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palavra

domingo 17 de outubro de 2021

O que é uma palavra?? A reprodução de um estímulo nervoso em sons. Mas deduzir? do estímulo nervoso uma causa fora de nós já é o resultado de uma aplicação falsa e injustificada do principio de razão. Como poderíamos, caso tão-somente a verdade? fosse decisiva na gênese da linguagem?, caso apenas o ponto? de vista? da certeza? fosse algo decisório nas designações, como poderíamos nós, não obstante, dizer: a pedra? é dura: como se esse? “dura” ainda nos fosse conhecido de alguma outra maneira e não só como um estímulo totalmente subjetivo?! Seccionamos as coisas? de acordo? com gêneros, designamos a árvore como feminina e o vegetal? como masculino?: mas que transposições arbitrárias! Quão longe? voamos para além do cânone da certeza! Falamos sobre uma serpente: a designação não tange senão ao ato? de serpentear e, portanto, poderia servir também ao verme. Mas que demarcações arbitrárias, que preferências unilaterais, ora por esta, ora por aquela propriedade? de uma dada coisa?! Dispostas lado a lado, as diferentes línguas mostram que, nas palavras, o que conta nunca é a verdade, jamais uma expressão adequada?: pois, do contrário, não haveria tantas línguas. A “coisa em si” (ela seria precisamente a pura verdade sem quaisquer consequências) também é, para o criador? da linguagem, algo totalmente inapreensível e pelo qual nem de longe vale a pena? esforçar?-se. Ele designa apenas as relações das coisas com os homens e, para expressá-las, serve-se da ajuda das mais ousadas metáforas. De antemão, um estímulo nervoso transposto em uma imagem?! Primeira? metáfora. A imagem, por seu turno, remodelada num som! Segunda metáfora. E, a cada vez?, um completo sobressalto de esferas em direção a uma outra totalmente diferente e nova. Pode-se conceber? um homem? que seja completamente surdo e que jamais tenha tido uma sensação do som e da música: da mesma forma? que este, um tanto espantado com as figuras sonoras de Chladni sobre a areia, encontra suas causas? na vibração das cordas e jurará que agora? não pode mais ignorar aquilo que os homens- chamam de som, assim também sucede a todos nós com a linguagem. Acreditamos saber? algo acerca das próprias coisas, quando falamos de árvores, cores, neve e flores, mas, com isso, nada? possuímos senão metáforas das coisas, que não correspondem, em absoluto?, às essencialidades originais. Tal como o som sob a forma de figura? de areia, assim se destaca o enigmático “x” da coisa em si, uma vez como estímulo nervoso, em seguida como imagem» e, por fim?, como som. De qualquer modo?, o surgimento da linguagem não procede, pois, logicamente, sendo? que o inteiro material? no qual e com o qual o homem da verdade, o pesquisador, o filósofo, mais tarde trabalha e edifica, tem sua origem?, se não em alguma nebulosa cucolândia, em todo caso não na essência das coisas. NIETZSCHE  , Friedrich. Sobre verdade e mentira?. Tr. Fernando de Moraes Barros. São Paulo  : Hedra, 2007, p. 30-35

LÉXICO: palavra

HEIDEGGER: Wort / mot / palavra / palabra / word / Worte