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Coomaraswamy (AKCCivi:113-114) – Peregrinação e Rito

terça-feira 27 de setembro de 2022

    

A peregrinação é um processo que vai da potencialidade à ação, do não-ser para o ser  , da escuridão para a luz  . Observe a mudança   de construção que há na quarta linha do primeiro verso; quem esteve sucessivamente em três estados de existência inferiores, visto que agora continua a andar (carari), atinge ou alcança (sampadyate) o estado   de Krta  . Não só Sampad implica “êxito” ou “consecução final” (neste sentido, compare com sampatti) como é também o caso de notar que sam (usado aqui como em sam-bodhi  , sam-bhoga, sam-bhu e similares) acrescenta o sentido de conclusão, perfeição ou universalidade à raiz à qual está prefixado. Sam também dá a qualquer raiz o significado de “com”; sendo assim, sampad não implica só entrar no que foi atingido, implica também coincidir com o que foi atingido, como vemos no Chandogya   Up VI .8.6: “vag manasi . . . sampadyage e VIII.3.4: [...].

Portanto Krta é a meta do nosso viajante. A passagem dele da potencialidade para a ação pode ser expressa com palavras conhecidas, dizendo que está em vias de se transformar em krtsna-karma  -krt (”alguém que executou a tarefa completa”, Bhagavad Gita IV.18) e krtakrtyah (”alguém que fez o que havia para ser feito”), Aitareya Aranyaka II.5 e Maitri Up. II,1 e VI.30). Não estamos absolutamente esquecendo que Kali, Dvapara, Treta e Krta são como os pontos obtidos no jogo de dados, respectivamente um, dois  , três e quatro, do mais baixo para o mais alto. Quando antes usamos as palavras “sorte” e “quinhão” estávamos pensando nisso; e no quarto verso poderíamos ter posto: “ele joga e ‘ganha’ Kali. . .” Mas o fato de serem empregados termos de um jogo, não exclui absolutamente uma conotação anagoica (paramarthika), de que temos um exemplo notável no jogo de damas em que até hoje, no vernáculo indiano, a pedra   que consegue atravessar o tabuleiro e atingir o lado oposto é coroada Rei e denominada kamacarin ou Entendedor libertado, que passa a se movimentar à vontade e pode ocupar qualquer casa   do tabuleiro. Do mesmo modo, não há necessidade   de tratar um significado de “lançamento de dados” e um significado de “eternidades” como alternativas incompatíveis. Do mesmo modo que na escolástica latina, em sânscrito essa palavra tem inúmeros sentidos, todos igualmente válidos; como acabamos de ver, kamacarin pode significar “peça de jogo coroada” e/ou “um entendedor”. Está no tradutor, se conseguir, descobrir palavras equivalentes que tenham inerente em si uma série correspondente de significados, e não apenas um desses significados.

E, finalmente, krtam implica “perfeição” e corresponde a krtatman ou “espírito   aperfeiçoado”, no sentido em que essa expressão   é usada no Chandogya Up. VIII.3: “Na qualidade   de krtatman estou regenerando o mundo não criado de Brahma   (akrtam)”. É comum ver a palavra sukrtatman empregada como “espírito aperfeiçoado” e, do mesmo modo que no Katha Up. Ill.i, Sankara   explica sukrta classificando-a como o mundo de Brahma por meio da paráfrase svakrta (que se fez a si mesmo  ), mas sem aceitar   a sua própria conotação ética (visto que, como está claramente afirmado em Chandogya Up. VIII. 13, “nem sukrtam nem duskrtam conseguem atravessar a Ponte do Espírito”; cf. Bhagavad Gita V.15 ou com a colocação de Eckhart  : “Lá jamais entraram vício nem virtude”), sustentamos que krtam = sukrtam (perfeição) e um sukrtatman, nas palavras do Taittiriya Up. II.7, “é dito ‘aperfeiçoado’ porque se fez a si mesmo” ([...]); cf. svayambhu = autogenes. Por isso, somente “continuando” ou “seguindo em frente” (cara-eva, cara-eva) podemos atingir a perfeição; mas quando esta perfeição houver sido atingida, veremos que não foi conseguida pelo nosso esforço, do qual só restarão as pegadas dos nossos pés no Caminho  , ou seja, o nosso esforço não terá sido essencial para a existência da nossa perfeição: terá sido apenas um dispositivo para que a percebêssemos. Como diz Eckhart, “quando eu entrar lá ninguém vai me perguntar de onde vim nem aonde fui”. O peregrino exausto passa então a ser o que sempre foi, se ao menos houvesse sabido disso: um Sopro do Espírito (marutah, Maitri Upanixade   II.i) e, como tal, não mais um mourejador (sramana), e sim pertencendo e estando dentro do Espírito que sopra enquanto escuta: [...], Rg Veda   X.168.4. Caraiva, caraiva.

Adendo – O caminho do peregrino, uma recensão budista

Omitimos uma boa parte do material relativo à questão do “Caminho do Peregrino”, mas mesmo assim gostaríamos de chamar a atenção   para as interessantíssimas adaptações budistas da história de Rohita que podem ser lidas no Samyutta Nikaya 1,61-62 e no Anguttara Nikaya 11,48-49. Nelas há um diálogo   entre o Buda   e o Rishi Rohitassa (Rohitasva ou Cavalo Vermelho), que havia pretendido chegar ao fim do mundo viajando ([...]), mas não havia conseguido e agora é um Deva-putto. Com uma tendência característica, a sequência budista faz parecer que Rohitassa havia sido suficientemente ingênuo para supor que o fim do mundo pudesse ser atingido simplesmente por meio de viagens contínuas, no sentido mais literal da palavra, e não houvesse compreendido que o necessário para isso era a continuação de um Modo de Vida. Adotando tacitamente esta suposição nada   plausível, o restante da versão budista é perfeitamente lógico. O que Buda diz está resumido nestes versos:

Jamais o fim do Mundo será atingido por (meras) viagens:
Contudo não há como nos livrarmos da dor   a não ser chegando ao Fim do Mundo.
Por isso, é bom que o homem   conheça o mundo, seja sensato,
chegue ao fim do mundo (lokantagu) e leve   uma vida santa (vusita-brahmacariyo).
Conhecendo o Fim do Mundo não ansiará mais por este mundo nem por outro, como quem está saciado (samitavi)”.

Agora o Rohitassa original percebe que “não é possível acabar com a dor   sem chegar ao Fim do Mundo” e diz: “Não, Senhor, neste mesmo corpo que mede uma braça, com todos os seus preceitos e pensamentos, proclamo que o mundo tem existência própria e também tem uma origem e um fim e, no que diz respeito a isso, seguimos da mesma forma o nosso caminho para o fim ou para a morte” ([...]).


Ver online : Ananda Coomaraswamy – O que é civilização?