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mulher

domingo 17 de outubro de 2021

27. Quando tratávamos, com especial insistência, do Diabo e do diabólico, algumas vezes fomos levados sem resistência a lembrar a distinção entre Eros e Sexo. O Eros mostrava-se-nos, como o símbolo se nos mostra, pela fusão de duas partes no todo que as integra. No que estávamos quase certos. Mas, agora, à memória nos acode um verso de José Régio, que vamos citar sem recurso ao texto, que não temos diante dos olhos. O poema intitula-se «Sarça Ardente» e o verso a que devemos apreço é este: «Vai, Mulher, que a tua casa é perto!» Por mim diria: «... que a tua casa é longe!» Com o que, certamente, inalterada permaneceria a métrica (suposto, evidentemente, que as mesmas fossem as palavras, e dispostas naquela ordem). A diferença reside, portanto, em diversas concepções do que seja «Mulher», na minha concepção e na do poeta. Ainda que estreitamente abraçados, no symplegma que, desde a Antiguidade, emblematiza o Erótico, e tanto que, entre Gregos e Romanos, pelo menos uma das figuras é alada, a Mulher sempre habita a Lonjura, não que pela própria ação do drama amoroso mais próximo não pudesse achegar-se ao homem. Ainda assim, a tão pouco distante Mulher é o nosso mais longínquo semelhante, tão longínqua, que redondamente se ilude quem ache que alguma vez conseguiu cingi-la toda em seus braços. A experiência, tão íntima, que se furta à descrição, dá-nos em sua medida exata a diferença entre Eros e Sexo. Porque ao amplexo [114] de predominante sexualidade tudo isso escapa; o sentimento da Lonjura inacessível ao percurso das maiores distâncias oculta-se sob a falácia da «posse». Não queremos ofender as feministas tão amantes das prerrogativas da masculinidade; muito pelo contrário. Mas não podemos deixar de dizer que, em lonjura inacessível, a Mulher está ao lado da Natureza e, presumivelmente, ao mesmo nível. Os atentados da tecnologia contra uma natureza indomada tomam visos de estupro e violação criminosa. E, inversamente, estes se transpõem, com a docilidade da evidência, do natural para o humano. Mas ainda, se à Mulher tão bem cabe a característica pseudo-espacial da Lonjura, caber não lhe deverá igualmente a característica pseudotemporal do Outrora?


LÉXICO: mulher