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observação

domingo 17 de outubro de 2021

É ativa e polêmica.

A observação implica um corpo de precauções que levam a refletir antes de olhar, que modificam pelo menos a primeira visão, de sorte que a primeira observação nunca é boa. A observação científica é sempre uma observação polêmica; confirma ou infirma uma tese anterior, um esquema prévio, um plano de observação; mostra demonstrando, hierarquiza as aparências; transcende o imediato; reconstrói o real depois de ter reconstruído os seus esquemas. É claro que, quando passamos da observação à experimentação, o caráter polêmico do conhecimento se torna ainda mais nítido. Então o fenômeno há-de ser escolhido, filtrado, depurado, vazado no molde dos instrumentos. Ora os instrumentos não são outra coisa senão teorias materializadas. Do que resultam fenômenos impregnados de teoria. [G. Bachelard  , Le Nouvel Esprit Scientifique, 1949, p. 12]


Mediante uma análise profunda das condições de toda observação, Heisenberg   mostra como ela implica sempre uma ação do observador sobre o sistema observado e uma reação deste último de que resulta a observação. Para seguir o movimento de um projétil é absolutamente necessário iluminá-lo, fazer incidir nele um certo número de fotões, alguns dos quais são devolvidos por ele e manifestam a sua presença, o que permite determinar cada uma das suas posições sucessivas. O choque destes fotões perturba o movimento que desejamos estudar, mas a constante de Planck é tão pequena, os quanta de luz visível tão pequenos, que a luz necessária para o iluminar só transmite ao projétil quantidades insignificantes de energia e de movimento, só perturba o seu movimento de maneira inapreciável. Sucede coisa diversa quando descemos ao domínio corpuscular: o fato de a quantidade de luz utilizada para iluminar um átomo e pôr em evidência os eletrões que contém não dever descer abaixo de um só fotão, e de o encontro de um fotão com um eletrão, por absorção completa do fotão ou por Compton scattering|efeito Compton, perturbar profundamente o movimento do eletrão, tem por consequência que, mesmo empregando a linguagem mecânica usual para exprimir o que se passa, não podemos contar pôr em evidência o movimento de um só eletrão sem o modificar por tal maneira que toda observação individual seja desprovida de sentido experimental. [Paul Langevin, L’Orientation Actuelle des Sciences, 1936, pp. 55-56.]

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