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sociologia

domingo 17 de outubro de 2021

Cada indivíduo encontra já formados e como que instruídos [os hábitos coletivos da linguagem, dos costumes, da vida doméstica, econômica, etc.], pois não é o seu autor, visto que os recebe de fora; são, portanto, preestabelecidos. [...] Seria bom que uma palavra especial designasse esses fatos especiais e parece que a palavra instituições é a mais própria. Com efeito, que é uma instituição senão um conjunto instituído de atos ou ideias que os indivíduos encontram ante si e que, mais ou menos, se lhes impõem? Não há qualquer fundamento para reservar exclusivamente, como normalmente se faz, essa expressão para os arranjos sociais fundamentais. Portanto, entendemos por tal palavra quer os usos e as modas, os preconceitos e as superstições, quer as constituições políticas ou as organizações jurídicas essenciais. [...] Dir-se-á, todavia, que a instituição é o passado; é, por definição, a coisa fixada, não a coisa viva. [...] Na realidade, concebida deste modo, a instituição é tão-só uma abstração. As instituições verdadeiras vivem, isto é, mudam incessantemente: as regras da ação não são nem compreendidas nem aplicadas do mesmo modo em momentos sucessivos, enquanto as fórmulas que as exprimem permanecem literalmente as mesmas. Por conseguinte, são as instituições vivas, tais como se formam, funcionam e se transformam nos diversos momentos, que constituem os fenômenos propriamente sociais, objetos da sociologia.

Paul Fauconnet e Marcel Mauss  , «Sociologie», in Grande Encyclopédie, 1900, t. xxx, pp. 168-169.


Se a sociologia do século XIX pode caraterizar-se como unidimensional, a sociologia do século XX é, antes de mais, pluridimemional. É uma sociologia em profundidade. A realidade social apresenta-se à visão experimentada do sociólogo como disposta em estratos, em níveis, em planos escalonados, em camadas de profundidade, em múltiplas infra e supra-estruturas. Estes níveis, estas infra e supra-estruturas, interpenetram-se e impregnam-se mutuamente. Entretanto, estão sempre em conflito: as suas relações são tensas, antinômicas, dialécticas. Trata-se de tensões inextricáveis, inerentes a toda a realidade social e que poderíamos qualificar como verticais. A estas antinomias acrescentam-se, ao nível de cada camada em profundidade, conflitos, antagonismos, tensões horizontais; a luta dos grupos — e particularmente a das classes— é exemplo disso. A tarefa do sociólogo consiste em fazer ressaltar todas estas tensões e conflitos, situando-os no seu contexto social especifico, porque a sua acuidade varia com a multiplicidade das conjunturas. Não compete decerto à sociologia nem resolver nem mascarar tais conflitos. A vocação do sociólogo reconhece-se em primeiro lugar pela sua capacidade de denudar as antinomias e as tensões latentes próprias de uma dada realidade social, considerada como «fenômeno social total». A honestidade intelectual do investigador em sociologia mede-se pela firmeza de que dá provas numa luta sem quartel contra toda tentativa destinada a mascarar ou a calar o drama agudo que, em todos os instantes da existência da sociedade, se desenrola entre os seus diferentes estratos e ao nível de cada um deles.

Georges Gurvitch, La Vocation Actuelle de la Sociologie, pp. 49-50.»

LÉXICO: sociologia