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Gobry: arche

sexta-feira 25 de março de 2022

    

arkhé   (he) / arche: princípio. Latim: principium.

Causa   original, Realidade primeira da qual procedem as outras no universo  . Essa palavra pode ter dois   sentidos:

  •  cosmológico: o Princípio é então um corpo material (pré-socráticos  );
  •  metafísico: o princípio é então uma Realidade impessoal, que pode assumir o nome de Mónada (Pitágoras  ), de Uno (Parmênides  , Plotino  ), de Essência   (Platão  ).

    Platão, que emprega abundantemente a palavra arkhé, dá uma definição dela em Fedro   (245c-d):«0 Princípio é o Inengendrado (agéneton), pois é necessário que tudo o que vem do ser venha a partir de um princípio, ou seja, daquilo que não procede de nada.» Portanto, é aquilo que está primeiro na existência e engendra a sequência dos outros seres.

    Aristóteles   definiu o Princípio, mas de modo bastante vago. Em Metafísica   (A, 1), dedica a essa palavra a primeira de suas notas. Atribui-lhe cinco   sentidos:

  •  ponto de partida (de uma linha, de uma rota); há então um princípio simétrico, que é o ponto de chegada;
  •  o melhor começo (arte pedagógica);
  •  o que é primeiro e imanente no devir (fundações de uma casa  );
  •  a causa não imanente que precede (o pai   e a mãe para o filho);
  •  a vontade livre de um ser racional (princípio dos acontecimentos) .

    Em Física (I, 1, 184a), procedendo à história das teorias, Aristóteles atribui aos elementos   primeiros entre os jônios (os Fisiólogos) o nome de princípios. Em Metafísica (A, 5), ele o atribui às grandes realidades originais de certos filósofos anteriores a ele: o Número   em Pitágoras, o Uno   em Xenófanes  , o Ser   em Parmênides.

    Para os primeiros jônios, chamados por Aristóteles de Fisiólogos, o Princípio é um elemento cósmico  .

    O primeiro deles,Tales de Mileto  , declara que é a Água (Aristóteles, Met., A, 3; Cícero  , De nat. deor., I, 10, 23; Pseudo-Plutarco  , Placit., I, 3; D.L., I, 27). Aristóteles atribui essa «descoberta» à observação  , lembrando que a primeira mitologia grega vê o Oceano como origem do mundo; Nietzsche   declara que essa é uma ideia genial. Na verdade, é uma simples herança das cosmogonias orientais. Tales era de origem fenícia e conhecia bem os mitos semíticos. A Cosmogonia caldeia, livro sagrado   da tradição   babilônica, do qual Damáscio   e Berósio conservaram alguns fragmentos, afirma: «Na origem, a totalidade dos territórios era mar.» O Enuma Elis, outra narrativa babilônica sobre a criação, diz: «Quando no alto o céu não era denominado, quando embaixo a terra   não tinha nome, do oceano Apsu, pai deles, e de Tiamat, a tumultuosa, mãe de todos, as águas se confundiam em Um.» O Livro dos mortos, que é o texto mais antigo do Egito   diz: «No começo, só havia o Noun  , abismo   da água primordial»; ora, a Fenícia dominou culturalmente o Egito a partir do terceiro milênio; de qualquer modo, Tales passou algum tempo no Egito, onde recebeu os ensinamentos dos sacerdotes (D.L., I, 27).

    O sucessor de Tales na direção   da Escola de Mileto, Anaximandro  , escolheu como Princípio originário o indeterminado   (ápeiron / apeiron). (v. essa palavra). O terceiro chefe da escola,Anaxímenes   (f526), estabeleceu como primeiro princípio o ar (aér / aer  ).Tem-se aí também um velho mito   fenício. Encontra-se essa teoria   em Diógenes de Apolônia (século V). Por fim, Hípaso de Metaponto (século VI) e Heráclito   de Éfeso (f480) adotam como primeiro Princípio o fogo   (pyr).

    Os itálicos, filósofos de origem jônia, mas instalados no Sul   da Itália (Magna Grécia), apresentam Princípios metafísicos. Para Pitágoras, é o Número, porém mais precisamente a Mônada, Unidade   original do ser. Para Xenófanes (século VI), o Uno primeiro é um Deus   único e incorpóreo  ; para Parmênides, seu discípulo  , é o Ser, Uno no sentido de Único, pois ele não admite nenhum outro; para Anaxágoras  , o Princípio original é duplo: uma matéria informe inerte e um Espírito   absoluto dinâmico que dela extrai o universo em sua variedade. Para Empédocles  , são o amor (philótes / philotes) e o ódio (neikos   / neikos), mas na medida em que unem e desunem os elementos preexistentes, que são os quatro clássicos, v. stoikheia. Platão não tem posição   fixa: as Essências, tomadas coletivamente, no Fédon  ; o Ser no Sofista  ; o Bem na República  ; Deus nas Leis. Em Aristóteles, o Princípio é o primeiro Motor, que se confunde com a Inteligência e o Bem (Met., A, 6-7). Mas, no que se refere aos seres da Natureza (tà physei ónta), ele considera três princípios: a matéria (hyle  ), a forma (morphé / morphe  ) e a privação   (stéresis / steresis) (Fís., I, 7). Em Plotino, o Princípio é o Uno, que é ao mesmo tempo o Bem. [Gobry  ]