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horizonte

domingo 17 de outubro de 2021

O vocábulo horizonte indica já que o mundo não pode ser compreendido como um sistema neutral de relações, mas que se estrutura em função de um ponto central onde se localiza o ente percepcionado, variando, por conseguinte, de acordo com o ente a considerar e com a posição do sujeito percepcionante: «o horizonte significa, em sentido literal, o limite do visível, que permanentemente se altera com a posição do espectador». O mundo, portanto, só como horizonte nos é dado indubitavelmente; no seio dele temos a considerar um núcleo de dados intuitivos atuais (experiência real). A consciência que experimenta as coisas reais, necessariamente as experimenta come algo ‘extraído’ do mundo. Qualquer experiência de uma coisa e, por maioria de razão, a experiência doadora originária que é o percepcionar, dá-se num campo perceptivo. Cada objetividade está aí presente, em ‘original’, embora de modo incompleto, podendo prolongar-se a experiência que dela temos, mediante um encadeamento de experiências indefinidamente abertas. Por exemplo, do livro que se encontra na minha frente, não tenho uma percepção única que mo apresente de maneira completa; vejo-o aberto em determinada página, não tenho presente nem as outras folhas nem a capa. O livro, no seu conjunto, ser-me-ia dado através de uma série de experiências concordantes. Posso bastar-me com o já percepcionado, embora, para além dos aspectos conhecidos, haja determinações, pormenores ainda ignorados, que uma experiência ulterior conduziria a uma percepção atual. Assim, a experiência de uma única coisa já implica uma margem de possibilidades, possui um sentido implícito e a explicitar que vai mais além do que é e pode ser dado na explicitação da consistência das coisas; implica um horizonte de determinações, um fundo sobre o qual é possível essa experiência. É isto o que Husserl   denomina horizonte interno e que diz respeito à estrutura íntima do objeto concreto, na medida em que é o horizonte da consistência desse objeto. Horizonte significa neste caso a ‘indução’ ou antecipação essencial a cada experiência e é inseparável de cada uma das coisas singulares. Esta ‘indução’ originária apresenta-se como um modo de intencionalidade que, visando para além do núcleo que é dado, antecipa novas determinações objetivas. Por outro lado, essa antecipação transcende o objeto dado com todas as possibilidades antecipadas de futuras determinações, remetendo para outros que lhe estilo juntos ou simplesmente articulados através do plano de fundo da percepção. O exemplo anterior do livro que se encontra na minha frente, serve de esclarecimento; esse livro não está isolado; percepcioná-lo, implica aperceber-se de um horizonte de objetos concomitantes: o cinzeiro, a caneta, as folhas de papel, a mesa a que estou sentado, estantes, cadeiras, a própria sala em que me encontro trabalhando, etc, etc. Quer isto significar que a coisa percepcionada, em articulação com o horizonte interno, possui ainda um outro horizonte, um horizonte externo, infinitamente aberto, de com-objetos. Esses objetos não se encadeiam uns nos outros de maneira arbitrária, nem à semelhança de uma adição de objetos tomados um a um; ao ver uma coisa vejo também as suas relações, embora apenas sob o modo de implicação, como algo que se dispõe em penumbra, em torno do foco da percepção. Não há pois experiência de objetos isolados. Por outras palavras, a redução ao indivíduo como indivíduo revela-se impossível, uma vez que, nas relações de horizonte deste está sempre o mundo. Por outro lado, nunca é o mundo dado como totalidade de todos os entes espácio-temporais. A apreensão do mundo não é possível senão através de coisas singulares. Logo, originariamente, não é dado um objeto qua tale nem o mundo qua tale; com o objeto dado e no seu ser dado, aparece conjuntamente o mundo sob a forma de horizonte. Isto possui uma dupla significação: o horizonte está fundado sobre o objeto singular no sentido de a sua apercepção necessitar de um dado individual prévio; e, revelado o horizonte onde se situa, enraiza-se nele o objeto singular, lía uma relação reciproca do objeto com o mundo onde se Implica e do mundo com o objeto onde se explica (sich auslegend). O horizonte não é pois exterior ao objeto e, portanto, a distinção entre horizonte externo e horizonte interno deixa de ter sentido. [CARLOS MORUJÃO]


LÉXICO: horizonte