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Noreia

domingo 20 de março de 2022

    

Excertos de do livro de R. Kuntzmann e J.-D. Dubois, trad. de Álvaro Cunha
Noreia (IX,2)
Tradução de M. Roberge, in BCNH, n. 5, 1980.

Este texto de fins do século II merece ser citado integralmente, pois ilustra bem as principais características da literatura de Nag Hammadi. Ele descreve o drama   de Noreia, filha de Eva, irmã-esposa   de Sem ou de Noé, variante da figura de Sofia e cujo retrato já foi apresentado em A Hipóstase dos Arcontes (11,4). No entanto, diferentemente de A Hipóstase dos Arcontes, aqui Noreia é a alma   decaída, mas salva graças à gnose: ela simboliza a Mulher espiritual, personificação do gnóstico ameaçado pela corrupção material. E anuncia a certeza   do repouso   no Pleroma   divino. Esse mito   é aparentado ao de Apócrifo   de João, Evangelho dos Egípcios e Três Estelas de Set.

A estrutura   do escrito permite-nos entrever melhor a história de Noreia:

p. 27,11-22a: O grito de Noreia em direção   à Tríade celeste:

Pai   do Todo, Ennoia   [1] da Luz, nous - Nous que habita nas alturas, acima das regiões (inferiores), Luz que habita (nas) alturas, Voz da Verdade, nous - Nous (erguido), Logos   indizível e Voz inefável, pai incompreensível!" É Noreia que grita para eles.

p. 27,22b-28,12a: Noreia recebe a revelação do nous - Nous Adamas e a capacidade de levar aos homens a mensagem da salvação  :

Eles entenderam e a receberam no Lugar que é seu em todo tempo [2]. Eles deram-lhe o Pai, o nous - Nous Adamas, bem como a voz (...) dos seres santos para que ela pudesse repousar na Epinóia indizível, para que ela possa herdar do primeiro nous - Nous, que (ela) havia recebido, repousar no Autógeno divino e gerar-se a si própria, à medida que (ela) também herdou do Logos vivo, bem como juntar  -se a todos os Imperecíveis e (permanecer) no nous - Nous do Pai.

p. 28,12b-23: Noreia cumpre sua missão junto aos homens, reunindo uma comunidade de espirituais e glorificando o Pai pelo êxito de sua missão:

E (ela se pôs) a falar com palavras de vida e continuou, na presença   daquele que se elevou, a deter aquilo que havia recebido antes (do dia em que) o mundo surgiu, possuindo o Grande nous - Nous do Invisível  . E ela glorificou seu Pai. E (ela) está entre aqueles que (...) no Pleroma. E ela vê o Pleroma.

p. 28,24-29,5: Os quatro defensores celestes de Noreia a asseguram de seu retorno ao Pleroma, do qual, aqui em baixo, ela tem a visão. Esperando, ela constrói o homem interior   em cada eleito  :

Virão dias em que ela (irá para) o Pleroma e não ficará mais na deficiência  . Entretanto, ela tem os quatro defensores santos [3], que intercedem por ela junto ao Pai do Todo, Adamas, aquele que é interior a todos os Adamas, pois ele possui a intelecção   de Noreia, que declara, a propósito dos dois   nomes [4], que eles constituem um nome único.



[1A Tríade divina abrange o Pai, Ennoia e Nous.

[2Portanto, ela foi excluída desse lugar num momento dado.

[3São os quatro luminares; cf. Apocalipse de João, II, 7,70-8,21.

[4Noreia-Adamas.