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Caputo Desapego

domingo 20 de março de 2022

    

John Caputo   em sua análise do pequeno tratado de Eckhart   “Do Desprendimento  ” parte da consideração   de que é uma obra sobre o desapego ou desprendimento enquanto uma das mais altas de todas as virtudes. Sendo o coroamento das virtudes, que possui esta virtude possui todas as virtudes menores. O “desapego” não é uma das usuais virtudes morais que os filósofos tradicionalmente falam em seus tratados sobre ética. De fato, usando uma distinção de Kierkegaard  , poderia se dizer que o desapego não é uma categoria “ética” mas “religiosa”. Por conseguinte não só é a “mais alta” das virtudes, é também em outro sentido “superior” que qualquer virtude moral e ética. É melhor reconhecida pelo próprio exame   da palavra “Desapego - desapego” ela mesma. Literalmente afirma o estado   de ser “desligado” e “afastado” de algo (ab-shceiden). Em alemão moderno, Abschied significa “partida” e “das Abgeschiedene” significa “partido” no só sentido do morto. Mestre Eckhart usou a palavra do alemão da alta Idade Média, abegescheidenheit como uma tradução de “abstractus”, aquilo que é “destacado” e “removido” da matéria e de suas condições. Também usou para traduzir o latim “separatus  ”; assum “substância   separada” (substantia separata) — uma substância que existe separadamente da matéria — é dita por Eckhart “der abgeschiedene Geist. Mestre Eckhart também dá a esta palavra um distinto sentido “místico  ” também, que aquele que sustenta neste pequeno tratado “Do Desapego”. Aqui Abgeschieenheit significa o estado de ter se desprendido de sua afeição a   tudo criado e criatural, do “Mundo - mundo” e do “ego - eu”. É uma condição de “hagneia   - pureza” das coisas criadas do “apego” a elas. Não se refere a separação   física ou espacial mas ao desapego do “kardia   - coração” dos bens mundanos.

A chave para a afirmação de Eckhart que o desprendimento é superior a todas as outras virtudes se assenta no fato que Deus   Ele mesmo é puro desprendimento: “Pois Deus é Deus devido a Seu desprendimento imóvel  ; e do desprendimento Ele tem Sua hagneia - pureza e Sua simplicidade e Sua imutabilidade”.

Deus é “desprendido” para Eckhart porque Ele é a mais alta, mas completamente “separada” substância possível — o ens separatissimum, se se quer. Ele é o mais totalmente removido da matéria e da particularidade. Deus não é “nem isto nem aquilo”, Mestre Eckhart afirma. Não é nenhum “ente  ” particular porque Ele é puro “ser” ele mesmo ou melhor — e isto quer dizer o mesmo para Mestre Eckhart — porque Ele é um puro Nada - nada. Assim desprendido das criaturas. Deus é separado e desprendido de todo ente: ele é “Nada - nada”. Assim desprendido das criaturas, Deus é também removido de toda mudança   e multiplicidade. Por conseguinte Eckhart refere-se ao desprendimento “imovível” de Deus. Ilustra isto paradoxalmente: Deus é completamente removido das criaturas, tão destacado e intocado por elas, que Ele é completamente não afetado pelo fato que Ele mesmo as criou — de tal maneira que Ele seria o mesmo se não as criasse. Assim, Ele é tão completamente removido das criaturas que Seu Ser não é afetado pelas orações que a Ele dirigimos e pelas boas obras que fazemos. O que estes paradoxos realmente afirmam, Eckhart explica, é que o Ser de Deus é uma simplicidade perfeitamente imutável   que é totalmente intocada por todas as fortunas das criaturas. Isto porque Deus criou o mundo, em um momento eterno, e ouviu a todas as orações e tratos das criaturas e considerou o valor   de todas as suas boas obras: “E assim Deus teve em Seu primeiro eterno olhar visualizado todas as coisas; e Deus nada fez de novo, posto que tudo operou-se de antemão (vorausgewirkt)”.