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Aristóteles Alma Vida

domingo 20 de março de 2022

      

Tomamos como ponto de partida da investigação a asserção de que o animado se distingue do inanimado por viver  . Porém como o viver se diz em muitos sentidos, embora só se encontre um deles em uma coisa, dizemos que vive, por exemplo, a mente  , a sensação, o movimento   e o repouso   locais, e também o movimento segundo a nutrição, a diminuição e o crescimento. Por isto também parecem viver todas as plantas, pois parece que têm em si mesmas uma faculdade e um princípio graças ao qual recebem aumento e diminuição em direções contrárias; pois não crescem só para cima e não para baixo, e sim igualmente em ambos os sentidos e por todas aquelas partes que se nutrem sempre, e continuam vivendo enquanto puderem receber   alimento  . É possível separar esta faculdade das demais, mas é impossível separar as outras desta quando se refere aos mortais  . No caso das plantas é evidente  , pois nelas não se encontra nenhuma outra faculdade da alma  .

O viver pertence, portanto, aos viventes, em virtude   desse princípio; o animal, porém, o é primariamente pela sensação, pois também dizemos que são animais, e não só viventes, os que não se movem nem mudam de lugar, mas têm sensação. E entre as sensações, o tacto, primariamente, pertence a todos. Porém assim como a faculdade nutritiva pode estar separada do tacto e de toda sensação, do mesmo modo o tacto das demais sensações. Chamamos faculdade nutritiva aquela parte da alma de que as plantas também participam; os animais-todos parecem ter a sensação táctil; mais adiante diremos qual a causa   que determina isso em cada um dos casos.

No momento baste dizer que a alma é princípio das funções mencionadas e define-se por elas, isto é, pela nutritiva, a sensitiva, a mental e pelo movimento. Porém, saber se cada uma é uma alma ou uma parte da alma, e, no caso de ser uma parte, se o é de tal modo que seja separável só racionalmente ou também no lugar, acerca de algumas delas não é difícil, mas no tocante a outras apresentam-se dificuldades. Por exemplo, entre as plantas algumas há que parecem viver quando divididas e suas partes separadas umas das outras — sendo assim a alma, que reside nelas, atualmente una em cada planta   porém múltipla em potência —; e vemos que ocorre o mesmo, para outras diferenças da alma, nos insetos que são cortados, pois também cada uma das partes tem sensação e movimento local, e, se tem sensação, também imaginação   e desejo, porque onde há sensação há dor   e prazer, e onde estão estes, há necessariamente apetite. Porém acerca do entendimento e da faculdade teorética nada ainda é claro, ainda que pareça ser um gênero   de alma diverso, e que somente ele pode separar-se do corpo, como o eterno do corruptível  . Quanto às partes restantes da alma, é evidente, depois do que dissemos, que não são separáveis, como alguns afirmam; mas é evidente que são racionalmente distintas, porque a faculdade sensitiva e a opinante são diferentes se o são também o sentir e o opinar  . E do mesmo modo para cada uma das demais que mencionamos. Por outro lado, em certos animais se encontram todas estas faculdades; em outros, algumas delas; em outros mais, somente uma (e isto constituirá a diferença   entre os animais); mais adiante investigaremos por que é assim. Algo semelhante acontece com as sensações, pois alguns animais as têm todas, outros só algumas, e ainda outros somente uma, a mais necessária: o tacto. (...)

Como dissemos, entende-se a substância   em três sentidos, um dos quais é a forma, outro a matéria e o terceiro o composto de ambas, e, destes, a matéria é potência e a forma ato. E como o composto de ambas é o ente   animado, o corpo não é a atualidade da alma e sim esta o é de um certo corpo. E por isto julgam bem aqueles que creem que a alma não existe sem corpo nem é um corpo: pois não é um corpo mas algo de um corpo, e por isto é inerente a um corpo, e a um corpo de certa índole, e não como nossos predecessores a adaptavam a um corpo, sem determinar ademais em qual e de que qualidades, embora não vejamos sequer que qualquer coisa admita qualquer outra. E o mesmo acontece também quanto ao razoamento, pois a atualidade de cada coisa advém naturalmente ao ente que o é em potência e à matéria adequada. Que a alma, portanto, é atualidade e forma do ente que tem potência para ser de tal maneira, torna-se evidente pelo que dissemos.

(De Anima, II, 2, 2-11, 13-15).


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