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linguagem

domingo 17 de outubro de 2021

A preocupação com o pensamento?, a consideração do intelecto? é a disciplina? da língua. Se o elemento? do pensamento é a palavra?, então o pensamento passa a ser uma organização linguística, e o intelecto passa a ser o campo? no qual ocorrem organizações linguísticas.

Se descrevemos o pensamento como processo?, podemos, já agora?, precisar de que tipo? de processo se trata: é a articulação de palavras. Essa articulação não necessita de órgãos ou instrumentos para se processar. Esses órgãos e instrumentos podem ser empregados a posteriori para produzir? essa articulação secundária que é a língua falada ou escrita?. A articulação primária, a língua não expressa, o “falar? baixo”, é idêntica à teia dos pensamentos?. As regras de acordo? com as quais os pensamentos se formulam e se propagam são as regras da língua. “Lógica” e “gramática” passam a ser sinônimos no mesmo sentido? no qual o são “conceito?” e “palavra”. Se definirmos “língua” como “campo no qual se dão organizações de palavras”, “língua” passa a ser sinônimo de “intelecto”. O estudo? do intelecto, estudo da língua que é, passa a ser disciplina rigorosa.

Nesse ponto? do argumento? é preciso introduzir uma ressalva. Os estudos linguísticos, tais como os conhecemos presentemente, não sabem distinguir entre a língua primária e a secundária, entre a língua pura e a língua expressa, aplicada. Misturam, em consequência, aspectos puros, formais e estruturais da língua com aspectos próprios da língua [40] aplicada. Consideram, por exemplo?, a palavra ora como símbolo (aspecto? puro?), ora como grupo? de fonemas (aspecto aplicado). Consideram a história da palavra ora como o conjunto de suas modificações quanto ao significado? (aspecto puro), ora como conjunto de suas modificações quanto à sua forma? sensível (aspecto aplicado). Tratam de descobrir leis? de acordo? com as quais as regras gramaticais se desenvolvem (aspecto puro), e tratam de descobrir leis de acordo com as quais se desenvolvem novas formas de palavras (aspecto aplicado). Em consequência, reina uma confusão fundamental nos estudos linguísticos atuais. Embora não seja sempre fácil distinguir entre língua pura e aplicada pela íntima relação que existe entre ambas, essa distinção é sempre possível. Ela precisa ser feita, e o estudo da língua precisa ser dividido de acordo com ela. A parte? que se ocupa da língua aplicada precisa ser relegada ao terreno das ciências naturais, e pouco ou nada? ter?á a ver com os problemas? do pensamento. A outra parte formará aquilo que Dilthey   chamava de “ciência do espírito?” (Geisteswissenschaft), com a diferença que será uma ciência despsicologizada. Será uma ciência tão exata ou pouco exata, quanto o são as ciências naturais. Essa ciência da língua pura está, por ora, somente in statu nascendi. (FLUSSER  , Vilém. DA DÚVIDA?. São Paulo  : É Realizações, 2018, p. 39-40)


Se há um fundamento? filosófico para se falar da dignidade? do ser humano?, então é porque justamente o homem é chamado? pelo próprio ser e - como Heidegger   enquanto filósofo pastoral gosta de dizer - escolhido para sua guarda. Por isso os homens possuem a linguagem?; mas a finalidade? precípua dessa posse?, segundo Heidegger  , não é apenas entender-se e domesticar-se mutuamente nesses entendimentos.

A linguagem é antes a casa do ser; ao morar nela o homem existe [ek-sistiert], à medida? que compartilha a verdade? do ser, guardando-a. O que importa, portanto, na definição da humanidade? do ser humano enquanto existência [Ek-sistenz], é que o essencial? não é o ser humano, mas o ser como a dimensão do extático da existência.

Ao ouvir essas formula?ções em princípio herméticas, começamos a perceber por que a crítica heideggeriana ao humanismo? está tão certa de não conduzir a um inumanismo. Pois ao mesmo tempo? em que rejeita as alegações do humanismo de já ter explicado suficientemente a essência do homem, e contrapõe a isso sua própria onto-antropologia?, Heidegger   preserva entretanto, indiretamente, a função mais importante do humanismo clássico, que é o estabelecimento de amizade? do ser humano pela palavra do outro?; na verdade, ele radicaliza esse? motivo? de amizade e o transfere do campo pedagógico para o centro da consciência ontológica.

Esse é o sentido da frequentemente citada e muito ridicularizada descrição do ser humano como o pastor do ser. Ao usar imagens? do domínio da pastoral e do idílio, Heidegger   está falando da tarefa? do ser humano, que é sua essência, e da essência do ser humano, da qual sua tarefa se origina: a saber?, guardar o ser, e corresponder ao ser. É certo que o homem não guarda o ser como o doente guarda o leito, mas antes como um pastor guarda seu rebanho na clareira, com a importante diferença de que aqui, em vez de um rebanho de animais, é o mundo? que deve ser serenamente percebido como circunstância aberta - e, mais ainda, que essa guarda não constitui uma tarefa de vigilância livremente escolhida no interesse? próprio, mas que é o próprio ser que emprega os homens como guardiães. O local em que esse emprego é válido é a clareira (Lichtung), ou o lugar? onde o ser surge como aquilo que é.

O que dá a Heidegger   a certeza? de ter apreendido e sobrepujado o humanismo com essa mudança de rumo é a circunstância de que ele inclui o ser humano - concebido como clareira do ser - em uma domesticação e estabelecimento de amizade que vão mais fundo do que jamais poderiam alcançar? qualquer desembrutecimento humanista e qualquer amor? cultivado pelos textos que falam de amor. Ao definir? os seres humanos como pastores e vizinhos do ser, e ao chamar a linguagem de casa do ser, Heidegger   vincula o homem ao ser em uma correspondência que lhe impõe uma restrição radical e o confina - o pastor - nas proximidades ou cercanias da casa; ele o expõe a uma conscientização que requer uma imobilidade e uma servidão resignada maiores que as jamais conseguidas pela mais ampla formação. O ser humano é submetido a uma restrição extática que tem maior alcance que a civilizada imobilidade do leitor obediente ao texto? diante do discurso? clássico. O auto-contido habitar heideggeriano na casa da linguagem define-se como uma escuta paciente e às escondidas do que será dado? ao próprio ser dizer. In-voca-se um estar?-à-escuta-do-que-se-passa-ao-redor que deve tornar o ser humano mais quieto? e mais domesticado que o humanista ao ler os clássicos. Heidegger   quer um homem mais servil do que o seria um mero bom leitor. Seu desejo? seria instituir um processo de estabelecimento de amizade no qual ele próprio não mais seria recebido apenas como um clássico ou um autor entre outros; o melhor acabaria sendo, por ora, que o público - que naturalmente só pode consistir de alguns poucos homens perspicazes - tomasse conhecimento? de que, por intermédio dele, enquanto mentor da pergunta? sobre o ser, o próprio ser tenha novamente começado a falar. [Peter Sloterdijk  , «REGRAS DO PARQUE HUMANO»]

LÉXICO DE FILOSOFIA

HEIDEGGER: Sprechen / falar / parler / speak / hablar / besprechen / discuter / discussion / discussão / discussing / discutir / discutant / falar de algo como algo / ansprechen / advoquer / advocation / anrufen / ad-voquer / falar de / dizer / addressing / aussprechen / s’ex-primer / ex-primer / Sichaussprechen / expressing-itself / Ausdrücken / expressing / antworten / responder / entsprechen / corresponder / ent-sprechen / co-responder / Entsprechung / correspondence / correspondência / correspondentia / Sprache / linguagem / language / langage / lenguaje / sagen / saying / dizer / Weitersagen / re-dite / Heraussage / prononcement / declaração