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fenomenalidade

domingo 31 de outubro de 2021

A distinção crucial entre o videor e o videre pode ser mantida, com firmeza, tão-somente por uma fenomenologia material, uma fenomenologia que refere cada um dos conceitos fundamentais da fenomenalidade à atualização e efetuação dessa fenomenalidade, de tal modo que essas manifestações puras, esses cristais do aparecer, deixam-se reconhecer na diferença radical de sua substancialidade fenomenológica. Na medida em que a fenomenologia, ou até mesmo, uma ontologia fenomenológica, move-se no esquecimento dessa referência principial, ela permanece como um puro conceptualismo; suas proposições revestem apenas a forma da apoditicidade e se lançam a um jogo gratuito e indefinido. O que significa, pois, aparecer sempre que a fenomenalidade concreta da exibição não se exibe, de modo algum, em si mesma? O que significa para o aparecer manifestar-se em si mesmo e tal como é, se o campo assim aberto por ele e no qual advém à manifestação de si não é também reconhecido na especificidade de sua própria fenomenalidade? E o que ainda pode significar para o aparecer dar-se ou retirar-se, e dar-se na retirada? O que significa, para a verdade do ser, isto é, precisamente para o aparecer puro, entregar-se como a verdade do ente na ocultação de sua própria verdade, se a verdade aqui em questão designa outra coisa que não a da matéria fenomenológica de um modo efetivo de fenomenalidade pura?

Com certeza, nenhum conceito abstém-se de referência, e o da fenomenalidade menos ainda do que qualquer outro. Desde que a palavra aparecer foi pronunciada, cumpre-se a compreensão, ao menos implícita, de um modo efetivo da fenomenalidade pura, e não é um modo qualquer. A visibilidade do mundo – o horizonte transcendental lançado diante de nós pela ek-stasis e pela visibilização prévia mediante o qual também toda coisa, todo ente, torna-se visível – oferece-se a nós primeiramente como referente de todo conceito que, de uma maneira ou de outra, põe em jogo a fenomenalidade. A fenomenalidade produzida no processo de [85] exteriorização da exterioridade funda, de modo conciso, a “luz” – “natural” ou “universal” – da qual fala Descartes   e, por sua vez, serve de fundamento ao ver, ao intueri: o videre remete para a fenomenalidade com toda evidência. Em sua autonomia aparente, esse modo de desdobramento da fenomenalidade ek-stática parece tão originária que está no fundo das concepções, na maioria das vezes, implícitas, que guiam o pensamento filosófico desde sua origem na Grécia. E foi preciso haver a extraordinária ruptura da redução para que essas pressuposições se tornassem confusas, concentradas tanto na ιδέα [idea] platônica como na ratio das Regras. Então, por um instante, desvela-se diante da consciência filosófica o anverso das coisas, sua dimensão invisível, aquilo que nunca se separa de si, nunca parte para fora de si e nunca se propõe como um mundo, aquilo que não tem nem “face”, nem “fora”, nem “rosto” e que ninguém pode ver: a subjetividade em sua imanência radical e idêntica à vida. [MHPsique  :84-85]


LÉXICO: fenomenalidade