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Consolatio III

domingo 20 de março de 2022

    

Filosofia Antiga
R.A.Ulmann: Plotino  
O hino da nona poesia do terceiro livro da Consolatio   philosophiae desenvolve um movimento   dialético de processão   (proodos), a partir do Uno   ou Bem, e retorno (epistrophe  ) a ele. O esquema geral da via de descenso de todas as coisas, a partir do Uno, e da via de retorno a ele teve grande difusão no medievo (v. Queda e Ascensão  ). A via de descenso e de retorno foi utilizada pelos filósofos árabes, desde o século VI, e por alguns judeus, a partir do século VII [1]. Tem Deus   como centro  . O Uno   permanece imóvel (stabilis manens); é princípio (principium) e terminus (fim). O mundo está presente  , antecipadamente e eminenter   [2], no intelecto   divino   (mundum mente   gerens). Sem inveja   (livore carens), produz as coisas, devido à sua superabundância. Nenhuma causa   externa o impeliu a criar (quem non externae pepulerunt causae); tudo produz por amor donativo e governa com a razão (perpetua ratione gubernat).

O mundo representa uma imagem do arquétipo (similique in imagine formans), tudo é atraído pelo Uno (epistrophe) (ad te reduci facis), completando o círculo: processão e retorno. Assim, o Uno é Alfa e Ômega [3], caracterizado como pulcherrimus ou princípio da Beleza.

No hino em referência, Boécio emprega três anáforas - Tu, tu, tu acentuando o caráter de exclusividade do Uno no comando do universo  . Conclui com uma invocação   a Deus - pater   - [4], o qual é descanso tranquilo para as almas pias, que, num esforço pessoal, se auto-superaram pela contemplação   precedida da abstração   radical de tudo que é estranho ao Uno. É mister espancar as nuvens da opinião   (nubes terrenas) e livrar-se dos pesos de chumbo que prendem a alma   à terra  . Desimpedida de tudo, a alma fixa os olhos no Uno-Bem e liberta-se da caverna   platônica, sem olhar para trás [5]. Acha-se, então, no gozo da plena felicidade   [6].

Quem, por essas achegas, não vê retratado, no hino de Boécio, o pensamento de Plotino?



[1Os sufis (sufistas), filósofos árabes, quase todos expõem o esquema do descenso e ascensão. Os As’aries, teólogos ortodoxos, combateram a tendência dos sufis. A doutrina do descenso (proodos) dos filósofos árabes penetrou na Espanha, já no século V; ao tratarem da epistrophe, alguns sufistas místicos dizem que a união com Deus consiste na absorção da alma em Deus. (Sufismo é um sistema ascético-místico que afirma ser o espírito humano uma "emanação" do divino no qual deseja reintegrar-se). (Cf. Plotino. Porfírio. San Agustín (Salamanca, 1989), p. 62-74).

[2"Secondo la concezione neoplatonica dell’Unità e della sorgente che si riversa, l’Essere di Dio attraverso o nel suo atto creativo non toglie se stesso, esso permane immutabile in sè, assolutamente se stesso" (BEIERWALTES, Werner, Pensare 1’Uno (Milano. 1991), p. 281-282).

[3"II modello piu generale di questo movimento dialettico è l’operare dell’Uno o Bene che nell’agire permane in sè ed assoluto: esso è il fondamento e l’inizio che dona, che rende partecipe delia sua Bontà e Unità e cosi costituisce l’Essere, ma insieme è anche il fine dei movimento di cio che si sviluppa da lui" (id., ibid.. p. 281).

[4Entre os gregos, só o estoico Cleantes, em seu famoso hino, denominou Zeus de "pai".

[5Cf. En. VI, 8, 11,4-5.

[6"L’esperienza della quiete e la serenità non equivale pero ad un addormentamento di ogni questione e pensiero, bensí a loro compimento piu intensivo, in analogia con 1’approdo, espresso per via di metafora, nel ‘porto místico’ " (BEIERWALTES, Werner, Pensare..., p. 287).