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Boaventura Mente Deus II

domingo 20 de março de 2022

      

Boaventura   Elevar-se   a Deus   - A ELEVAÇÃO A DEUS POR MEIO DO UNIVERSO   (cont.)

9 Mas, como na escada de Jacó primeiro se sobe e depois se desce (cf. Gn 28,12), coloquemos, pois, na base o primeiro degrau de nossa ascensão a Deus e comecemos por contemplar todo este mundo sensível   coco um espelho   através do qual podemos chegar até Deus, o artista soberano. Nós seremos assim os verdadeiros israelitas que passam do Egito   à terra   prometida (cf. Êx 13,3 ss). Quer dizer, os verdadeiros cristãos que passam com Cristo   "deste mundo ao Pai   celeste" (Jo 13,1) e os verdadeiros amigos da sabedoria   que nos convida e nos diz: "Vinde a mim todos os que me desejais e eu vos saciarei dos frutos que levo" (Ecli 24,26). "Porque também da grandeza   e da beleza das criaturas se pode conhecer o Criador" (Sab 13,5).

10 O sumo poder do Criador, a sua sabedoria e a sua bondade resplandecem nas realidades criadas, conforme o revelam os sentidos corporais ao sentido interior   por três modos  . Com efeito, os sentidos externos servem a nous - inteligência  , quer ela raciocine, quer ela creia, quer ela contemple. Pela theoria   - contemplação a nous - inteligência considera a existência atual das coisas, pela pistis   - fé o seu curso habitual e pelo raciocínio a sua excelência   potencial.

11 Quando a nous - inteligência considera as coisas em si mesmas, seu olhar descobre nelas o peso, o número   e a medida: o peso que as faz tender a um lugar, o número que as distingue e a medida que as limita. E, assim, percebe nelas o seu modo de ser, a sua beleza e a sua ordem, como também a sua substância  , a sua potência e a sua atividade  . Eis como, pelo vestígio   das coisas criadas, a nous - inteligência pode elevar-se ao conhecimento (gnosis  ) do poder, da sabedoria e da imensa bondade do Criador.

12 Quando a nous - inteligência considera o mundo com os olhos da Fé, descobre-lhe então a origem  , o curso e o termo. Com efeito, a Fé nos revela que o mundo teve uma origem pelo Verbo   da vida. Revela-nos também que no curso do mundo três leis se sucederam: a lei natural, a lei escrita e a lei da Graça  . Nos diz, enfim, que este mundo terá término com o juízo   universal  . A nous - inteligência reconhece, destarte, na origem do mundo o poder, no seu curso a pronoias - providência e no término a dikaiosyne   - justiça do primeiro Princípio.

13 Finalmente, a nous - inteligência, prosseguindo suas indagações com o raciocínio, repara que alguns seres não possuem senão a existência, outros possuem a existência e a vida, e outros têm a existência, a vida e o discernimento. Os primeiros são os seres inferiores, os segundos intermédios e os terceiros os mais perfeitos. Vê também entre estes três que alguns são puramente corporais. Outros, ao invés, são em parte corporais, em parte espirituais (isto é: os homens). E de tudo isto deduz a existência de seres totalmente espirituais, mais perfeitos e mais dignos do que os precedentes (evidentemente, são os aggelos   - anjos).

Vê ainda que certos seres estão sujeitos à mudança   e à corrupção, como tudo aquilo que é terrestre. Outros são móveis mais incorruptíveis, como os corpos celestes. Compreende então que existem outros seres que são imutáveis e incorruptíveis, como aqueles que habitam acima do céu visível  . É assim que o mundo visível leva o nous - intelecto a considerar o poder, a sabedoria e a bondade de Deus — e fá-lo reconhecer que Deus possui o ser, a vida, a nous - inteligência, uma natureza espiritual, incorruptível   e imutável  .