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Platão: República X

sábado 9 de abril de 2022

      

PLATÃO - REPÚBLICA X

O Livro X tem aparecido à maioria dos comentadores como um suplemento ou um apêndice. Exemplo representativo dessa posição   é R. L. Nettleship, que chega a encontrar vestígios de mais de uma redação do mesmo tópico (Lectures on the Republic   of Plato  , p. 341) e a supor que Platão teria dois   planos em mente   para acabar o diálogo   (ibidem, p. 355). V. Goldschmidt ainda é mais incisivo, quando afirma que se, a seguir ao Livro IX, estivessem as conclusões de X. 612a seqq., ninguém suspeitaria de uma lacuna (Les Dialogues de Platon, p. 300). Mais recentemente ainda, R. C. Cross and A. D. Woozley (Plato’s Republic. A Philosophical Commentary, p. 263) observam que, apesar da sua importância, o Livro X deve ser considerado um apêndice.
[No mesmo sentido, mas numa atitude muito crítica, se pronunciou Julia Annas, An Introduction to Plato’s Republic, cap. 14, que classifica este livro de "gratuito e confuso" e muito abaixo dos outros, quer no nível de argumentação, quer no da arte literária (p. 355). Diferentemente, N. P. White, A Companion to Plato’s Republic, p. 29, considera-o ao mesmo tempo   um epílogo e uma contrapartida do Livro I, destinados a completar ideias que ficaram de lado nos Livros II a IX].

A discussão tinha já terminado, com o contraste entre a vida do homem   justo e a do injusto, e conclusão sobre a superioridade   daquela - respondendo, portanto, à asserção de Trasímaco em I. 343a-344c, 347 e retomada em II. 360e-361d. Mas Sócrates   reabre o diálogo, para precisar a importância das disposições sobre a poesia, que hão-de observar  -se na cidade fundada (X. 595a).

Deste modo se retoma, agora em larga escala, o tema da condenação da poesia «que consiste na imitação  » [mimesis], esboçado nos Livros II e III.

Podemos supor, como P. Shorey e F  . M. Comford, que Platão se viu na necessidade   de se defender contra a celeuma levantada pelas afirmações sobre o tema, feitas naqueles mesmos livros [1]. Mas a importância da poesia na vida grega justifica a expansão dada a este ataque  . Embora desde os finais do séc. VI a.C. a escrita estivesse divulgada, e desde o séc. V houvesse um comércio de livros apreciável [2], a verdade   é que era a poesia oralmente transmitida (quer pelos rapsodos, quer pelos atores dramáticos) o principal meio de educação e veículo de conhecimentos. Esta transmissão intersubjetiva do saber é um aspecto característico e fundamental da cultura grega, bem visível, aliás, nos próprios diálogos de Platão. E não esqueçamos que, mesmo para extensas narrativas em prosa, como eram as eram as Histórias de Heródoto, não estava excluída a prática da recitação perante um grande auditório.

Um passo de Xenofonte — posto na boca do mesmo Nicérato que já referimos atrás, por ser também uma das figuras da República — é extremamente elucidativo quanto ao valor   atribuído, em especial, ao conhecimento dos Poemas Homéricos [3]:

Podeis ouvir   de mim como haveis de vos tomardes melhores, se comigo conviverdes. Sabeis sem dúvida que Homero  , o mais sábio de todos, poetou sobre quase todas as atividades humanas. Portanto, quem quiser tomar-se um bom administrador   da sua casa  , orador público, ou general, ou semelhante a Aquiles, Ajax, Nestor ou Ulisses, que fale comigo, porque eu sei disso tudo.

E precisamente este ponto que Platão ataca, quando, em ligação com a teoria   da imitação que acaba de expor, e a conclusão a que chegara, de que ela estava três pontos afastada da realidade  , imagina que se dirige a Homero e lhe pergunta [4]:

Meu caro Homero, se, relativamente à virtude  , não estás afastado três pontos da verdade, nem és um fazedor de imagens, a quem definimos como um imitador, mas estás afastado apenas dois, e se foste capaz de conhecer quais são as atividades que tornam os homens melhores ou piores na vida particular, ou pública, diz-nos que cidade foi, graças a ti, melhor administrada, como sucedeu com a Lacedemônia, graças a Licurgo, e com muitas outras cidades, grandes e pequenas, devido a muitos outros? Que Estado   te aponta como um bom legislador que veio em seu auxílio? A Itália e a Sicília indicam Carondas, e nós, Sólon. E a ti, quem?

Esta condenação da poesia já há muito que foi vista como tendo um sentido mais profundo que a simples exclusão do elemento   lúdico da psicologia humana e a negação do valor paradigmático das figuras que retrata [5]. Assim, J. Adam   reconhece que a República é «em certo sentido um requerimento para que a Filosofia tome o lugar   que a Poesia até aí tinha preenchido na teoria e na prática educativa».

Mais recentemente, é esta também a interpretação de E. A. Havelock [6], que considera mesmo que todo o diálogo é um ataque ao sistema educativo grego então em vigor, ataque esse que ao mesmo tempo constitui o melhor documento da crise da cultura grega «que viu a substituição de uma tradição oral decorada por um sistema de instrução e educação completamente   diferente» [7].

Tomaremos, mais adiante, à discussão desta teoria. Antes disso, porém, temos de voltar a nossa atenção para o outro tema maior deste grandioso finale: o mito   de Er. Examinemos primeiro o modo de transição.

Logo a seguir ao celebérrimo passo da condenação da poesia, o próprio   texto proclama as razões que teve para tanto (X. 607b):

Aqui está o que tínhamos a dizer, ao lembramos de novo a poesia, por, justificadamente, excluirmos da cidade uma arte desta espécie. Era a razão que a isso nos impelia.

A cidade ideal quer preservar a justiça a todo o custo (X. 608b):

É um grande combate  , meu caro Gláucon, é grande, e mais do que parece, o que consiste em nos tomarmos bons ou maus. De modo que não devemos deixar-nos arrebatar por honrarias, riquezas, nem poder   algum, nem mesmo pela poesia, descurando a justiça e as outras virtudes.

A grande virtude que se tem estado a definir   proporciona altos prêmios e recompensas, de uma magnitude que ultrapassa a curta duração da vida humana. Deste modo, Sócrates introduz a doutrina da imortalidade da alma  , já expressa no Fédon [8], e, ao mesmo tempo, prepara-nos para uma réplica às grosseiras doutrinas de felicidade   no além a que fizera respectiva alusão no Livro II (363c-e). (PLATÃO. A República. Tr. Maria Helena da Rocha Pereira. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2017)

  • REP X 595a-608b — Problemas da poesia e da imitação
  • REP X 597e-601b — Imitar sem saber: o pintor e o poeta
  • REP X 601b-602b — Três espécies de arte
  • REP X 602b-603b — Imitação e funções da alma
  • REP X 603b-605c — O poeta imitador
  • REP X 605c-608b — Funestos efeitos da tragédia   e da comédia
  • REP X 608c-614a — A imortalidade da alma
  • REP X 614a-621d — Descida aos Infernos: o mito de Er  

[1P. Shorey (What Plato Said, p. 248) e F. M. Comford (The Republic of Plato, p. 321). Seria, portanto, uma explicação paralela à da relação entre o Livro V e As Mulheres na Assembleia de Aristófanes, nos moldes em que alguns a imaginam (vide supra, pp. xvi-xviii e n.43,p. xvi).

[2As provas de um e outro facto encontram-se nos nossos Estudos de História da Cultura Clássica, I pp. 18-19. (Mesma paginação na 8.a ed., 1980.)

[3Banquete IV. 6. Esta maneira de ver perdurou através da Antiguidade toda: na época romana, vamos encontrá-la em Estrabão (I. I.2) e em Pausânias (IV. 28.7-8).

[4X. 599d-e. Não tentaremos sequer pôr o problema da cronologia relativa das duas obras, de que, de resto, aqui só nos interessa confrontar estes passos como representativos de tendências opostas.

[5O passo desencadeou, como é sabido, uma longa série de defesas da poesia, de que as mais célebres são a Poética de Aristóteles e a Defence of Poetry de Shelley.

[6Preface to Plato, cap. 1, especialmente pp. 12-13.

[7Op. cit, p. 198. P. Friedländer (Plato, 3, p. 87) supõe mesmo que, no Livro III (392c-398b), ao atacar a poesia mimética, Platão está a sugerir «que lugar deve destinar-se, no seu Estado ideal, à sua própria obra literária - aos seus diálogos, onde narração e mimese, assim como tragédia e comédia, estão combinados e são superados pela filosofia».

[8Sobre as diferenças entre as provas da imortalidade da alma apresentadas no Fédon, República e Fedro (que justamente levam a supor a sua composição na ordem em que as enumeramos) e ainda noutros diálogos, veja-se, entre outros, R, Hackforth, Plato’s Phaedo, Cambridge, repr. 1972, pp. 11 e 21-22.