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Brun: Destino do heraclitismo

sexta-feira 25 de março de 2022

    

A sofística de Protágoras   reterá de Heráclito   a tese do fluxo ininterrupto do testemunho sensível   e extrairá a conclusão de que, dado que tudo muda e que as sensações são o nosso único meio de conhecimento, devemos ater-nos a um imobilismo e a um subjetivismo agnóstico, que faça do homem   individual a medida de todas as coisas, medida momentânea que jamais permanece igual a si mesma.

Platão, provavelmente através   de Crátilo  , guardou do Efésio a ideia de que todas as coisas são arrastadas pelo devir para a corrupção e a morte. Mas, para Platão, o devir reina apenas no mundo sensível   e torna indispensável a referência às Ideias eternas, que são as medidas imutáveis do que devém.

Entre os antigos conviria citar ainda Eróstrato, que imortalizou o seu nome incendiando o templo   de Éfeso, para que a sua recordação permanecesse gravada na memória dos homens. Encarna posteriormente o gosto   das aventuras no ser em catástrofe, sejam aventuras de ordem individual ou política.

Marx   e Lenine viram em Heráclito o pai   do materialismo dialéctico. Mas é sobretudo [1] Hegel   e Nietzsche   que conviria citar. Hegel reivindica Heráclito como precursor; ora, parece bem que o faz de forma absolutamente   injustificável. Com efeito, o hegelianismo é uma filosofia da história, noção   completamente estranha a Heráclito. Além disso, como bem mostra a teoria   do Eterno Retorno, o devir heraclitiano não é um devir do Ser, mas um devir no Ser. O devir é essencialmente cíclico, pelo que a noção de Aufhebung tinha de ser-lhe totalmente desconhecida.

Menos ainda devem aproximar-se de Heráclito as concepções dialécticas, que fazem do homem o ser criador de um sentido que vai alterando sem cessar, ao longo da história. Heráclito, convém não esquecer, não é apenas o filósofo do devir, é também o filósofo do Logos  .

Nietzsche pretendeu ver em Heráclito o filósofo que anuncia a «inocência do devir». Utilizando o processo   retórico da prosopopeia, fá-lo falar assim: «Vejo apenas o devir. Não vos deixeis iludir! É a vossa vista curta e não a essência   das coisas que é a causa   de acreditardes perceber um pouco de terra   firme   no mar do devir e do transitório. Dais nomes às coisas como se tivessem uma duração determinada, mas o próprio   rio a que desceis pela segunda vez não é o mesmo que antes.» [2] Segundo Nietzsche, Heráclito seria o filósofo que, de antemão e de uma vez por todas, teria derrubado todos os platonismos, ao afirmar   que não há cópia ou modelo, mas somente um devir, pelo qual o sábio   deve deixar-se arrastar. O jogo   cósmico daria à existência a embriaguez de um salto em frente e de uma perpétua gênese para além do bem e do mal. Mas semelhante estetismo niilista encontra-se nos antípodas do que Heráclito afirma. Ele não nega de modo nenhum o Modelo, pois escreve que «o mais sábio dos homens comparado com a divindade   assemelha-se a um macaco, quanto a sabedoria, a beleza e a tudo o mais» (fgt. 83). Não há lugar, em Heráclito, para um êxtase no e pelo devir, mas para um Sentido que domina o que flui.

Falando de Heráclito, Karl Jaspers (1883-1969) escreve: «Sendo o Englobante, o Logos é simultaneamente indeterminado   e infinitamente determinável» [3]; o mesmo se passa com o pensamento   de Heráclito, que se revela, escondendo-se.


Ver online : HERÁCLITO


[1Cf. em Kostas AXELOS, Héraclite et la philosophie, p. 215, uma visão sinóptica acerca da influência do pensamento de Heráclito.

[2La naissance de la philosophie, trad. G. BIANQUIS, p. 55.

[3K. JASPERS, Les grands philosophes, trad. franc., Paris, 1963, p. 618.