1950, I, 384), no qual Marx introduzira o novo termo com certa ênfase.

[5Marx sempre ressaltou, especialmente em sua juventude, que a principal função do trabalho era a “produção da vida” e, portanto, considerava o trabalho em conjunto com a procriação (cf. Deutsche Ideologie, p. 19, e “Wage, labour and capital”, p. 77).