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Fédon 114c-116a — Lição do mito

sexta-feira 25 de março de 2022

    

Do que vos expusemos, Símias, precisamos tudo fazer para em vida adquirir virtude   e sabedoria, pois bela é a recompensa   e infinitamente grande a esperança  .

Afirmar  , de modo positivo, que tudo seja como acabei de expor, não é próprio   de homem   sensato; mas que deve ser assim mesmo ou quase assim no que diz respeito a nossas almas e suas moradas, sendo a alma   imortal como se nos revelou, é proposição   que me parece digna de fé e muito própria para recompensar-nos do risco em que incorremos por aceitá-la como tal. É um belo risco, eis o que precisamos dizer a nós   mesmos à guisa da formula de encantamento  . Essa é a razão   de me ter alongado neste mito  . Confiado nele; é que pode tranquilizar-se com relação   a sua alma o homem que passou a vida sem dar o menor apreço   aos prazeres do corpo e aos cuidados especiais que este requer, por considerá-los estranhos a si mesmo   e capazes de produzir, justamente, o efeito oposto. Todo entregue aos deleites da instrução  , com os quais adornava a alma, não como se o fizesse com algo estranho a ela, porém como joias da mais feliz indicação: temperança, justiça, coragem  , nobreza e verdade  , espera o momento de partir para o Hades   quando o destino o convocar. Vós também, Símias e Cebete, acrescentou, e todos os outros, tereis de fazer mais tarde essa viagem  , cada um no seu tempo  . A mim, porém, para falar como herói   trágico, agora mesmo chama-me o destino. Mas esta quase na hora de tomar o banho. Acho melhor fazer isso antes de beber o veneno, para não dar às mulheres o trabalho de lavar o cadáver  .

Depois de dizer essas palavras, falou Critão  : Está bem, Sócrates  ; porém que determinações me deixas ou a estes aqui, a respeito de teus filhos, ou o que mais poderemos fazer por amor de ti, que nos fora grato executar?

O que sempre vos digo, Critão, foi a sua resposta  ; nada tenho a acrescentar: se cuidardes de vós mesmos, tudo o que fizerdes será tanto por amor de mim e dos meus como de todos, ainda mesmo que nada me tivésseis prometido neste momento. Porém no caso de vos descuidardes de vós mesmos e de não orientardes a vida como que no rastro do que vos disse agora e no passado  , por mais numerosos e solenes que fossem vossos juramentos neste instante, não avançareis um único passo.

Quanto a isso, respondeu, esforçar-nos-emos para viver   dessa maneira. Mas, como devemos sepultar-te?

Como quiserdes, disse; basta que segureis de verdade e que eu não vos escape.

Depois, sorriu de mansinho e disse, olhando para o nosso lado: Não consigo, senhores, convencer Critão de que eu sou   o Sócrates que neste momento conversa com ele e comenta seus argumentos; toma-me por quem ele irá ver morto dentro de pouco. Por isso pergunta como deverá sepultar-me. Quanto ao que vos tenho dito tantas vezes, que depois de beber o veneno não ficarei convosco mais irei compartilhar da dita dos bem-aventurados, ele acha que eu só falo assim para tranquilizar-vos e a mim também. Servi-me, pois, de fiador junto de Critão, porém que seja essa fiança o oposto da que ele prestou perante os juízes. Empenhou, então, a palavra em como eu ficaria; por vossa vez, afirmai-lhe, que não ficarei depois de morto, porém sairei daqui e partirei, para que ele se mostre mais paciente e não se aflija tanto por minha causa  , quando vir queimarem ou enterrarem meu corpo, no pressuposto de que eu esteja sofrendo enormemente, nem diga nos meus funerais que expõe Sócrates, ou o carrega, ou o sepulta. Fica sabendo, continuou, meu admirável Critão, que a imprecisão da linguagem, além de ser um defeito   em si mesma, produz mal às almas. Importa criares coragem e dizer que é meu corpo que vais enterrar; depois sepulta-o como te aprouver e como te parecer mais de acordo   com as leis.