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objetividade

domingo 17 de outubro de 2021

35. Perdidos na massa informe e confusa das ações que instituem a aparência de ser das «coisas-fabricadas-pelos-homens» e dos «homens-fabricantes-de-coisas», dos homens que têm por objetivo construir objetos, e dos objetos que são objetivos únicos dos homens, do drama pungentemente diabólico, de quando em quando se representam outros, cujas características de trans-objetividade se nos mostram por ostentarem as pseudodimensões do espaço e do tempo, Lonjura e Outrora, uma, indiferente à oposição da proximidade e do distanciamento, e outra, à oposição do presente e passado. O drama religioso, fundindo o passado e o presente no Outrora, ou deixando que o Outrora absorva passado e presente, e fundindo o próximo e o distante na lonjura, ou deixando que a lonjura absorva o distante e o próximo, «descoisifica» as coisas que Homem e Mundo eram, e delas faz [122] símbolos que operam ou em que se opera a «religação» das coisas que nos parecem como um não mais do que «coisas», com as entidades originárias que, através delas, nos aparecem, logo que nos apercebamos que o mesmo toque de encantamento transfigurava quem se julga sujeito da realidade, em quem renunciou a sê-lo, desde o momento em que viu que só era sujeito da objetividade. Esta religião, este drama ritual, intromete um Purgatório, entre o Inferno e o Paraíso: o reino da Trans-Objetividade, em que o homem já não se sente como «homem humano», criatura ou lugar-tenente do Diabo, mais ainda se não sente como «homem-mais-que-humano», como criatura de Deus, tão real quanto a Realidade lhe permitiu vir a ver. [EudoroMito:122-123]


54. Pouca é toda a nossa atenção ao que se passa na Trans-objetividade, porque tudo quanto nela se passa decide uma alternativa; ou recaímos na objetividade «coisística» e «diabólica», ou transpomos o limite-liminar do Ser Entificante, do Absoluto-Secreto da Existência Existencializante, do Deus «que quer e não quer» chamar-se por esses nomes, que, sejam o que forem, [141] designem o que designem, decerto não são próprias designações do Absoluto de todos os Absolutos, tão bem ou mal designado pelo «Ultra-Ser» de Álvaro de Campos ou pela «Ultra-Essência» de Platão. Grande é o perigo; mas dele «não se pode fugir, não se pode fugir», como a borboleta não foge, atraída pela luz que brilha na obscuridade da noite. Nesta luz, ela morre; naquela, morremos nós. Por isso, diríamos, como Platão o disse da filosofia, que o viver na trans-objetividade é uma «iniciação para a morte», como a última das metamorfoses humanas. O trans-objetivo é ambiência natural do Religioso, do Poeta, do Filósofo: todos convivem com os símbolos até que neles acabem por ver reais concreções do Macro-Símbolo. Visão do Macro-Símbolo é vivência do último «entre-estar» e «entre-ser», pois, como complementaridade do Mundo Inteiro e da sua própria Origem, se dela não nos apercebemos, também não passamos do irremediável dualismo e, solicitados pelas reivindicações à absoluta validez de um ou de outra, inevitavelmente cairemos para um ou outro lado: para o Mundo sem Deus ou para o Deus sem Mundo, e, em qualquer dos casos, não se alcança a humanidade mais que humana do transumano, porque esta é a Humanidade distraída das sisões operadas no «objetivo», pelo intelecto voluntarioso, concentrado e concêntrico ao horizonte das «coisas». [EudoroMito:141-142]
LÉXICO: objetividade