Página inicial > Antiguidade > Arendt: «Romanização» da filosofia grega

Arendt: «Romanização» da filosofia grega

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Excertos de Hannah Arendt  , A VIDA DO ESPÍRITO

A opinião   comum sobre a filosofia foi formada pelos romanos, que se tornaram os herdeiros da Grécia. Ela traz a marca   não da experiência romana original, que foi exclusivamente política (e que encontramos em sua forma mais pura em Virgílio), mas do último século da República   romana, quando a res publica, a coisa pública, já estava se perdendo, até finalmente tornar-se propriedade privada da família imperial, após a tentativa de restauração   empreendida por Augusto  . A filosofia, bem como as artes e as letras, como a poesia e a historiografia, tinha sido importada da Grécia. Em Roma, enquanto a coisa pública permaneceu intacta, a cultura foi encarada com alguma suspeita. Mas foi também tolerada e até admirada como um passatempo nobre para as pessoas de boa educação   e como uma maneira de embelezar a Cidade Eterna. Apenas nos séculos de declínio e queda, primeiro da República, depois do Império, essas atividades tornaram-se "sérias" e a filosofia, por sua vez, e apesar do legado grego, tornou-se uma "ciência", a animi medicina  , de Cícero — o oposto do que tinha sido na Grécia. Sua utilidade era ensinar aos homens como curar seus espíritos desesperados, escapando do mundo através   do pensamento  . Sua famosa divisa—que quase parece ter sido formulada em oposição ao espanto   admirativo platônico — tornou-se nil admirari, não surpreender-se com nada, nada admirar.

Mas não é apenas a imagem popular da figura do filósofo, o homem   sábio   a quem nada perturba, que devemos à herança romana. O famoso dito de Hegel   sobre a relação   da filosofia com a realidade   ("A coruja de Minerva só levanta voo depois de começado o crepúsculo") traz mais a marca da experiência romana do que da grega. Para Hegel, a coruja de Minerva representava Platão e Aristóteles   surgindo, por assim dizer, dos desastres da guerra   do Peloponeso. Não a filosofia, mas a filosofia política de Platão e de Aristóteles nasceu do declínio da polis, "uma forma de vida que havia envelhecido." Em relação a essa filosofia política, a observação   brilhantemente impertinente de Pascal   em Pensées é de uma adequação evidente  :

Só conseguimos imaginar Platão e Aristóteles vestindo as grandes túnicas de acadêmicos. Eles eram pessoas de bem e, como as outras, riam com seus amigos; e quando quiseram se divertir escreveram as Leis e a Política. Essa parte de suas vidas foi a menos filosófica e a menos séria. [...] Se escreveram sobre política foi como que para pôr   ordem em um hospício; e se deram a impressão   de estar falando sobre uma grande coisa, é porque sabiam que os loucos a que falavam pensavam ser reis e imperadores. Adotaram seus princípios para tornar a loucura deles o mais inofensiva possível.

De qualquer modo, é patente a profunda influência romana mesmo sobre um filósofo tão metafísico como Hegel, no primeiro livro que publicou, em que discute a relação entre filosofia e realidade: "A necessidade   da filosofia surge quando o poder unificador desapareceu da vida dos homens, quando os opostos   perderam a tensão viva de sua relação e sua dependência mútua para se tornarem autônomos. É da desunião, da desavença que nasce o pensamento" ou seja, a necessidade de reconciliação ("Entzweiung ist der Quell des Bedürfnisses der Philosophie"). O que há de romano na noção   hegeliana de filosofia é que o pensamento não surge de uma necessidade da razão, mas tem uma raiz existencial na infelicidade. Hegel, com seu grande sentido histórico, reconheceu muito claramente o caráter tipicamente romano dessa raiz no seu tratamento do "mundo romano", em suas conferências tardias publicadas sob o título de Filosofia da história. "O estoicismo  , o epicurismo e o ceticismo..., embora... opostos um ao outro, tinham o mesmo propósito, a saber, tornar a alma   absolutamente   indiferente a tudo o que o mundo real tinha a oferecer  ." O que ele aparentemente não reconheceu, contudo, é até que ponto generalizou a experiência romana: "A História do Mundo não é o teatro   da felicidade  . Os períodos de felicidade são as suas páginas em branco, pois esses são períodos de harmonia  ." O pensamento, então, surge da desintegração da realidade e da resultante desunião entre homem e mundo, da qual surge a necessidade de um outro mundo, mais harmonioso e significativo.