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Abade Poimem 8

domingo 20 de março de 2022

    

Tradução do grego de D. Estevão Bettencourt O.S.B.

81. Disse mais: «Se desprezares a ti mesmo, terás tranquilidade  , qualquer que seja o lugar que habites».

82. Referiu também ter dito o Abade Sisoé: «Há um pudor   réu do pecado   de temeridade».

83. Disse também que a vontade própria, o repouso   (Isto é, a moleza do corpo) e a familiaridade   com uma e outro derrubam o homem  .

84. Disse ainda: «Se fores taciturno, terás tranquilidade   em todo lugar que habitares».

85. A respeito do Abade Pior   referiu que todos os dias punha um inicio (Mantinha sempre o fervor de quem começa).

86. Um irmão   perguntou ao Abade Poimém: «Se o homem for colhido por algum pecado e se converter, terá perdão junto de Deus  ?» O ancião respondeu: «Então Deus que mandou aos homens que perdoem, Ele mesmo não perdoará mais do que os homens? De fato, Ele preceituou a Pedro: ‘Até setenta vezes sete’» (Cf. Mt 18,22).

87. Um irmão perguntou ao Abade Poimém: «É bom rezar?» Respondeu-lhe este ter dito o Abade Antão: «É da face do Senhor que procede tal voz: ‘Exortai o meu povo, diz o Senhor, exortai-o’» (Is 40,1).

88. Um irmão interrogou o Abade Poimém: «Pode o homem deter todos os seus pensamentos e não entregar nenhum ao inimigo  ?» (Isto é: Pode o homem controlar todos os seus pensamentos, de modo que nunca peque por eles? — Veja-se o apoftegma seguinte.). O ancião respondeu: «Há quem tire dez   e entregue um».

89. O mesmo irmão propôs igual pergunta ao Abade Sisoé; o qual lhe respondeu: «Sem dúvida, há quem nada entregue ao inimigo».

90. Na montanha de Atlibes vivia um grande eremita que os ladrões assaltaram. Ora os vizinhos, tendo ouvido os seus gritos, prenderam os sal-teadores e os mandaram ao Governador o qual os colocou no cárcere. Então os irmãos ficaram tristes, dizendo: «Por causa   de nós   é que eles foram entregues à prisão  ». Levantaram-se, pois, e foram ter com o Abade Poimém, ao qual referiam o caso. Poimém escreveu ao ancião que fora assaltado, nestes termos: «Considera a primeira entrega, como ela se deu, e, a seguir, considerarás a segunda. Pois, se não te tivesses entregue primeiramente em teu interior  , não terias cometido a segunda entrega» [1]. Ora o ancião era famoso em toda a região e não saía da cela; ouvindo, porém, o conteúdo da carta do Abade Poimém, levantou-se e foi à cidade; ai tirou os ladrões do cárcere e os libertou publicamente.



[1Poimém queria dizer que, se o ancião não se tivesse entregue interiormente, se não tivesse apego aos bens que lhe haviam sido furtados, não teria tolerado a entrega dos ladrões à prisão, mas teria procurado desculpá-los e libertá-los.