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Egito Lua

domingo 20 de março de 2022

      

Tradução anotada de Antonio Carneiro

O Egito  , que é nosso ponto de encontro mais certo com as relíquias do pensamento   pré-histórico, demonstra-nos. Uma de suas mais antigas (e persistente) tradição nos diz:

«O Olhar-Lua   fugiu pelo deserto   sob a forma de uma Leoa. É Thot (o espírito do cálculo, do ciclo   e da metamorfose   «da Lua Nova», cabeça de Ibis com fino bico curvo) que a faz reaparecer».

Este poder temível, é Sekhmet, Sek.Mis [1] cujas representações são numerosas : Redonda cabeça de Leoa, ora simples, ora aureolada pelo disco da Lua Cheia. Esse disco pode se inserir entre os chifres do Touro, para marcar uma circunstância   anual sobre a qual explicaremos mais adiante. A silhueta humana sentada tem o Nó - nó sagrado   Tit [2], signo   da Vida eterna; de pé, ela sustém... o Bastão da Vida. Esses são os atributos próprios de Osíris, senhor do Além.

Nós nos movemos, durante este estudo, em um círculo restrito de símbolos de grande homogeneidade.

Os vocábulos sagrados, também revelam a mesma coerência, certamente herdada de uma cultura pré-histórica transmitida aos egípcios como aos indo-europeus, mas anterior   a eles.

Assim o tema MeT [3], implica os conceitos lunares de Cabeça cortada, feitiçaria, cálculo dos ciclos e borbulhamento dos líquidos.

Presente   em Sek-Met [4], relampeja em Medousa [5], a MEDUSA, Cabeça cortada, herdada também ela de uma cabeça de Felino.

Basta comparar os traços dos Leões funerários, guardiões do Além, da Górgona antefixa em terracota, protetora do Raio  , da Trinidade leonina do templo   de Ártemis — Górgona de Corfou, da multidão de Esfinges, para constatar que essas imagens são variantes herdadas de uma mesma imagem sagrada, onde o rosto redondo progressivamente se humaniza em rosto de mulher  , a medida que desaparecem os ritos   totêmicos e xamânicos em proveito de uma religiosidade antropomórfica.

Nessa passagem progressiva da figura de Leão - Felino à figura humana, a Górgona de Corfou (arcaísmo grego) marca   exatamente a charneira, seus dentes  /presas são ainda aqueles de um carnívoro, e sua cabeleira é intermediária entre o brinco e a juba.

Mesmo suavizado em Esfinge, o «Leão das Chuvas e dos Ventos» como disse Homero   [6] , permanecerá sempre evocador do espaço, por sua posição no topo ou suas asas, de Água despejada de chorrilho (reinará muito tempo sobre as fontes, desaguando água), e de passagem em uma outra vida.

Assim o Felino noturno que vos coloca em transe   na descarga vital ou mortal   da Tempestade, o Felino vindo do Além, vemos seu rosto luminoso errar, sem corpo, e progressivamente, de noite em noite «se mascarar de negro» até desaparecer inteiramente as noites sem lua.

Esse rosto de Felino tornou-se progressivamente rosto humano gorgoniano, bochecha, sobre fundo de noite, um jogo   enigmático com as constelações.

Jogo visual foi-se: Theaô — contemplo religiosamente — Astra — os astros —: Teatro   - THE-ATRE.

Como Dioniso  , que está ligado a esses conceitos, não teria deixado entre os Gregos a lembrança de uma divindade presidindo às primeiras manifestações do Teatro?

Mas aqui se coloca uma questão, que pede como resposta   um « mito   explicativo »...



[1S.K.M.T ou S.KM.S M.S à se aproximar de Arte-Mis : RT M.S

[2NT: Nó sagrado Tit também grafado como Tyet. La puissance de l’éphémère et les réseaux de l’invisible; Christian Weckerlé; ; Quaderni; 1987; volume 3; numéro 3; pp. 51-58.

[3MT ou M.D. : Met, Mit, Med, Mid

[4Como em Medeia a «feiticeira»

[5Em grego clássico : «aquela que resolve» (medaô)

[6NT: Referência ao Canto VI da Odisseia.